Festa de diretora da 'Vogue' é acusada de racismo; entenda

Reprodução/Instagram

Deu errado! O aniversário de 50 anos de Donata Meirelles, diretora da edição brasileira da revista ”Vogue”, foi apontado como racista por ativistas e antropólogos por conta da temática escravocrata e por usar ‘mulheres negras como decoração’. A comemoração, inclusive, repercutiu mal nacionalmente e internacionalmente.

Receba novidades sobre o mundo dos famosos (e muito mais) no seu Whatsapp

A comemoração luxuosa aconteceu no Palácio da Aclamação, em Salvador (BA), na última sexta-feira (8), e contou com um show VIP de Caetano Veloso, além de presenças ilustres como da atriz Regina Casé, das cantoras Margareth Menezes e Preta Gil, da modelo Celina Locks, entre outros famosos e nomes de peso da high society brasileira.

A polêmica surgiu por conta das fotos (compartilhadas) em que mulheres negras, vestidas de branco, com turbantes aparecem recepcionando convidados ao lado de uma cadeira de palha utilizada para fotos. A própria anfitriã fez questão de posar no mobiliário (foto acima). Ativistas citaram o traje como sendo o mesmo utilizado pelas mucamas (escravas domésticas) no Brasil Colônia, além do móvel se tratar de um artefato utilizado pelas mulheres brancas da época, chamadas de ‘sinhás’ nas fazendas coronelistas. E o do fato das mulheres negras aparecerem como uma “peça decorativa” nesse cenário.

Shelby Ivey Christie, diretora da Loreal EUA e negra, fez questão de posicionar sobre a temática e expôs Donata em uma série de posts em seu Twitter. Vale lembrar que a Vogue faz parte de um grupo internacional com grande peso no mercado editorial global.

 

“Um racismo tão enraizado que parece invisível”

A antropóloga, historiadora, professora da USP e de Princeton, Lilia Moritz Schwarcz também expressou sua indignação nas redes sociais e teceu alguns questionamentos, principalmente, sobre o racismo estrutural na sociedade brasileira.

“Sinceramente não sei o que está acontecendo conosco. Não se trata de acusar uma pessoa, criar um ‘bode expiatório’ e jogar todas as culpas no colo alheio. Mas alguém me explique o que faz uma diretora de uma famosa revista feminina, a ‘Vogue’, dar uma festa de aniversário em Salvador, no dia 8 de fevereiro, em ambiente escravocrata do Brasil colonial? E o que faz uma pessoa se vestir de sinhá, e ficar recebendo os convidados ao lado de duas mucamas? É isso que se chama racismo estrutural. Um racismo tão enraizado que parece invisível. Mas não é. Muito triste esse nosso país que cria essa falsa nostalgia de um passado romântico que jamais existiu. O dia a dia da escravidão foi duro e violento. Não há nada para comemorar ou celebrar. Melhor é refletir e mudar. Todos juntos”.

“Peço desculpas”

Assim que viu as críticas, Donata usou as redes sociais para pedir desculpas e explicar que sua festa não teve nenhuma temática específica, e que a cadeira trata-se de uma “cadeira de Candomblé”. Ela também ressaltou que as mulheres não estavam de “mucamas”, mas sim de baianas.

“Comemorei meus 50 anos em Salvador, cidade de meu marido (o publicitário, dono da agência África, Nizan Guanaes) e que tanto amo. Não era uma festa temática, mas como era sexta-feira e a festa foi na Bahia, muitos convidados e o receptivo estavam de branco, como reza a tradição (em homenagem a Oxalá). Mas vale também esclarecer: nas fotos publicadas, a cadeira não era uma cadeira de sinhá, e sim de Candomblé, e as roupas não eram de mucama, mas trajes de baiana de festa.”

Leia mais: Racismo, feminismo: 7 lições que os participantes do BBB19 ensinaram

“Ainda assim, se causamos uma impressão diferente dessa, peço desculpas. Respeito a Bahia, sua cultura e suas tradições, assim como as baianas, que são patrimônio imaterial desta terra que também considero minha e que recebe com tanto carinho os visitantes no aeroporto, nas ruas e nas festas. Mas, como dizia Juscelino, com erro não há compromisso e, como diz o samba, perdão foi feito para pedir”, escreveu Donata.

 

Regina Casé e Caetano Veloso também estão sendo pressionados pelos fãs a se posicionarem, mas ainda não se manifestaram. A atriz , inclusive, posou sentada na cadeira.

O que dizem os ativistas

A escritora e militante Stephanie Ribeiro se manifestou sobre o caso e afirmou que ainda que a cadeira seja para homenagear o Candomblé, a mesma não deveria ter sido usada em uma festa, afinal, trata-se de um artefato religioso.

Ela ainda teceu críticas a Caetano e a família de Gilberto Gil — presentes no aniversário.

 

“Nossas dores viram fantasias”

“A decoração da sua festa foi Brasil colônia escravocrata, com direito a mulheres pretas vestidas de mucama ambientando a festa e recebendo os convidados, como vimos na foto até o trono da sinhá tinha”, apontou Preta Rara, uma das maiores ativistas e artistas da atualidade na luta contra o racismo e a gordofobia.

“Terão pessoas nesse post que falarão que não viram problemas nenhum que é mimimi e por aí vai, pois quando não se sabe argumentar utilizam dessas falácias pra tentar reverter o irreversível. A branquitude ama vivenciar o ranço da escravidão, porque eles gostariam que não tivesse acabado mas, será que acabou? Vivemos na tal escravidão moderna, onde nossas dores viram fantasias, decoração de festas pra beneficiar o mal gosto das sinhás e sinhóres. A senzala moderna continua sendo o quartinho da empregada”, continuou Preta, que citou a dor que sente toda vez que vê a história dos antepassados ser ‘glamourizada’.

“Quando leio sobre escravidão dá um nó na garganta, arrepia a pele e é óbvio que sinto meu corpo doer, sinto as dores dos meus ancestrais, afinal de contas fazem apenas 131 anos que o Brasil ‘deixou’ de ser escravocrata. Nossas dores não pode ser fantasias, estampa de roupa ou decoração.”

“O tempo fechou pra vocês branquitude”

“Um povo sem história é um povo sem memória, a nossa história nesse país foi escrita com sangue, morte e dor e estamos aqui pra dar uma nova sequência para que não esqueçamos o nosso passado porém reescrever essa história atual de luta, resistência e sorriso, porque sorrir para nós também é um ato político! O tempo fechou pra vocês branquitude e agora não abaixaremos mais a cabeça até que todos pretos sejam realmente livres”, finalizou Preta

A jornalista Rita Batista também se posicionou sobre a temática da festa e exibiu uma foto de 1870/1880 para exemplificar a necessidade de evoluirmos como sociedade.

“‘…Já as escravas de casas ricas eram adornadas por seus próprios senhores. Quando saíam para as ruas acompanhando suas senhoras ou crianças, eram exibidas em trajes finos e carregadas de joias.A própria escrava era um objeto de ostentação do dono, um objeto de luxo a ser mostrado publicamente’. Trecho do livro Jóias de Crioula de Laura Cunha e Thomas Milz. A primeira foto foi tirada entre 1870 e 1880 por Guilherme Gaensly, a segunda é de 2019 mesmo.”