Fetichização em relacionamentos: receita para o erro?

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Mixed raced couple of students taking mobile phones. The surprised caucasian girl and her african boyfriend posing at studio . Communication and relationship concept
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Joice Pereira é uma analista de RH que mora em São Paulo, no bairro da Aclimação. Entre as idas e vindas do trabalho, ela nunca se esquece de três coisas, a máscara, o álcool em gel e a bateria de celular bem carregado para que ele não desligue em meio às dezenas de likes no Happn e Tinder. Já virou hábito: no trajeto até Alphaville para o trabalho, Joice foca nos dois aplicativos, procurando o pretendente perfeito, que na cabeça dela é muito definido.

"Eu sempre gostei de ruivos, eu amo o Ed Sheeran. É por eles que eu busco quando uso o Tinder ou o Happn, mas é muito difícil encontrar ruivo de verdade. Num dia bom, consigo dar like em um só, ou dois, com muita sorte. Mas continuo buscando", explica ela.

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Se o pretendente é alto, baixo, gordo ou magro, não importa. A fixação de Joice é com as sardas, o cabelo laranja e ela não abre mão. Segundo a administradora, ela nunca se interessou por caras com outro tom de cabelo e, embora ela tenha muita vontade de namorar, não pensa em flexibilizar a busca. "Até hoje, eu acho que fiquei com poucos ruivos, alguns eu acho que nem eram de nascença, mas eu curti. Me senti bem por conseguir o que eu queria tanto, mas sendo só umas ficadas", diz ela.

A assistente administrativa Letícia Pereira pensa de maneira parecida. Ela também se sente atraída por apenas um tipo, homens negros e, no caso dela, ela pensa que o motivo é mais profundo do que apenas atração física.

"Tenho muita atração por caras negros e acredito que seja porque uma pessoa mais alta e um pouco mais forte passa a sensação de proteção, sensação de conforto e de que vai sempre cuidar de você", afirma.

Letícia diz que suas amigas não vêem com bons olhos esta predileção, prevendo que ela ficará sozinha por causa disso. "Sou assim desde a adolescência. Eu tenho alguns filtros na hora de procurar alguém pra me relacionar, e de vez em quando abro uma exceção pra tentar conhecer alguém fora desse filtro", pondera.

Segundo a sexóloga Paula Napolitano, a sociedade e a mídia podem ser apontadas como as duas grandes responsáveis pelas pessoas se agarrarem tanto a certos tipos. "Há um entendimento que a sociedade e as mídias trazem de que a aparência tem papel fundamental e imprescindível. As características físicas normalmente são a primeira coisa a chamar atenção, e isso pode fazer com que as pessoas se fixem apenas nisso, e esqueçam todas as outras coisas importantes na busca por um relacionamento", explica.

Paula ainda explica que esta fetichização pode ser prejudicial para quem a pratica. "Nestes casos, você pode deixar passar pela sua vida pessoas que podem ter muito a ver com você, ou seja, a pessoa não dá oportunidade para pessoas com características que combinam com seu estilo de vida e com o que quer na vida, muito além do lado físico. Aspectos físicos fazem parte, claro, mas é importante saber o que esperar do relacionamento e da pessoa com quem você deseja se relacionar sejam valores, estilos de vida, projetos de vida, sonhos, expectativas", explica.

O publicitário Leandro Pereira se sente mais consciente neste aspecto. Desde a adolescência, ele se sente atraído por mulheres de descendência asiática, porém, ele se esforça para que a predileção não o impeça de enxergar outros potenciais matches amorosos. "Eu acredito que pode ser prejudicial uma pessoa tornar certos traços de atração em algo obrigatório para conhecer alguém, para que ela sequer dê o primeiro passo em uma relação. Eu não me prendo a perfis, mas reconheço que para mim rola uma atração física maior por orientais", diz ele.

Além da atração física, Bezerra também admira a cultura e o tipo de criação mais comum às famílias orientais, com ênfase em disciplina e perseverança, dois elementos que ele pondera que podem ter influenciado em sua predileção em relacionamentos.

"Fisicamente, o que mais me atrai são os olhos, formato do rosto e as coxas. E isso começou na época em que eu estava mais vidrado em Dragon Ball Z e comecei a frequentar o bairro Liberdade (em São Paulo). Por outro lado, também acho que a atração por este perfil persiste porque elas não têm nada a ver com o padrão que tentaram me impor quando eu era adolescente", finaliza.

Por enquanto, Letícia continuará não pensa em mudar seu modus operandi, ainda que reconheça que possa não dar certo. "No momento, eu estou focada em achar alguém com as características que eu gosto. Mas pode ser que eu não encontre e tenha que ser mais flexível, veremos".

O importante, de acordo com a sexóloga Paula Napolitano, é conseguir unir tudo aquilo que a pessoa não é capaz de deixar de lado num parceiro a uma postura mais aberta para as surpresas da vida. "Cada pessoa busca algo diferente, então antes de tudo é preciso se conhecer e entender o que se está procurando, ler os sinais do outro e ver se as coisas estão fluindo dos dois lados. Relacionamentos são sempre uma via de mão dupla, e é preciso se esforçar para que tudo dê certo".

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