Filme português busca inventividade e quase beira o sublime

SÉRGIO ALPENDRE

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um letreiro nos informa o local: campo de tiro em Alcochete, ao sul de Lisboa, a maior base militar da Europa. Assim começa o longa português "Campo", de Tiago Hespanha.

Em seguida, vemos imagens incomuns. Árvores na escuridão, uma parca luminosidade que nos sugere o momento anterior ao alvorecer. Enquanto uma narração (do próprio diretor) praticamente sussurra: "No início, era o caos. Não havia luz. Não havia terra. Não havia dia. Nada...".

O espectador casual talvez saia revoltado antes mesmo que surja mais luz, atormentado por aquela voz que insiste em nos convidar para o sono ou a contemplação. Mas quem estiver à procura de algo diferente saberá estar diante de um filme que não vemos com frequência.

Nem documentário, nem ficção, e os dois ao mesmo tempo. É poesia cinematográfica não premeditada, mas alcançada pela qualidade da observação e pela precisão nos tempos.

Há alguns anos o cinema português nos propõe alguns dos melhores filmes que podemos ver, obras que primam pela procura da maneira mais inventiva de narrar uma história.

"Campo" chega com essa busca por inventividade e o rigor na sucessão de imagens e no tom, entre o grave e o humorístico, o soturno e o solar.

É do tipo de longa que não entrega o que vem pela frente. Quase tudo nele é imprevisível, misterioso, e paradoxalmente, rigoroso, austero. É sobretudo um filme sobre o qual não temos como falar em termos de história. Seria cair num engano conteudista.

Se há um ponto fraco em "Campo", está nos momentos em que se aproxima de um documentário convencional, com pessoas dando depoimentos diante da câmera em uma necessidade de verbalizar os assuntos.

É pouco, diante da força das inúmeras imagens originais que vemos nos 100 minutos desse longa que por vezes beira o sublime.

Campo

Avaliação: muito bom

Portugal, 2019.

Direção: Tiago Hespanha. 12 anos. Em cartaz