Filme “Medida Provisória” convida todos a se posicionarem, “independente da cor da pele”

Elenco de
Elenco de "Medida Provisória" na pré-estreia, em Salvador (Foto: Divulgação)

"Você não está fora, você também faz parte, independente da cor da sua pele". Essa é a mensagem que o filme "Medida Provisória" quer passar ao abordar o racismo no Brasil, segundo o roteirista Elísio Lopes Jr. Ele assina o texto ao lado de Aldri Anunciação, ator e autor da peça que serviu de inspiração para o longa-metragem, "Namíbia, não!", e de Lázaro Ramos, que estreia como diretor no projeto.

A trama, que finalmente estreia nos cinemas nesta quinta-feira (14), é centrada em um futuro distópico em que um governo autoritário tenta mandar todos os negros do Brasil para a África. A partir da imposição, se forma um grupo - o afrobunker - para resistir ao ato institucional.

Com isso, ao falar sobre o filme, os realizadores ressaltam que a obra pretende dialogar com todos os públicos, uma vez que a discriminação racial não pode ser pauta apenas de quem sente o preconceito na pele. "Esse filme traz uma proposta de romper com essas barreiras tênues a partir do momento que a gente traz uma distopia, quebra a lógica. É quebrada essa lógica e ver como é que esse corpos se posicionam neste ambiente onde as regras não são seguidas, onde os direitos humanos não são respeitados", afirma Lopes Jr, em entrevista coletiva realizada no UCI Orient Shopping da Bahia, em Salvador, no último dia 30.

O roteirista participou do evento ao lado de Aldri Anunciação, Lázaro Ramos, Tia Má e o ator britânico Alfred Enoch, protagonista do filme. Esse, inclusive, foi o primeiro longa-metragem brasileiro do qual o inglês participou.

Lázaro Ramos e Alfred Enoch em pré-estreia do filme
Lázaro Ramos e Alfred Enoch em pré-estreia do filme "Medida Provisória", em Salvador (Foto: Divulgação)

Questionado pelo Yahoo, Enoch disse que nem hesitou quando Ramos o convidou para participar do projeto pelo desejo de trabalhar ao lado do diretor e no cinema nacional. Mas ele também foi cativado pela "oportunidade" de falar sobre temas complexos e estruturais da sociedade.

"Eu queria que meu trabalho não fosse só pra entreter, mas que também abordasse esses assuntos sociais porque eu me preocupo com essas coisas, sabe? Eu acho que o trabalho de criar uma sociedade mais justa, mais igual, é um trabalho que temos que fazer todos juntos", defende. No Brasil, os projetos mais conhecidos de Enoch são na saga de filmes "Harry Potter" e na série americana "How to Get Away with Murder".

Dívida do cinema

Além de retratar o racismo como problema de toda a sociedade brasileira, Lázaro Ramos também se propôs a retratar os artistas negros com um outro olhar. Ele conta que, quando decidiu começar na direção, estudou a fotografia do filme "Se a rua Beale falasse" (2018) para entender como fotografar a pele negra com nobreza e mostrar as subjetividades dos personagens.

"Pô, a gente fala tanto de cinema preto, cinema preto. O que é cinema preto? No meu caso, eu descobri que o cinema preto é opinião. Eu não queria mostrar a pelo preta que aparece em alguns filmes assim, suada, decrépita. Eu queria mostrar ela do jeito que está nesse filme porque é uma maneira de trazer aproximação para as pessoas e humanização. Muita gente que fez consultoria no filme falou que o filme tinha que começar na hora que os negros são perseguidos. Eu falei: 'não!'. O filme tem que começar com a comédia e com a rotina. Tem muitos filmes pretos que falam da gente só a gente já animalizado. (...) É uma coisa que eu acho que o cinema está devendo pro preto", argumentou.

Uma das cenas que destaca essa humanização é quando Capitu (Taís Araujo) e Antônio (Alfred Enoch) dançam ao som de Elza Soares. "Aí a emoção vem", ressalta Ramos. Para se emocionar, se entreter e, principalmente, refletir, "Medida Provisória" pode ser assistido a partir desta quinta em cinemas de todo o Brasil.