Filha do jornalista que lançou Carolina de Jesus diz que seu pai foi invisibilizado

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Os atritos na relação entre a escritora Carolina Maria de Jesus e o jornalista Audálio Dantas, que receberam novo destaque após a reedição de textos da autora pela Companhia das Letras e uma exposição no Instituto Moreira Salles, ganharam novos contornos com a recente descoberta de documentos nos arquivos do repórter. E inflamaram os nervos dos descendentes dos dois.

Juliana Dantas, filha de Audálio, morto há três anos, disse que não pretende mais colaborar com a editora e que não cederá acesso dela aos arquivos de seu pai. Ela também reclama que o Instituto Moreira Salles, que fez pesquisas junto ao material que ela guarda, invisibilizou o papel de Audálio.

"Não vou brigar por um direito que não for meu, como publicar algo se não puder, afinal alguns escritos são da Carolina, embora os cadernos sejam do meu pai", afirma à reportagem. "Nessa história toda, há muito interesse por dinheiro e eu quero apenas provar a honra do meu pai."

Na última terça (16), o jornalista Tom Farias, biógrafo de Carolina, publicou detalhes de documentos inéditos que reforçam a ideia de que o convívio entre os dois foi marcado por parcerias, mas também por briga e disputas por dinheiro, como mostrou no jornal O Globo.

Os arquivos são de Dantas e reúne cartas, fotografias, balanços financeiros, contratos, relatos, textos de jornais e até mesmo procurações.

Em maio de 1958, enquanto trabalhava como jornalista na Folha da Noite e conduzia uma reportagem sobre o cotidiano da favela do Canindé, no centro de São Paulo, Dantas conheceu Carolina, moradora do lugar, e ficou impressionado com os escritos que ela mantinha em cadernos, relatando sua vida. Alguns desses textos foram publicados pelo jornal, sob o título de "O drama da favela escrito por uma favelada", e tornaram a escritora conhecida no país.

Mas, para Farias, a descoberta de material guardado no arquivo de Dantas "desconstrói algumas narrativas sobre a relação do jornalista com a escritora", segundo diz.

"Essa desconstrução tem a função primordial de estabelecer que, primeiro, Carolina surgiu a partir da iniciativa ousada do alagoano, que enfrentou resistência dentro do seu meio jornalístico e editorial quando colocou na cabeça a ideia de publicar uma 'favelada', ou uma 'analfabeta'", diz.

"A documentação mostra o quanto esse processo foi doloroso para ambas as partes: Carolina sofreu, como escritora, o 'cancelamento' da sociedade, que não a via como intelectual, e Audálio Dantas por querer 'impingir' uma 'figura exótica', sem base do conhecimento acadêmico. Por essas e outras, chegou a ser acusado de 'dono da Carolina',como um aproveitador de sua ingenuidade."

Para o biógrafo, o acervo inédito no qual se debruçou durante meses endossa que, ao contrário do que muitos pensam, o jornalista não fabricou a escritora, que também não era ingênua, apesar de viver às margens da sociedade. Uma história que dispensa maniqueísmos.

Em 6 de agosto, a filha de Audálio, Juliana Dantas, conversou com Farias e pediu que ele analisasse alguns documentos do seu pai que havia encontrado na casa da mãe. O biógrafo é autor do livro mais completo de Carolina, resultado de 15 anos de pesquisas.

O interesse de Juliana nesse acervo é limpar a imagem do pai. Isso porque o recente lançamento de novas edições de obras da Carolina pela Companhia das Letras tem causado polêmicas sobre a relação do jornalista com a escritora e provocado desavenças familiares.

No prefácio da nova edição de "Casa de Alvenaria", a escritora Conceição Evaristo e a professora Vera Eunice de Jesus, filha de Carolina, insinuam que ela nunca alcançou uma estabilidade em sua ascensão financeira devido a uma imposição de Audálio, que se opunha à publicação de textos de outros gêneros que ela produzia.

"Não estou tranquila com a ideia de que dêvo escrever o meu Diario da vida atual. Escrever contra a burguesia, eles são poderosos, pode destruir-me", disse Carolina em 23 de novembro de 1960, numa passagem que constou da primeira edição de "Casa de Alvenaria". "Audálio diz que eu devo escrever Diario, sêja fêita a vontade do Audálio", ela acrescentou no mesmo dia, conforme um dos trechos revelados na edição da Companhia das Letras.

"Varias pessôas perçebeu que o Audalio colocou-me num élo", escreveu em 13 de fevereiro. "Ate as minhas cartas ele abre. Isto é ousadia. Isto é falta de iducação. Começo a desgostar. Quando o branco auxilia o preto transforma o desgraçado em escravo."

Além dessas passagens, as novas versões das obras trouxeram muitos outros relatos de Carolina frustrada com o jornalista, o acusando de impor muitas limitações a ela.

Juliana afirma que nunca soube dessas desavenças entre seu pai e a Carolina, ou pelo menos não nesse nível que foi exposto. Segundo ela, que assim como o pai é jornalista, Audálio não só tecia muitos elogios à escritora, como dizia que ela representava "a passagem mais importante de sua carreira".

"Não sou a favor dessa narrativa de que ele a descobriu, ou de que deu voz a ela, porque sabemos que ela já tinha voz. Ele só ampliou isso", diz Juliana. "Também não digo que meu pai estava certo em todas as brigas. Mas estou vendo pessoas simplificarem essa história, que é muito rica e não precisa de um vilão, ou de uma mocinha. Penso, aliás, que é desrespeitoso ver Carolina como uma figura fragilizada."

Em meio à publicação dos relatos expostos pela Companhia das Letras, Juliana conta que sentiu, então, a necessidade de defender a honra de Audálio. Poucos dias após a publicação, ela já havia dito à Folha de S.Paulo que "qualquer acusação de má-fé é injusta" e que acreditava na honra do pai.

Agora, ela não só mantém o posicionamento, como tem em mãos os materiais inéditos que encontrou na casa da mãe e enviou a Tom Farias para análise.

"Uma vez 'rica', como a tachavam [após o sucesso de 'Quarto de Despejo'], e alguém já fora da favela, Carolina foi alvo de tudo, em especial de aproveitadores, de pessoas que viam que a presença de Audálio podia ser um empecilho para investidas sobre o dinheiro ganho pela mineira", diz o biógrafo. "O acervo só demonstra que é preciso repensar um pouco do que a Carolina escreveu, e do quanto Audálio é 'julgado' nesse processo."

Juliana critica a Companhia das Letras por não ter procurado a sua família durante a produção do relançamento das obras de Carolina. "São quase mil menções ao meu pai. Como não foram atrás dos familiares dele?", questiona.

Em nota, a editora afirma que recebeu "com muita alegria" a notícia de que há cadernos inéditos na casa de Audálio Dantas que correspondem aos diários da escritora.

"A obra de Carolina Maria de Jesus é viva e está em processo permanente de construção, e desde o início trabalhamos com a possibilidade de que escritos inéditos pudessem surgir após a publicação, o que foi indicado em nota editorial em ambos os volumes", diz a nota.

Ainda segundo a editora, por intermédio de Vera Eunice, a Companhia consultou a mãe de Juliana sobre a possibilidade analisar o acervo pessoal do jornalista para averiguar seu conteúdo e se havia cadernos, o que não foi permitido por causa da pandemia.

"Temos total interesse em incluir o material inédito em futuras edições do livro e esperamos que nos seja concedido acesso aos escritos de Carolina", completa a nota.

Juliana, no entanto, diz que "a única coisa" que aconteceu foi o fato de Vera ter pedido acesso aos arquivos durante o período de isolamento social e, depois disso, ter sumdo. A jornalista afirma ainda que não pretende fazer colaborações com a Companhia das Letras e que não cederá nenhum arquivo à editora.

Para Farias, o dinheiro foi o principal estopim para o rompimento do contato de Carolina com Audálio, no início da década de 1960.

Além de criticar a Companhia das Letras, a jornalista reclama da mostra sobre a escritora que está em cartaz no IMS, o Instituto Moreira Salles, em São Paulo. Segundo ela, a instituição a procurou em 2019 para analisar arquivos da família Dantas.

"A gente leu junto, dei livre acesso ao IMS, mas depois nunca mais entraram em contato com o acervo", afirma, acusando a instituição de invisibilizar seu pai na exposição.

Em nota, o IMS afirma que manteve várias conversas com a família de Dantas, mas devido à pandemia não foi possível "prosseguir com os entendimentos".

"Fomos muito bem recebidos pela família e há interesse de nossa parte em seu acervo. Pretendemos retomar a conversa logo que possível", diz a nota.

"A exposição se debruça sobre a vida e a obra de Carolina Maria de Jesus, assim como sobre a sua dimensão de grande intérprete do Brasil. Ela não tem como tema a relação de Carolina com o Audálio. Achamos que essa relação só poderá ser melhor compreendida a partir do estudo de materiais que sabemos existirem no acervo relacionado com Carolina que a família de Audálio tem guardado e preservado com muito cuidado. Não houve e não há qualquer intenção do IMS, ou dos curadores da exposição, de apagar Audálio Dantas ou de se referir a ele de forma negativa. A relação entre Carolina e Audálio foi extremamente complexa e é essencial para o entendimento e a compreensão da riquíssima contribuição de ambos para a história do Brasil da segunda metade do século 20. A exposição traduz o que de contraditório existiu nessa relação, sem que isso seja seu tema."

Para Tom Farias, os documentos inéditos de Audálio Dantas, os quais continua estudando, têm muitos detalhes importantes sobre os pagamentos recebidos por Carolina --pagos pela editora Francisco Alves e por Audálio-- e mostram o quanto ela tinha consciência de que o jornalista não devia nada a ela.

"No acervo liberado pela família de Audálio, fica a ideia que Carolina não aceita a argumentação do jornalista, embora assine dando ciência do que ele esteja falando a verdade. Ainda é muito cedo para um parecer final sobre toda a documentação, que é muito extensa, mas muita coisa deve mudar no conceito ou na 'suspeição' que paira sobre o jornalista sobre sua conduta a respeito da escritora", diz ele.

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