Feminista do funk: MC Rebecca quer mais proibidão na boca das mulheres

Foto: Reprodução/Instagram@mcrebecca

Por Sté Reis

Com apenas 20 anos de idade e um de carreira, MC Rebecca desponta como uma das principais revelações da periferia carioca. Pegando carona em grandes nomes do pop funk, como Ludmilla e Lexa, mas com a língua afiada das veteranas no proibidão, Tati Quebra Barraco e Valeska Popozuda, a jovem MC já é milionária de views em seus primeiros hits no Youtube — são 32 milhões. Indicada a três prêmios no MTV Miaw, ela concilia carreira e maternidade enquanto se programa para uma série de lançamentos até o Carnaval 2020.

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Segue a gente!

“Esse ano foi maravilhoso. Depois do lançamento de ‘Ao Som do 150’ e agora ‘Senta com Talento’, estamos chegando a quase quatro milhões de visualizações. Tudo está acontecendo muito rápido, é incrível, estou muito feliz”, diz em entrevista ao Yahoo.

Leia também

Ex-passista da escola de samba Salgueiro, Rebecca deixou o samba de lado ao ganhar de presente uma composição de Ludmilla que exalta o poder feminino em um cenário ainda masculino, o funk. “Quando ‘Cai de Boca’ aconteceu, estourou logo de cara e todo mundo começou a pedir meu show, então decidi deixar o samba de lado e me dedicar ao funk e a ser cantora”, explica.

Outro destaque entre os feats da cantora é o trap funk “Nossa que Isso”, parceria com Karol Conka, Djonga e MC Rogê. “Quero experimentar cada vez com mais ritmos além do funk, estou fazendo aula de canto e teclado.”

Empoderamento sexual da mulher

Recentemente, Rebecca foi alvo de fofocas sobre um possível affair com a cantora Anitta.

Apesar da admiração e de ter em comum a mesma empresária, Kamila Fialho, que também ajudou a lançar a popstar brasileira, ela diz que isso foi uma grande mentira da mídia. “Não ligo pra preconceito. Fui casada com mulher por quatro anos, já estava acostumada a sair na rua e ter olhares tortos. Não fiquei brava por ser uma mulher, mas por estarem dizendo que fiz uma coisa que não fiz. Estavam contando mentiras.”

Ao vivo, Rebecca é uma adolescente delicada e sorridente, mas nas letras fervidas, o tom é pelo empoderamento sexual da mulher. “Quando eu não cantava, tinha muito funk masculino, não só o funk putaria, todo tipo de funk diminuía a imagem da mulher, ficava muito bolada de ouvir isso e não ter mais minas cantando proibidão. Então, quando lancei ‘Cai de Boca’ (em referência ao sexo oral feminino), a ideia era mostrar que a mulher também pode sentir prazer. Dei vozes para outras mulheres, mesmo sendo jovem, sendo mãe. As minas cantam com vontade nos bailes e fico bem feliz.”

A funkeira ainda não tocou em um baile da capital paulistana, mas já explica que no Rio é mais comum que exista uma equipe de som, DJ tocando, ao contrário do funk ostentação paulistano, quando a música vem de carros com grandes equipamentos de som na rua. “Aqui o ritmo é mais lento, tem menos MCs mulheres no proibidão. Ainda assim, queria conhecer muito um baile em São Paulo.”

Tendo como referência Beyoncé e Rihanna e cada vez mais abraçada por expoentes do rap feminino, Rebecca diz que vai investir na carreira no Brasil ainda que veja seu funk chegando aos quatro cantos do mundo, principalmente se estiver na boca das mulheres.

Carreira e maternidade

Rebecca tem uma filha de um ano e meio, Morena, que ainda não entendeu a fama da mãe, mas adora dançar e já tem até Instagram próprio. Quando fala da filha, o sorriso é longo. “Ela faz dois anos agora em junho. É bem difícil conciliar a carreira e a bebê, chego muito cansada dos shows, acordo ela pra ela me ver, pra passear. É muita responsabilidade, mas sempre que estou de folga, meu tempo é com ela.”

Sobre ouvir funk na primeira infância, Rebecca acredita que isso só é alarmante para quem não conhece o dia a dia da periferia. “Eu acho que a criança da periferia, independente da idade, vai sempre ter o funk na vida dela. Se proibimos em casa, elas escutam na rua, se levar pra passear elas ouvem. É inevitável no Rio de Janeiro. Acho que faz parte da infância delas. Pra mim, isso é bem normal. Ela escuta e dança, sabe o ritmo, bota a mão no joelho.”

Criminalização do funk

O primeiro grande show de Rebecca aconteceu graças a um convite do DJ Rennan da Penha, atualmente preso por associação ao tráfico de drogas. Na primeira vez que subiu ao palco, Rebecca cantou para uma média de 20 mil pessoas no Baile da Gaiola, que já foi o maior fluxo da Zona Sul do Rio. “A minha experiência na Gaiola foi maravilhosa. Nunca tinha tocado em um baile de favela, quando o Renan me chamou, fui bem nervosa. Mas, quando cheguei, todo mundo já sabia cantar. Agora, o baile foi proibido pelo governo...”

Ela acredita que o funk retrata o dia a dia da comunidade e por isso muita gente não entende o teor explícito das letras. “O pessoal da comunidade procura fazer algo pra se distrair da violência, buscar uma diversão. Eles acabam incluindo nas letras um pouco do que acontece na favela, na comunidade e expõe isso pro mundo. Falam de drogas, de bailes, de tiroteios, e na maioria das vezes o funk é discriminado por causa das letras que retratam esse cenário, é considerado apologia ao crime”, comenta.

Para a funkeira, além da mensagem, a diversão também é um ponto importante para a não criminalização do funk.

“Hoje não tem mais fluxo. Se tiver, a polícia invade, esculacha os moradores. Mas, era o único conforto e diversão que eles tinham. É muito difícil colar em boate. Tem que pagar entrada, tem que pagar bebida. Galera na favela não tem como curtir um evento caro. Então, a própria favela era o único lazer que eles tinham. E isso foi tirado, não temos o que fazer, são poderes maiores. Pra não ferir mais gente, preferiram tirar. Sou contra a criminalização. O povo da comunidade fica feliz quando tem evento, movimenta o comércio, a comunidade é 0800, bebida é barata, três latas por dez.”