Defendida por Flávio Dino, frente anti-Bolsonaro esbarra numa pedra chamada Sergio Moro

Matheus Pichonelli
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O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), durante entrevista ao Yahoo Notícias
O governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), durante entrevista ao Yahoo Notícias

Uma aliança ampla para enfrentar Jair Bolsonaro, candidatíssimo à reeleição em 2022, não desemboca, mas passa necessariamente pelo Maranhão de Flávio Dino (PCdoB) antes de ir a campo. No momento em que se olha para os EUA de Joe Biden, democrata que bateu o incendiário Donald Trump pela via da moderação, Dino se apresenta por aqui como o nome à esquerda capaz de costurar acordos ainda hoje delicados.

À esquerda, Lula e Ciro Gomes ensaiam um cessar-fogo que quase dinamitou pontes desde a eleição de 2018. Entre uma ponta e outra do mesmo lado do campo, o governador maranhense tenta desde já operar como uma espécie de aparador de arestas. De aresta em aresta, o campo progressista olha para o outro lado em busca o que se convencionou chamar de “centro”.

Isso exige conversas de todo tipo. Inclusive com Luciano Huck, nome aventado como possível candidato a presidente em 2022. Dino e Huck já sentaram para conversar. Não uma vez. Várias.

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Foi o que contou o governador do Maranhão em sua entrevista ao Yahoo Notícias na segunda-feira 9.

“Nesse momento talvez tenhamos que fazer essa escolha. Vamos deixar o Bolsonaro ganhar? Deus nos livre! O Brasil não aguenta, a Amazônia não aguenta, o Pantanal não aguenta, mulheres e negros não aguentam mais quatro anos de Bolsonaro. Por isso tem que conversar com Huck”, justificou.

Segundo Dino, grandes conquistas do campo congressista sempre derivaram de alianças e concessões. Isso desde o varguismo, passando pelo abraço de Paulo Maluf em Fernando Haddad na disputa pela prefeitura de São Paulo em 2012 e a parceria do PT com o PL de José Alencar para chegar à Presidência em 2002 .

“Você tem que fazer mediação programática. Pode até não fazer. Mas não vai ter maioria”, disse o governador, para quem é vital, em uma democracia, a existência do pensamento heterogêneo. “Por isso busco interlocutores que se aproximam de nossa visão. Estou tentando desbravar este território.”

Nestas conversas cabe um pouco de tudo. De Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre a ACM Neto e João Doria. “Eles podem ter papel para derrotar extremismo”, afirma Dino.

Este desbravamento em busca de denominadores comuns ganhou uma pedra no caminho desde o começo da semana: o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sergio Moro, centro do noticiário desde que foi revelado o seu encontro com o apresentador da TV Globo.

A frente Huck-Moro com vistas a 2022 é noticiada como se tivesse na fachada o signo de terceira via pelo centro, denominação contestada por Flávio Dino.

Para ele, Moro está muito bem aninhado ao campo bolsonarista, no limite da extrema direita. Tanto que até torce pela sua candidatura. Desde que longe.

Com Moro em campo, afirma, a base do atual presidente se divide e se enfraquece entre a direita lava-jatista e a direita bolsonarista. Um eventual segundo turno entre os dois é o que ele chama de pesadelo. A dois anos do pleito, é ainda impensável, segundo o governador, imaginar o campo progressista aderindo a um símbolo da Lava Jato para derrotar Bolsonaro.

Antes, é preciso avaliar se Moro teria musculatura para encabeçar este arco, que já puxa o gancho também em direção a Luiz Henrique Mandetta, ex-ministro da Saúde igualmente enxotado por Bolsonaro, e alguns militares dissidentes.

Dino prefere acreditar que Moro não tem base de sustentação para chegar ao Planalto. Sua análise é que as vias estão trancadas para ele. Isso porque Moro seria uma unanimidade negativa no campo político, não tem ambiente no campo jurídico e brigou com o bolsonarismo, de quem é “garantidor” e “filho”.

A especulação em torno de sua candidatura, afirma o governador, são uma tentativa, isso sim, de quebrar o isolamento em que Moro se meteu. Se ainda assim a ideia vingar, ele vaticina: essa candidatura será um monumental fracasso.

Dino lembra do alinhamento do ex-juiz com o atual governo há até pouco tempo, quando mandava a Polícia Federal investigar jornalistas e defendia o excludente de ilicitude.

“É muito difícil caminhar com uma via alternativa de centro ou progressista com Sergio Moro, até pelos abusos que ele cometeu como juiz. Vai ser difícil se desvencilhar disso. Não sei nem se ele quer.”

Para Dino, o ex-ministro teria de passar antes por uma “quarentena”. “Acredito em conversão. Vai que ele entra na estrada de Damasco e vira Paulo. Por enquanto ele é Saulo”, ironizou.

Até 2022, há muitas arestas a serem aparadas e algumas pistas já rascunhadas no caminho. Como não existe um Biden entre nós, a aposta é que a disputa presidencial daqui a dois anos siga a letra de Aldir Blanc e João Bosco, com “dois pra lá e dois pra cá”. Em outras palavras, estará em campo uma direita mais dividida e uma esquerda não unida, com todo mundo tentando “polarizar o sentimento médio do Brasil”. “Quem capturou isso no segundo turno de 2018 foi o Bolsonaro.”

Para Dino, a disputa pelo centro, um não-lugar que se define pela exclusão, nem à direita nem à esquerda, não tem forma própria mas se adequa, está aberta. Mas vai ser difícil em um país como o Brasil ter uma liderança a partir dali, vaticina.

A aposta é que a esquerda, segundo ele mais amadurecida, está hoje mais perto de alcançar o sentimento de mediação da sociedade à medida que Bolsonaro perde força. Mas erra, segundo ele, quem achar que o presidente chegará “totalmente destruído em 2022”.

Para Dino, Bolsonaro está mais fraco hoje do que estava em 2018. E estará mais fraco em 2022 do que está hoje. Há razões, segundo ele, para apostar em seu declínio, inclusive a conjuntura internacional, marcada pela queda de Trump. A maior delas, porém, é a confusão no campo econômico e as dificuldades do governo em fazer a lição básica em temas relacionados ao orçamento do ano que vem, que herdará a hecatombe da covid-19, ainda sem hora para acabar.

Mesmo assim, não tem dúvida de que “nosso principal adversário é o Bolsonaro”.

Em tempo. Bolsonaro disse ontem que não haveria problema algum, por parte do governo, em adquirir qualquer vacina contra o coronavírus, desde que tivesse autorização da Anvisa. Pouco depois, a Anvisa determinou a interrupção dos estudos clínicos da Coronavac no Brasil, que estava sendo testada em São Paulo e tinha sido anunciada pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB), seu adversário político.

Em tempos normais, ninguém duvidaria da legitimidade da determinação. Hoje duvida-se, mesmo que seja totalmente legítima. Essa desconfiança é fruto direto da avacalhação das instituições sob o comando de Bolsonaro. Será também o seu maior legado.