Festival contra censura terá DJ Rennan da Penha

GUILHERME SETO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O festival Verão sem Censura, lançado pela gestão Bruno Covas (PSDB) em reação a ataques à liberdade de expressão no Brasil, acontecerá em São Paulo entre os dias 17 e 31 de janeiro e terá participação de artistas como o músico e poeta Arnaldo Antunes, o DJ Rennan da Penha e a banda russa Pussy Riot. O evento também abrigará peças de teatro, exposições e debates.

Ao todo, 45 atividades gratuitas serão realizadas em espaços como a Praça das Artes, o Theatro Municipal, o CCSP (Centro Cultural São Paulo), a biblioteca Mário de Andrade e o Centro Cultural da Juventude.

Parte significativa da programação é composta por espetáculos que foram censurados ou criticados pelo governo federal, sob comando de Jair Bolsonaro, ou por seus órgãos.

Encarregado de abrir o festival em 17 de janeiro, na Praça das Artes, Arnaldo Antunes teve o clipe da música "O Real Resiste" retirado da programação da TV Brasil.

A canção cita milícias, terraplanistas e torturadores, e, segundo funcionários da EBC (que controla a TV Brasil) consultados pelo site Buzzfeed News, teria sido censurada por tratar de temas considerados sensíveis ao governo. Em nota, a EBC disse que não transmitiu o clipe porque fez mudança na grade em cima da hora.

Vetada em agosto pelo atual secretário de Cultura do governo federal, Roberto Alvim, durante sua passagem pela Funarte, a peça "Res Publica 2023", do grupo A Motosserra Perfumada, será apresentada nos dias 22 e 23 no Centro Cultural da Juventude, na zona norte. A trama fala de um Brasil fascista no ano de 2023.

A ideia do festival nasceu após Covas se incomodar com o veto à peça e decidir trazê-la para São Paulo, o que aconteceu em outubro. Depois disso, o prefeito pensou com o secretário de Cultura, Alê Youssef, em maneiras de dar guarida às produções sob ataque. Ao todo, a prefeitura investirá cerca de R$ 700 mil no evento.

O CCSP receberá, entre os dias 17 e 31, uma exposição com cartazes de filmes brasileiros. É uma resposta à recente retirada de pôsteres dos corredores e do site da Ancine, (Agência Nacional do Cinema).

No dia 19, o mesmo local promoverá exibição do filme "A Vida Invisível", do diretor Karim Aïnouz, como resposta à decisão da Ancine de cancelar a exibição da obra para seus funcionários em 12 de dezembro.

Na mesma seara da resistência a ataques da administração federal, a Praça das Artes terá no dia 18 a exibição do longa-metragem "Bruna Surfistinha", de 2011, precedida de debate com Raquel Pacheco, cujo livro "O Doce Veneno do Escorpião" inspirou o filme, e a atriz Deborah Secco, que fez o papel da ex-prostituta. Em julho, Bolsonaro disse que não podia admitir que dinheiro público fosse direcionado para "filmes como o da Bruna Surfistinha".

Uma das atrações de peso será o DJ Rennan da Penha, que se apresentará na sacada do Theatro Municipal no dia 17, às 23h. Expoente da cena funkeira atual, Rennan ficou sete meses detido após ser condenado a seis anos e oito meses por associação com o tráfico de drogas.

Sua prisão catalisou discussões sobre criminalização do funk no Brasil e disparou a campanha #DJNãoÉBandido.

A peça "Caranguejo Overdrive", sobre um soldado da Guerra do Paraguai que, dispensado após colapso nervoso, retorna ao Rio para ver sua cidade mudada, terá palco no CCSP nos dias 17, 18 e 19. Após ter sido convidado para encenar a peça na mostra "CCBB - 30 Anos de Companhias", o grupo Aquela Cia de Teatro viu a participação ser cancelada em outubro, sem receber qualquer explicação.

"Roda Viva", escrita por Chico Buarque e com direção de Zé Celso, censurada na ditadura militar, encerrará o festival no Theatro Municipal, no dia 31.

Quando a encenação deixar o Theatro e partir para a praça Ramos de Azevedo, se juntará a festas promovidas por grupos como Charanga do França, Tarado Ni Você e Minhoqueens, celebrando o Carnaval.

"Será uma festa da liberdade, valorizando o Carnaval como resposta da identidade nacional para qualquer tipo de cerceamento", diz Youssef.

"O festival é a melhor exemplificação do que chamamos de resistência proativa. A gente mostra realizações concretas que fazem com que a resistência tenha que ser de quem nos ataca. Trata-se de mostrar, além do discurso, coisas boas, bonitas e fortes."

FESTIVAL VERÃO SEM CENSURA

Quando: Entre os dias 17 e 31 de janeiro

Onde: Em diversos endereços de São Paulo

Classificação: Grátis