De 'Fleabag' a 'Euphoria', heroínas de séries de sucesso se odeiam mais do que nunca

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pode parecer um delírio, ou ao menos uma insensatez, se envolver amorosamente com um padre, passar um ano desacordada à base de remédios prescritos por uma psicóloga de conduta bastante duvidosa ou manter um namoro de faculdade com um cara que só maltrata você. Uma nova geração de protagonistas que aparecem nas telas e em romances de 2016 para cá, no entanto, vivem trajetórias em que essas situações são centrais —e que o autodesprezo e a autodestruição são frequentes. A lista de séries e livros dos últimos cinco anos com essas quase anti-heroínas é extensa e leva também nomes de produções que são das mais aclamadas de nosso tempo. Enquanto em "Fleabag" e em "Meu Ano de Descanso e Relaxamento" as personagens adentram um humor autodepreciativo ou não têm lá muito motivo para seguir num trajeto que não seja a autodestruição, as estrelas de "Euphoria" e de "O Gambito da Rainha" boicotam suas vidas, cada uma à sua maneira, a partir da dependência de drogas, álcool e remédios. Já em "I May Destroy You", Arabella convive com o trauma de um estupro num drama bem distante do humor da também britânica "Fleabag", e Marianne passa a juventude atravessada pela relação conturbada com a família, principalmente com o seu irmão, em "Normal People". A escritora americana Lucinda Rosenfeld defende, numa coluna no New York Times, que o ódio à própria vida é tão intenso nessas personagens de romances como o de Sally Rooney e de Ottessa Moshfegh que as históricas Anna Karenina e Emma Bovary ganharam fortes competidoras. Ela também sustenta que, enquanto as criações de Flaubert e Tolstói parecem prisioneiras numa sociedade patriarcal, está muito menos claro o porquê desse descontentamento com o corpo e a vida numa geração com mais liberdade social e sexual. Mas será que é só de autodestruição que se trata essa leva recente de personagens? Não é o que pensa a psiquiatra e escritora Natalia Timerman sobre a patricinha que dorme durante um ano para superar a depressão —vale lembrar que a atriz Margot Robbie é cotada para dar vida à personagem no cinema. "Ela aparentemente é alguém que se destrói, que quer dormir e não tem plano algum, nenhuma profundidade", diz Timerman. "Mas se a gente olha com mais atenção, essa mulher bonita, com tudo, que tem uma vida em que não falta nada, tem uma questão do nosso tempo que é a falta de falta. A sensação de que não falta nada é, em si, uma falta." A psiquiatra vê na trajetória dessa órfã de pais ricos uma série de paradoxos e uma discussão profunda sobre a aparência. Ela se destrói, por exemplo, com remédios, tidos como algo que são, na verdade, para o cuidado. Depois da série de pílulas para evitar qualquer sentimento, de irritação à solidão, ela também vê filmes para tentar sentir tristeza. Sobre essa nova onda de heroínas autodestrutivas, a professora de cinema na Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap, Luciana Rodrigues relembra um dado básico —não existe personagem equilibrada na dramaturgia. "Se ele está em equilíbrio, não serve como personagem", diz. O que essas personagens podem trazer para as telas, na verdade, é uma trisimensionalidade e uma reivindicação de se fazer o que bem entender com as dores existenciais, sejam elas decorrentes de traumas ou de futilidades, algo que já aparece nos anti-heróis masculinos. "O que estamos vendo é que todo grupo minimizado é visto como representação desse grupo. Só o homem branco e cisgênero é representação dele próprio e não tem compromisso com nada. Historicamente, vemos homens ferrados, machistas, egoístas e exploradores que geram empatia." Antes dessas produções mais recentes, Rodrigues lembra um título que marcou os anos 2000, "Sex and the City", que terá novos episódios ainda neste ano. Samantha, por exemplo, era um grande símbolo de sexualidade. Mas, mesmo que também estivessem buscando seu lugar no mundo e apoiassem umas às outras, namorar e casar são quase vícios para esse quarteto —que assume uma série de comportamentos abusivos, inclusive. Clarice Greco, doutora em comunicação pela Universidade de São Paulo e pesquisadora de séries, atribui essa explosão de protagonistas femininas ao próprio crescimento da produção de seriados —um levantamento da FX mostra que, em 2019, 532 séries foram ao ar nos Estados Unidos, um número 52% maior do que em 2013, por exemplo. No final do último século, ela avalia que as mulheres aparecem com mais frequência em comédias mais familiares, ainda sem muita profundidade. É nos anos 2000 que surgem as obras com protagonistas mais complexas, como em "Grey's Anatomy", "Gilmore Girls" e "Sex and the City". Essa virada para uma carga mais forte psicológica, segundo a pesquisadora, acontece só no fim da última década —e pode estar relacionada à força que a discussão sobre saúde mental ganhou. No paralelo que a escritora americana Lucinda Rosenfeld faz dos romances contemporâneos com Anna Karenina e Emma Bovary não aparecem duas diferenças. A primeira é que, no século 21, ninguém morre no final, pelo menos não até agora. A segunda são os próprios estímulos para criar os romances. "Quando Tolstói começou a escrever, sua ideia era escrever um romance sobre a traição e sobre como a traição destrói a família. Para ele, foi importante escrever um romance familiar", diz Elena Vássina, especialista em literatura russa e professora da USP. "Flaubert foi uma história do adultério, da Emma, que fica envolta contra esse casamento ser amor, contra a vida entediante. Tolstói queria o contrário —defender os valores familiares." Há, no entanto, um aspecto ressaltado pela pesquisadora que aproxima todas essas personagens. Ela vê nesse processo autodestrutivo de Anna Karenina uma pulsão intensa de vida. "Ela mostra, para nós, como a vida é multifacetada", diz Vássina. É essa ambivalência que Natalia Timerman enxerga em "Fleabag", por exemplo —dados autobiográficos, assim como na história de Phoebe Waller-Bridge, estão num recente romance ficcional da psiquiatra, "Copo Vazio", em que a protagonista sofre com ghosting. "É quase como se fosse a junção da pulsão de vida e de morte. É um descompasso entre o desejo e o possível, entre o que ela quer e o que a sociedade quer dela. Acho que ecoa a questão de como legitimar o próprio desejo. O próprio desejo é autodestrutivo mesmo ou é a sociedade que o enxerga como autodestrutivo?" Luciana Rodrigues, a professora da Faap, lembra que "I May Destroy You" também têm traços da própria biografia da britânica Michaela Coel e que essas séries estão na esteira de uma diversidade de roteiristas e diretores no cinema. "Em maior ou menor grau, todo autor fala de si. A forma que uma mulher vê é diferente de um homem. A forma que uma mulher negra vê é diferente de uma branca, ou de uma mulher trans", ela afirma. "Quanto mais visões de mundo se tem, maior a riqueza de personagens e maior vai ser a representação que se gera." * ANTI-HEROÍNAS DO AUTODESPREZO Meu Ano de Descanso e Relaxamento Uma patricinha, órfã de pais ricos, decide passar um ano dormindo sob efeito de medicamentos para lidar com uma depressão nesse romance de Ottessa Moshfegh Normal People O romance de Sally Rooney, que virou uma série no ano passado, mostra um caso amoroso entre Marianne Sheridan e Connell Waldron Fleabag Com um humor autodepreciativo, Phoebe Waller-Bridge vive uma protagonista que tenta manter um café em Londres O Gambito da Rainha Fenômeno do ano pandêmico, série da Netflix mostra a história de Elizabeth Harmon, uma enxadrista órfã que é também viciada em calmantes Euphoria Rue, personagem de Zendaya, é uma adolescente dedicada que logo lida com uma dependência química I May Destroy You A escritora e atriz britânica Michaela Coel partiu de uma experiência pessoal para criar essa série cuja protagonista, Arabella, é violentada sexualmente