Figurinista queria Juma 'sem roupa' e celebra 'Guta Regatinha'

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A enorme repercussão nas redes sociais da nova versão de "Pantanal", exibida pela Globo na faixa das 21h, ainda não se traduziu em moda nas ruas. Apesar dos memes, chapéus, botas e cintos com fivelas de respeito (Maria Bruaca que o diga!) não invadiram os grandes centros urbanos.

Exemplos não faltam de novelas que lançaram moda fora das telas. Algumas peças causam tanta identificação com o telespectador que até passam para a história com o nome da trama ou de algum personagem.

Quem não se lembra das meias de lurex de "Dancin' Days" (1978) e das camisas do Flamel (personagem de Edson Celulari em "Fera Ferida", de 1993)? Ou da pulseira-anel que Jade usou em "O Clone" (2001) e virou febre? Assim como a blusa ciganinha de Babalu (Leticia Spiller) em "Quatro por Quatro" (1994).

Então, por que a moda pantaneira não pegou? Responsável pelo figurino de "Pantanal", Marie Salles avalia que o fato de se tratar de uma trama, com quase nenhum elemento urbano, dificulta essa apropriação por parte do público. Não que o figurino passe batido. Pelo contrário. "As pessoas comentam muito", lembra a figurinista. "Só que não para usar. Isso eu tenho achado bacana. Elas comentam não pelo desejo de ter, mas por entenderem o personagem a partir dessas peças. Acho esse o maior ganho da novela."

Que o diga a personagem Guta (Julia Dalavia), que acabou recebendo o apelido de Guta Regatinha nas redes sociais, em referência ao modelo de camiseta com que ela sempre aparece em cena. "É um reconhecimento! Eu acho engraçado", confessa Salles. "As regatas dela caíram na boca do povo."

Na Globo desde 1997, ela já criou figurinos para novelas como "Avenida Brasil", "Cordel Encantado" e "A Favorita" (no ar no Vale a Pena Ver de Novo), entre outras. Atualmente, trabalha com uma equipe de 8 assistentes e 16 camareiros. Ela diz que começou a pensar nos figurinos de "Pantanal" mais de um ano antes da estreia.

Na época, em janeiro de 2021, a pandemia ainda impedia que ela pudesse ir até a região retratada, então o começo foi fazendo pesquisas online, além de buscar informações em livros, filmes e documentários. Quando finalmente conseguiu viajar, observou as cores do local e fez fotos do que ia encontrando.

"A minha primeira visita à locação foi muito importante para ver como as pessoas se vestiam e como se comportavam com as roupas", conta. "É uma relação diferente da nossa, porque lá faz muito calor, tem muito sol, as roupas ficam desbotadas. Como são lavadas no rio, ficam mais amareladas. Tem muito desgaste nas roupas dos peões, principalmente."

Nessa viagem, ela também fez compras em mercados locais e acabou usando um expediente menos usual nesse tipo de produção. "Eu troquei algumas coisas com peões de verdade, pegava a roupa velha deles e dava uma nova", revela. Algumas dessas peças estão sendo usadas pelos atores em cena, como uma camisa verde com xadrez de Tadeu (José Loreto) e uma calça de José Leôncio (Marcos Palmeira).

Mesmo já estando perto das locações, tudo precisou ser levado até o Rio de Janeiro para passar por um processo de envelhecimento e amarelamento. As roupas menos gastas eram lixadas. Para o personagem Velho do Rio (Osmar Prado), foi usada cera de abelha para fazer manchas mais pesadas na vestimenta.

Salles diz que assistiu à primeira versão da novela, exibida pela extinta Manchete em 1990, e que tentou apenas atualizar os personagens cujos perfis não mudariam muito.

Perguntada sobre qual o personagem mais desafiador de vestir, ela rapidamente responde: "Juma". "Ela não tem roupa, né? Ela é livre", explica sobre a personagem de Alanis Guillen. "Tive que fazer um personagem que não tem roupa. Para mim, é o mais difícil. Ela está sempre com essas roupas mais finas e leves. A sensação que eu queria que as pessoas tivessem era de que ela estava sem roupa."

Já Jove, papel de Jesuíta Barbosa, foi um dos que mais mudaram ao longo da trama. Ao chegar ao Pantanal, ele usava camisetas descoladas, mas depois passou a tentar se vestir como peão. "No começo, enquanto ele ainda está tentando se afirmar, era como se a roupa não coubesse nele", explica. "Agora ele já está em outra fase, mostrando seu lado administrador de negócios."

Para os peões, que a princípio poderiam parecer uma massa uniforme, ela tentou diferenciar a personalidade de cada um. "A gente conseguiu marcar bem com alguns detalhes, como os bordados na camisa e os lacres de refrigerante enfeitando o chapéu do Tadeu, que é uma coisa que eles próprios fazem no Pantanal, é de verdade, eu tenho isso fotografado de quando estive lá."

Há detalhes em todos os personagens. A Maria Bruaca de Isabel Teixeira, por exemplo, usa tons sóbrios por cima de lingeries de cores quentes, para ajudar a mostrar que há um vulcão por baixo daquela mulher controlada pelo marido.

Mariana (Selma Egrei) tem sua elegância quatrocentona explorada apenas com marcas nacionais --a única peça estrangeira do figurino é o chapéu de José Leôncio, comprado pela internet em um site americano--, enquanto o mordomo Zaquieu (Silvero Pereira) teve seus conjuntinhos estampados inspirados em uma pessoa que Salles viu no Instagram.

"Era o amigo de um assistente de direção, que eu achei que tinha a ver com o personagem", conta. "Eu ando observando as pessoas, como elas se comportam, como ele se vestem... Para mim, este trabalho tem a ver com o meu olhar para o outro."

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