Filho de Armínio Fraga exibe sua faceta de 'ateu místico da natureza' em novo disco

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Era fim de tarde desta segunda-feira, e o barulho das motocicletas cortava o silêncio do Jardim Botânico, na zona sul do Rio de Janeiro. Entre caos e bucolismo, o rosto de Sylvio Fraga resolvia aquele contraste, oferecendo aos passantes um semblante sereno, típico de um sujeito boa praça.

O poeta, cantor e compositor de 36 anos lançou, em abril, seu quarto álbum, "Robalo Nenhum", e prepara um novo livro de poemas, "Quero-Quero na Várzea", a ser lançado em outubro. "Esse é o primeiro disco com o qual me sinto totalmente representado, talvez seja uma questão de maturidade", ele diz, bebendo café na calçada.

Filho do economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central e sócio fundador da Gávea Investimentos, o artista, que chegou a se formar em economia na PUC-Rio, reforça, em "Robalo Nenhum", seu interesse pela musicalidade das religiões de matriz africana, prenunciado em "Canção da Cabra", de 2017, disco assinado em parceria com o maestro Letieres Leite, morto em outubro do ano passado.

Foi graças ao músico baiano, aliás, que Fraga passou a estudar percussão, entendendo que sua música teria o ritmo como alicerce. "Quando ouvi a Orquestra Rumpilezz, lá em 2016, fiquei maluco. Aquilo resolvia o que queria dizer", afirma. Não por acaso, as composições do novo disco são embaladas pelo som dos atabaques de Luizinho do Jêje e Reinaldo Boaventura. Já o trompete de José Arimatéa acrescenta sofisticação às composições, se combinando à percussão com textura refinada.

Na primeira faixa, entramos, em tempos apocalípticos, num "Mini-Dilúvio", como descreve o verso "gota a gota que dana a jangada/ que tomba na boca da morte". A canção tem aura construtivista e mimetiza o barulho da chuva. Se estivesse num livro, cada sílaba –ou gota– do poema ocuparia um verso, sem perda semântica.

Em dois momentos de "Robalo Nenhum", a temática da relação entre o ser humano e a natureza, talvez a principal inquietação de Fraga, aparece de forma evidente. Por ironia, a letra de "Um Baobá e Eu", a exemplo de "Mini-Dilúvio", não foi escrita por ele mesmo, mas pelo compositor Thiago Amud, que conhece tão bem o amigo. "Tenho fé na natureza. Eu nasci com esse encanto, sou um ateu místico da natureza", diz Fraga, que vive rodeado pelo cão Panda e os gatos Roger e Ilú.

Já em "Igbadu", o culto à natureza toma a forma de uma oração, que busca desvendar a metafísica numa melodia misteriosa. "Conversa com Um Gambá", por sua vez, agrega um tom soturno ao disco. "Desejo apenas na vida/ acertar o alvo fino/ de morrer depois dos pais/ de morrer antes dos filhos", diz a letra.

A faixa "Robalo Nenhum" representa a intersecção entre o disco homônimo de Fraga e "Quero-Quero na Várzea", seu quarto livro de poesia, já no prelo. Na coletânea, há um poema com o mesmo nome do álbum e da canção, mas de conteúdo distinto.

"Na maioria das vezes, a letra é feita depois da música. É verdade que ‘Robalo Nenhum’ tem uma melodia que não se encontra muito na canção, mas isso é o que eu busco. Não sinto nenhum prazer fazendo algo que já ouvi", ele explica. "A gente precisa lidar com algum mistério."

Na escrita, o compositor esbarra no poeta –e vice-versa. Nega caminhos melódicos intuitivos, evita rimas dadas e se distancia dos refrões pop. Fraga, porém, faz questão de separar as duas águas por onde navega.

"Existe um lugar onde pode haver mistura entre poema e música, mas, quando estou trabalhando num poema, estou em outro universo. Não gosto de leitura de poesia, acho muito chato. Eu gosto do poema em silêncio."

Os temas, contudo, podem ser comuns, tanto na música quanto na poesia, como o interesse pela natureza, que também se destaca em "Quero-Quero na Várzea". Não à toa, há duas forças operando na poética de Fraga. Se o eu lírico investiga os mistérios da fauna e da flora da cidade, ele se recolhe no conforto do lar –e da vida familiar–, afirmando sua polidez de poeta discreto.

O apreço pelo ambiente intimista, que já aparecia em "Cardume", de 2015, é intensificado na nova obra, marcada pelo nascimento de Felix, de dois anos e meio. "A chegada do meu filho trouxe uma intensidade tão grande à vida, que é impossível isso não escoar para a arte."

A expectativa pelo nascimento do bebê e seus primeiros anos estão ali em ordem cronológica, numa elaboração da paternidade, que acaba por exaltar a figura da mulher, a mãe. "Dorme a mulher/ ela e nossa filha ou filho/ de 3,6 milímetros/ conforme as imagens de satélite", diz o poema "Raiz".

Ao mesmo tempo, lá está o eu lírico transfigurado em gatos, cabras, garças, integrado à natureza, como em "Galinheiro Universo" —"deito e ouço meu sangue/ fazendo curvas com as galinhas".

Fraga se diz realizado artisticamente. Afinal, como diz "Quero-Quero na Várzea", "me satisfaço com pouca atenção,/ a vida já me deu muito". "Cresci numa casa em que minha mãe e meu pai me deram muito amor, meu privilégio tem a questão material, mas é maior do que isso. Eu sou saudável, por exemplo."

Em poemas e canções, o artista parece em paz com o homem que se tornou. Ele se maravilha com a vida em seu sentido mais amplo, sem se esquecer, porém, de exercitar a compaixão. Por isso, ele deixa uma dica ao filho no poema "Talvez Ele Leia este Livro" —"a sorte nos deixa egoístas/ mas é possível vencer isso como os animais:/ prestando bastante atenção".

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