Feminista e gay não são e não devem ser xingamentos; entenda por quê

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Igualdade e gênero não são xingamentos (Foto: Getty Images)
Igualdade e gênero não são xingamentos (Foto: Getty Images)

Com certeza, em algum momento da vida, você já ouviu alguém xingando ou se referindo a uma pessoa como “viado”, “traveco”, gay e até feminista, como se fossem termos inadequados.

Mesmo sendo usado para agredir o outro, esses nomes não são (e não deveriam) ser usados para ofender alguém. Muito pelo contrário: termos como esses só classificam ainda mais a identidade de cada indivíduo.

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A psicóloga Valeska Zanello, coordenadora do grupo de pesquisa “Saúde mental e gênero” do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), explica que esses nomes estão ligados à história e à cultura da nossa sociedade. “Eles apontam uma performance que você não deve ter”, diz. Segundo a especialista, termos como esses se tornam xingamentos porque ferem historicamente e culturalmente uma sociedade que é marcada pela misoginia e ideal de branquitude.

A sexualidade feminina é doméstica. Ela tem que ser mantida em casa. Por isso gera tantos insultos por parte de alguns

No caso de gays e lésbicas, entende-se que há uma destruição do ideal hétero normativo."É como se não houvesse um binarismo em termos de orientação sexual”, pontua a psicóloga. Já os bissexuais também entram nesse contexto e, segundo Zanello, sofrem mais com os preconceitos dentro da própria comunidade LGBTQI+.

Durante diversas pesquisas, Zanello pôde notar particularidades em meio ao uso de alguns termos. No caso dos homens, por exemplo, a palavra gay, gayzinho aparecem constantemente como ofensas no dia a dia, aumentando ainda mais a homofobia. De acordo com a especialista, também reforça a misoginia já que, muitas vezes, qualidades ditas femininas são encaradas como erradas. Já nas mulheres, os xingamentos ligados a fatores estéticos são muito marcantes.

Opressão x liberdade

O psicanalista Lucas Bulamah, que também é doutor em psicologia clínica pela USP (Universidade de São Paulo), afirma que muitas vezes as ofensas estão ligadas a repressões individuais. 

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Por isso é muito comum vermos homens héteros ridicularizando homens trans ou gays e até disseminando ódio contra eles. “Alguns deles estão em aplicativos de relacionamentos homossexuais e não se assumem para a esposa e sociedade”, opina o psicanalista.

No caso das crianças, que muitas vezes não sabem o verdadeiro significado de uma palavra, elas só reproduzem o que os pais dizem ou alguém mais próximo. Por isso é muito importante reforçar com os pequenos determinados termos e trazer à tona o que, de fato, eles representam. “Se a criança vier com uma palavra diferente, vale o pai perguntar também o que ela acha daquela palavra”, pontua Bulamah.

Na prática, os pais devem falar aos filhos que usar termos ligados ao gênero não devem servir de ofensa. Muito menos palavras depreciativas que estão ligadas a aparência do outro para fazer bullying com os colegas.

Feminista não é xingamento

Outro termo que também é muito utilizado para disseminar ódio, ofensas nas redes sociais e no dia a dia é a palavra feminista. Falado de forma pejorativa, o termo abre ainda mais espaço para o preconceito em relação a movimento e causas relacionadas às mulheres.

Segundo Zanello, o termo feminismo incomoda, já que promove o letramento de gênero e mostra ainda mais a liberdade que o público feminino pode ter. “Nossa cultura é completamente misógina e gosta de ter um controle em relação às emoções das mulheres”. Na maioria das vezes, o feminismo ainda é usado para dizer que as mulheres estão contra os homens—o que não é verdade.

A palavra ainda é usada de forma inadequada pelas próprias mulheres, que tendem a acreditar que o termo sempre está ligado ao radicalismo. Além disso, uma mulher livre representa um “perigo” ou ainda causa estranheza para algumas pessoas. “A sexualidade feminina é doméstica. Ela tem que ser mantida em casa. Por isso gera tantos insultos por parte de alguns”, conclui Bulamah.

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