Filme norueguês em Cannes expõe desassossego e procuras dos millennials

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CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Julie é jovem, bonita e inteligente, mas nada que advém disso a satisfaz. Suas tentativas para descobrir quem é e o que quer da vida são o tema de "The Worst Person in the World", ou a pior pessoa do mundo, que estreou nesta quinta-feira no Festival de Cinema de Cannes.

O diretor norueguês Joachim Trier, que é parente distante do dinamarquês Lars von Trier, acompanha quatro anos dessa busca numa história dividida em 12 capítulos, com prólogo e epílogo.

De primeira aluna da classe, loira e perfeccionista, Julie passa a ruiva e morena, muda de profissão. Ela se apaixona e se desencanta, se separa dos homens com que mora, e do pai que a escanteia.

Amor e família não saem do pano de fundo, mas em primeiro plano estão fronteiras delicadas e perigosas, nem sempre ultrapassadas -traição, entorpecimento, maternidade, doença e morte.

Esta é a terceira participação de Trier em Cannes, onde ele estreou com "Oslo, 31 de Agosto", de 2011, e recebeu boas críticas em 2015 com "Mais Forte que Bombas". Já o terror "Thelma", de 2018, foi indicado pela Noruega ao Oscar de melhor filme estrangeiro.

"The Worst Person in The World" é o primeiro filme falado em norueguês a concorrer à Palma de Ouro desde 1979. Sem depender da língua, as palavras são um personagem importante aqui, às vezes por ausentes, noutras por excessivas ou mal compreendidas.

O confronto é mais presente nas cenas em que Julie, em seus 30 anos, se relaciona com Aksel, uma década mais velho que ela, distância suficiente para que ele pareça de outro mundo. Racional e analítico, Aksel relembra com elogios os anos de sua formação "sem internet ou celular".

Julie, por sua vez, é o estereótipo da geração do milênio, sempre à procura do que não sabe definir e incapaz de querer algo até o momento em que o perde. Criada em tempos de feminismo, ela se ressente de decisões do amante nas quais vê sempre as prioridades dele.

Eclético, Trier experimenta em meio a uma narrativa em sua maior parte tradicional. Como em obras anteriores, tudo o que não precisa ser explicado sobressai ao dispensar explicações, em elipses oportunas, dramas delicados e humor sutil.

Num estranho contraclima final, o epílogo mostra uma Julie resignada e realizada, que vê pela janela uma aparente família feliz. Os créditos fecham com a bela versão em inglês de um dos sucessos do brasileiro Tom Jobim, "Águas de Março", cantada por Art Garfunkel.

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