Filme sobre corrupção em escola arranca o melhor de Hugh Jackman

WALTER PORTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Acostumado a interpretar personagens maiores que a vida - heróis de quadrinhos, protagonistas de musicais, mocinhos de épicos -, é raro que Hugh Jackman se deixe entrever como um homem comum.

"Má Educação", filme lançado há pouco pela HBO depois de estrear no Festival de Toronto, permite essa oportunidade incomum - e dá gosto ver como o ator australiano aproveita a chance, num papel que tem sido incensado como o melhor de sua carreira.

É um filme feito para TV? Sim, mas em plena quarentena, sem telona nenhuma acesa e com o streaming pegando fogo, essa distinção parou de fazer sentido. Além disso, nem Jackman nem o diretor Cory Finley têm intenção de encarar a obra como coisa menor ou se adaptar a qualquer zona de conforto.

A história de um escândalo de corrupção real numa escola pública do estado de Nova York é filmada com vigor e ironia fina, compondo um drama com toques de thriller de primeira qualidade.

O caso é baseado num evento descrito como "o maior roubo de escolas públicas da história dos Estados Unidos" pelo roteirista Mike Makowsky - que foi aluno do colégio Roslyn na época em que a trama acontece e consegue manter o interesse elevado mesmo depois que as revelações chocantes são todas feitas, com controle invejável de narrativa.

O furo do caso, aliás, foi dado em 2002 pelo próprio jornalzinho dos estudantes da instituição, depois repercutido por veículos como o New York Times e a revista New York.

Então amadora, a jornalista adolescente, Rebekah Rombom na vida real, não deu bola para o cala-boca vindo da administradora da escola e começou a fuçar em seus livros de contas, que afinal eram de registro (e interesse) público.

A tal gestora, que é pega desviando fortunas para nadar de braçada em produtos de luxo, é vivida por Allison Janney, vencedora do Oscar por "Eu, Tonya". Ela arrasa, como de hábito, num papel com muito mais camadas do que aquele que lhe rendeu o prêmio da Academia, enquanto é função de Jackman viver o protagonista, o superintendente escolar que é o esteio moral do filme. Ou será que é?

Poucas vezes se viu o ator usar seu infindável carisma com tanta consciência de como ele pode servir para mascarar segredos e torpezas.

Filmado numa luz desfavorável por uma câmera fascinada pelo defeito, que ressalta a beleza no ambiente burocrático da escola pública e a banalidade num ator acostumado a ser visto sob holofotes extraordinários, Jackman abraça a contradição.

Atuar e mentir são lados da mesma moeda, e aqui Jackman atua como alguém que atua; um homem que sabe que o meio para alcançar os patamares que julga merecer depende de manter uma persona pública o tempo todo. E não entende exatamente o que resta quando precisa descer do palco.

É muito fácil odiar quem prevarica com dinheiro público, mas é muito difícil odiar Hugh Jackman, especialmente quando ele não quer ser odiado. Lembremos que, afinal, corrupção é um crime baseado na lábia - e quem tem carisma sabe convencer que comete crimes de forma honesta.

O misto de insegurança e firmeza, dignidade e cinismo que Jackman incorpora é digno do panteão dos melhores atores. E vale ser visto por um público sedento de cinema.

MÁ EDUCAÇÃO

Disponível no HBO Go

Elenco: Hugh Jackman, Allison Janney, Ray Romano, Geraldine Viswanathan

Produção: EUA, 2019

Direção: Cory Finley

Avaliação: muito bom