Festival de Inverno de Bonito tem 'fora, Bolsonaro' e artistas fazendo 'L' de Lula

BONITO, MS (FOLHAPRESS) - Coros de "ei, Bolsonaro, vai tomar no cu" da plateia e o "L" de Lula feito por artistas marcaram a edição deste ano do Festival de Inverno de Bonito, em Mato Grosso do Sul, uma cidade onde carros exibem adesivos a favor do atual presidente pelas ruas e bandeiras do Brasil podem ser vistas com frequência.

Depois de uma pausa de dois anos por causa da pandemia de Covid-19, o evento cultural retornou para a sua 21ª edição entre o dia 25 e o último domingo com uma programação extensa com mais de 120 atrações, entre shows, peças de teatro, espetáculos de dança e circo, palestras, desfiles e slams que evidenciam a cultura regional. A estimativa é que o festival tenha recebido cerca de 80 mil pessoas nos quatro dias, segundo a organização do evento.

As manifestações políticas começaram de forma tímida no início do festival. O primeiro grande show, na quinta-feira, ficou a cargo do cantor Daniel, o representante do sertanejo no estado em que o gênero domina as paradas.

Quase sem pausa entre uma música e outra, o cantor entoou os principais sucessos de seus 40 anos de carreira ao longo de duas horas para uma plateia lotada e que cantava junto. No meio da apresentação, fez uma homenagem a Marilene Galvão, da dupla sertaneja As Galvão, morta no dia 24, e doou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida ao prefeito de Bonito, que subiu ao palco e fez promessas de asfalto novo na região --mas as intervenções políticas pararam por aí.

A paraense Gaby Amarantos subiu ao palco principal na noite seguinte para apresentar a nova turnê de seu álbum mais recente, "Purakê", e cantou sobre as águas da Amazônia em um show animado e até sensual. Recebeu menos público que Daniel, que atraiu fãs mais jovens.

No meio da performance, a plateia puxou coro de "ei, Bolsonaro, vai tomar no cu", que ganhou corpo --a cantora, porém, não estava no palco naquele momento. Nos aplausos finais, houve mais protestos anti-Bolsonaro, e, desta vez, Amarantos só observou a manifestação. "Isso acontece sempre, o povo tem que se expressar, e a gente deixa o povo falar", comentou ela, em entrevista após o show.

Vanessa da Mata, na noite de sábado, decidiu entrar na onda da manifestação política e fez um "L" de Lula, incentivada pelo público que entoava "olê, Lula" e "ei, Bolsonaro, vai tomar no cu". Anteriormente, durante outra apresentação, ela já havia declarado seu voto no candidato do PT.

O show da quase conterrânea --a cantora nasceu em Mato Grosso-- se mostrou o mais disputado do festival. "O público tem que se manifestar, é claro. A gente está num momento muito drástico, raivoso, perigoso. As pessoas não conseguem dialogar sobre política. Quanto mais a gente diminui o diálogo, pior fica", disse ela.

As manifestações contra Bolsonaro e a favor de Lula se seguiram ainda em outras performances. Na apresentação da cantora Majur, por exemplo, a baiana incorporou o "L" de Lula à coreografia nos momentos finais do show. O "L" de Lula também apareceu na plateia do show do rapper Rincon Sapiência.

Outro ápice foi na montagem de "O Auto da Compadecida" pelo grupo mineiro Maria Cotia, que atualizou o texto de Ariano Suassuna com "ele não", "tchutchuca do Centrão" e outras insinuações críticas ao atual governo. Sempre seguidas de aplausos da plateia como resposta numa das melhores atrações de todo o festival.

Uma casa de reza indígena foi construída na praça principal do evento, onde também havia uma feira de artesanato com expositores de oito etnias diferentes de Mato Grosso do Sul. Segundo Gisele Francelino, técnica da subsecretaria de políticas públicas indígenas, este foi o melhor ano em número de vendas desde 2015, quando entraram para o festival. "Isso mostra que os indígenas estão ocupando os espaços e mostrando a nossa cultura", diz.

Na tarde ensolarada de sexta-feira, para um público composto de famílias e crianças, o grupo de teatro Liberdade PKR apresentou a peça "Gritaram-me Bugra!" e falaram sobre violência contra os indígenas, invasão de terra, feminicídio e preservação do meio ambiente.

Temas como exclusão social, genocídio e demarcação de terra também marcaram o show do Bro MC's, grupo de rap guarani-kaiowá de Mato Grosso do Sul. Já o sarau paulistano Bicha Pare falou sobre representatividade e homofobia a um público repleto de crianças.

"O festival cresceu e a gente acabou agregando outras linguagens à programação, como a cultura de rua, questão de gênero, LGBTQIA+, porque a demanda vai mudando e há uma mudança de comportamento", explica Soraia Ferreira, gerente de difusão cultural do festival. O evento, criado em 2000, durante a gestão do governador Zeca do PT, se tornou um dos mais tradicionais da agenda do estado e contribui para movimentar a economia e o turismo local.

Para encerrar a programação, a banda Ira! tocou sucessos dos 40 anos de carreira para um público mais minguado que dos outros shows principais. O motivo talvez tenha sido o frio, que afastou parte do público --depois de três dias de festival com calor acima dos 30ºC, a noite do domingo batia 18ºC. Mas, ainda assim, o grupo mostrou que existe um público de rock no na terra do agro e do sertanejo.