Fetiche de Levi pelos pés de Maria Bruaca: conheça a podolatria e o “pack do pezinho"

Por Janaína Bernardino

Cena em que Levi beija os pés de Maria Bruaca em
Cena em que Levi beija os pés de Maria Bruaca em "Pantanal" (Imagem: TV Globo)

Nos últimos dias, a cena em que Levi (Leandro Lima) se encanta com os pés de Maria Bruaca (Isabel Teixeira) em "Pantanal" caiu na boca do povo. Nas redes sociais, comentários sobre especificidades do ato chamaram atenção. O toque, os beijos e lambidas, deram abertura a um tema, um tanto que tabulado, taxado de estranho e cômico.

Mas, afinal o que é esse encantamento por pés?

A podolatria é um tipo de parafilia (preferência sexual fora da normalidade) em que a pessoa obtém desejo pela interação com os pés. Ou seja, atos comuns que levam o podólatra, pessoa que tem fetiches por tal membro, a sentir um prazer intenso ao ver, tocar, beijar, cheirar e lamber esta região do corpo. Dessa forma, os pés de uma determinada pessoa, pode ser objeto de desejo e/ou admiração, potencializando, literalmente, o prazer na “ponta dos pés”, de quem se sente atraído.

Segundo especialistas, para o podólatra, os pés não precisam necessariamente ser bonitos. O fetiche vai muito além da estética e está mais ligado a especificidades. Podem estar sujos ou com odores, ser grandes ou pequenos, estarem com ou sem sapato. Inclusive, uma fantasia comum aos adeptos é deitar no chão e se deixar pisar, com salto agulha.

Ainda que a podolatria, por muitas vezes, seja encarada como algo estranho, ela é mais comum do que parece e acomete grande parcela do sexo masculino. Em menores casos, mulheres também podem sentir tesão pela área.

O pesquisador G. Scorolli, da Universidade de Bolonha, em 2006, conduziu um dos principais estudos sobre a presença de fetiches, onde analisou 381 comunidades frequentadas por, em média, 5 mil usuários. Tal estudo evidenciou que a atração por uma parte do corpo é o fetiche mais comum, representando 30% dos fetichistas, que se interessam por pés ou objetos que se relacionam com o mesmo, como meias, sapatos e etc.

Desde então, o assunto viralizou e tornou-se motivo para que as pessoas comercializassem o famoso “pack do pezinho” (pacotes com imagens de pé). Provavelmente, se você está conectado às redes, já se deparou com alguma pessoa que tenha tal atração pelos pés, seja recebendo um pedido anônimo ou caindo em alguma conversa sobre o tema.

Pack do Pezinho

Foi assim que a estudante de História, Maria Alice*, de Goiânia (GO), soube que o fetiche alheio poderia ser uma fonte de renda extra. “Eu comecei, efetivamente, em 2020, na pandemia. No início, não me sentia confortável, mas existia uma necessidade de buscar dinheiro”, conta. "Depois, houve um fascínio de conquistar money 'muito fácil', ainda que não seja, pois depende de muita coisa".

A estudante relata que fazia as comercializações em uma plataforma específica e de difícil acesso. “É um ambiente virtual em que as pessoas não imaginam que é um antro de coisas que fogem da “normalidade”, diz. “São diversas salas de bate-papo que são feitas, justamente, para vender. Mas, se olharmos, qualquer espaço pode se tornar um local de venda, há diversas possibilidades”, complementa.

Maria Alice não especifica quantos clientes já atendeu ou qual seria o valor de seus combos, mas ressalta que tudo dependia das exigências feitas, já que as negociações não focam apenas em fotos. Vídeos também entravam no “contrato”. Neste meio tempo, ela já faturou em média R$11 mil.

Homem beija pé de mulher que usa salto (Foto: Getty Creative)
Imagem ilustrativa (Foto: Getty Creative)

Quando questionada sobre os perfis que atendia, ela conta que eram os mais diversos possíveis, normalmente homens de 20 a 50 anos, com diferentes gostos. Ainda frisa que um podólatra pode ser pessoas de seu convívio.

“Há um processo até a finalização da venda, porque é necessário confirmar se você é uma mulher ou não e até esse processo se concluir, você percebe que o sujeito que está atrás da tela, é alguém comum”, comenta. “Se não fosse um tabu, as pessoas conseguiriam visualizar que o podólatra é o padeiro do mercado, um amigo próximo, o advogado da família ou um músico famoso… Pode ser qualquer pessoa”, ressalta.

Ainda que não sinta tal desejo pelo pé alheio, após entrar neste meio, de comercialização dos packs, Maria Alice entendeu que a sexualidade e sua forma de expressão são coisas infinitas e fluidas. Desse modo, concluiu que julgar uma como superior ou inferior a outra é uma forma de propagar preconceitos.

“São pessoas que não tem um espaço de qualidade para falarem sobre isso na vida pessoal e que estão ali buscando formas de se expressar”, avalia.

*O nome da fonte foi alterado para preservar a identidade dela.

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