Figura do gênio recluso e solitário é falsa, diz Steven Johnson em palestra

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O pesquisador Steven Johnson dedicou sua palestra no Fronteiras do Pensamento na noite desta segunda-feira (12) a derrubar alguns mitos sobre a inovação, seu tema predileto.

Primeiro, quis deixar claro que, nos avanços tecnológicos que importaram ao longo da história humana, o "momento eureca é um mito". "Ideias realmente inovadoras costumam levar décadas antes de se cristalizar em algo útil de verdade", afirmou, em palestra no Teatro Claro, em São Paulo.

Mais importantes nesses casos são o que ele chama de "palpites lentos", isto é, aquela ideia que você tem guardada no fundo da cabeça e que demora para fazer sentido prático, às vezes esperando surgir uma nova tecnologia para ser aplicada. "Por isso eu sugiro anotar tudo sempre", brincou.

Outro ponto ressaltado pelo autor, cujos achados sobre o tema viraram livros como "De Onde Vêm as Boas Ideias" e "Longevidade", é que a inovação costuma ser um processo feito em conjunto.

"Quando você trabalha em redes de colaboração, pode observar os problemas de ângulos diferentes e perder menos elementos relevantes da questão", disse, apontando que aí reside a importância de promover diversidade real dentro de equipes profissionais.

Um dos exemplos levantados por Johnson foi de um francês que conseguiu desenvolver uma máquina capaz de gravar sons décadas antes do fonógrafo inventado por Thomas Edison. A tecnologia do britânico foi a que acabou se popularizando por um motivo simples. Com ela, era possível ouvir a música gravada de volta. "Se o francês trabalhasse ao lado de um músico, e não sozinho, talvez isso tivesse ocorrido a ele."

A explanação de Johnson é tanto um elogio aos encontros e parcerias quanto ao que ele chama de "conectores", pessoas capazes de navegar por diferentes áreas e promover associações a que alguém excessivamente especializado é cego.

Foi uma fala voltada a derrubar a imagem do gênio recluso como motor dos avanços da história -e saudar no lugar a inventividade humana como coletivo.

O ciclo Fronteiras do Pensamento segue até novembro com uma palestra de Luc Férry já na próxima segunda-feira, seguida de Élisabeth Roudinesco e Marcelo Gleiser.