Fernandas Montenegro e Torres estreiam série como filha "bolsonarista" e mãe "esquerda do Psol"

Guilherme Machado
·5 minuto de leitura
Foto: Globo/Divulgação
Foto: Globo/Divulgação

Nesta terça-feira (8), a Globo estreia sua nova série, gravada durante a pandemia do novo coronavírus. “Amor e Sorte”, criada por Jorge Furtado, que retrata uma série de relacionamentos e como eles são afetados pela pandemia e o isolamento. O episódio de estreia chama-se “Gilda e Lúcia” e é protagonizado pelas atrizes Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, mãe e filha na vida real e agora também na ficção.

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O seriado foi pensando com protocolos de segurança para atender ao momento: todos os atores que o gravaram são relacionados entre si na vida real e moram juntos. Eles receberam os equipamentos em suas moradias e também instruções de como deviam montar os sets de filmagem caseiros.

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No caso do primeiro episódio, o processo foi um pouco diferente, uma vez que o marido de Fernanda Torres, Andrucha Waddington, é diretor, e foi responsável por conduzir as gravações ao lado de seu filho, Pedro. O filho mais velho de Fernanda e Andrucha, Joaquim, também participou das gravações.

“É possível. É uma maneira diferente de trabalhar, foi extremamente prazeroso. Na nossa equipe todos faziam tudo”, explica Andrucha, enfatizando que todos ajudaram de alguma forma na produção do episódio.

“É assim que você estraga uma família”, brinca Fernanda Torres.

No episódio, Lúcia (Torres) decide atravessar o oceano para tirar a mãe, Gilda (Montenegro), do Rio de Janeiro, uma vez que ela não está respeitando o isolamento social. As duas se isolam em um sítio e lá começam a resolver suas diferenças.

“Essa filha provavelmente votou no Bolsonaro no segundo turno. Essa mãe é a esquerda do Psol. E esse dois personagens são críveis e bonitos. A Fernandona não é a heroína e a Fernandinha a vilã”, explica Antonio Prata, um dos roteiristas do seriado.

“A filha é vegetariana de direita e a mãe passa o episódio querendo comer lombinho, então ela é a esquerda carnívora. A mãe chama a filha de direita guilhotina e a filha chama a mãe de esquerda carnívora”, reforça Torres.

Natureza Selvagem

Fernanda Torres confessa que ela e a mãe tiveram dificuldades em se acostumar com o sítio onde as gravações foram realizadas, mas que acabaram aprendendo a ocupar aquele espaço. Elas também tiveram outros desafios: precisaram interagir com bichos, como galinhas e um bode.

Foto: Globo/Divulgação
Fernanda Torres teve dificuldade para se adaptar ao sítio. Foto: Globo/Divulgação

“O bode era indócil. Ele não chegou leve, não! Tinha uma técnica”, ressalta Fernanda Montenegro e como o neto, Joaquim, foi hábil em lidar com o animal.

“Eu tenho horror a galinha. É um bicho que você pega e a mãe afunda naquelas penas meio oleosas. Foi uma cena muito tensa para mim. Mas as galinhas foram muito bem, foi um trabalho de equipe. No final elas estavam exaustas”, diz Torres.

Montenegro destaca que este humor presente na série, talvez, seja exatamente o que está faltando no momento atual.

“O humor traz uma raciocínio em cima da dor. Não é que você para de sentir dor, mas vem um raciocínio que te levar a sair da toca. Acho que talvez no momento isso esteja faltando. Estamos em um momento muito difícil, sem humor. Acho que está faltando um humor que seja uma arma”.

A atriz veterana também reforça que não vê diferença entre atuar com a filha e atuar com outras atrizes, já que seu papel como mãe é colocado de lado no momento em que al assume uma personagem.

“Eu não levo comigo esse sentimento de maternidade. Estou em uma personagem e no caso minha filha está em outra. Colocamos muito de nós nessas personagens, mas não estou ali em função de dar conta da minha filha ou dela dar conta de mim. Somos atrizes capazes, arriscando mais um trabalho. Nós temos um encontro de atrizes e por acaso somos mãe e filha. Fora de cena é outra coisa”, declara.

Tempos difíceis

Fernanda Montenegro também usa a oportunidade para refletir sobre o atual momento. Ela destaca, por exemplo, como após a pandemia de 1918, surgiram Hitler e Mussolini, e é preciso tomar cuidado com que pode surgir neste momento, e fala sobre os ataques que a cultura vem sofrendo no Brasil.

Foto: Globo/Divulgação
Fernanda Montenegro reflete sobre o momento atual. Foto: Globo/Divulgação

“Isso é uma imbecilidade, é uma pretensão, um retrocesso gigantesco e trágico. Porque nós não vamos acabar, a cultura de um país é o que o homem pode aspirar de transcendência. Tudo bem, deixa a imbecilidade se propor, mas estamos completamente vivos, atuantes. Não é que vamos renascer, não deixamos de existir. O que está acontecendo aqui é um fato cultural, estamos existindo sim. Não seremos nós a ficar no fundo da terra, não mesmo. É só ter paciência, é um ciclo que vai passar. Não estou assustada, não. É só um problema de paciência”.

A atriz também diz que nunca antes viu uma interrupção da arte como a que a pandemia provocou.

“Nesses meus anos de vida, dessa maneira, eu nunca vi. Mesmo no período militar, o que se criou durante aquele período, em termos de contestação, é algo extraordinário. Nenhum regime ditatorial alcançou isso que estamos vivendo neste momento, com o congresso aberto. É um momento mágico negativo. É só esperar, porque isso não tem como durar. Há um corte em toda e qualquer possibilidade de criatividade artística no país”, ressalta.

“Seria tão bom se essa bendita vacina aparecesse. Que ela venha até o Natal, como presente de Natal, porque não tenho muito tempo. Os que estão vivos na minha idade ou perto dela estão apreensivos, porque a gente gostaria de ver um mundo diferente antes de sair daqui para algum lugar ou lugar nenhum. Há esperança de ainda vamos ter chance. Então a gente acorda e canta”, conclui Montenegro.