Mulheres negras revelam estratégias de luta e contestam privilégio das brancas

Atriz e criadora de conteúdo Pâmela Nascimento,  a executiva em tecnologia e CEO do Movimento Black Money e  a escritora Carolina Rocha (Foto: Ivone Bonfim/Will/Arquivo Pessoal)

Por Luciana Pioto (@lucianapioto)

Se você é uma mulher, certamente tem entre suas memórias infantis a clássica recomendação: “sente-se de pernas fechadas”. Mesmo sendo apenas uma menina, sem qualquer noção sobre feminismo e tendo a máxima “meu corpo minhas regras”, aquela repressão foi uma das suas primeiras experiências de injustiça.

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Se você é uma mulher negra, a lista de recomendações (e de injustiças) era um pouco maior e não demorou muito para você descobrir que, por ser preta, “tinha que ser duas vezes melhor”. E é justamente por isso que o Feminismo Negro precisa estar em pauta quando se fala sobre igualdade e lugar de fala. Sim, uma mulher branca nasce privilegiada por conta da sua cor de pele e nós sabemos disso.

A criadora de conteúdo e atriz Pâmela Nascimento – que interpreta no teatro a antropóloga, filósofa e precursora do Feminismo Negro do Brasil Lélia Gonzalez – faz parte desse grupo de mulheres que ainda na infância foi reprimida pelo racismo patriarcal. “Minha mãe alisou meu cabelo desde muito cedo pela preocupação de me enquadrar na estética europeia que estabelece que cabelo liso, olho claro e nariz fino é o bonito”, diz Pâmela, que só mudou isso na gravidez da filha, aos 20 anos, por não poder mais usar química, que a atriz conheceu a textura do próprio cabelo e resolveu mostrá-lo ao mundo.

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Foto: Will/Divulgação

Nina Silva, executiva em tecnologia e CEO do Movimento Black Money, acaba de ser eleita pela revista “Forbes” como uma das mulheres mais poderosas do Brasil. Como única negra retinta entre as 20 escolhidas pela publicação, Nina declara que olhar para o lado e não ver outra mulher com a mesma pigmentação de pele é uma amostra do que vivencia no mercado de trabalho.

“Para uma mulher negra se destacar, ela tem que ser ‘o melhor do melhor’ em todas as esferas. Estar nesta posição (da Forbes) ‘sozinha’ faz com que eu não me sinta totalmente plena e satisfeita. Por outro lado, sei que tenho um navio negreiro inteiro atrás de mim”, diz a executiva. “Não consigo ver as minhas conquistas sem ser como a continuidade do trabalho dos meus ancestrais; da luta de Abdias Nascimento e de Lélia Gonzalez”, afirma Nina.

Fico muito feliz por estar entre essas mulheres, mas também fico muito reflexiva de como nós (negros e negras) precisamos também construir, paralelamente, nossos próprios espaços, nossos próprios meios produção, de difusão e de comunicação, acrescenta Nina.

A reflexão da executiva se faz ainda mais necessária quando olhamos para as estatísticas. A pesquisa “O Desafio da Inclusão” – divulgada em 2017 pelo Instituto Locomotiva, com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) – mostra que o salário de uma mulher negra com o ensino superior concluído é, em média, R$ 2,9 mil. Enquanto que o de mulher branca é R$ 3,8 mil; o de um homem negro, R$ 4,8 mil; e o de um homem branco, R$ 6,7 mil.

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Números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também nos mostram os reflexos do machismo e do racismo na sociedade: 39,8% de mulheres negras compõem o grupo submetido a condições precárias de trabalho – mulheres brancas correspondem a 26,9% deste grupo; homens negros abrangem 31,6% e homens brancos, 20,6% do total.

“Não quero ocupar espaços que não são meus. Quero cada vez mais que todos os espaços sejam de todas as pessoas e que, se isso não for possível, que eu tenha meus próprios espaços, minhas próprias cadeiras, que construa minha própria mesa e que não fique pedindo pra sentar à mesa com pessoas que não querem sentar à mesa comigo”, desabafa a executiva.

Feminismo Negro contesta privilégio das mulheres brancas

No livro “Quem tem medo do Feminismo Negro”, a filósofa, escritora e feminista Djamila Ribeiro cita o discurso intitulado “E não sou eu uma mulher?”, de Sojourner Truth, uma ex-escrava que se tornou oradora, para demonstrar que “enquanto mulheres brancas lutavam pelo direito ao voto e ao trabalho, mulheres negras lutavam para ser consideradas pessoas”. Uma diferença histórica e radical que tem reflexos ainda nos dias de hoje.

As mulheres brancas continuam querendo comparar dores e a gente tem que ser, no mínimo, empáticas umas com as outras. Se a gente for levar em consideração toda a história, uma mulher branca inteligente tem ‘a obrigação’ de empatia e de entendimento racial e de classe, porque ela é privilegiada. Só o fato de ela nascer branca já a coloca à frente. Se ela não for capaz de olhar além do próprio umbigo, não é feminismo, afirma a atriz Pâmela Nascimento.

Para a professora doutoranda em Antropologia Social (UFSC) e psicanalista Jaqueline Conceição da Silva, é importante que o feminismo se atente às questões raciais e de classe, pois “movimentos identitários são pautados a partir das experiências dos indivíduos que os compõem, ou seja, de como suas subjetividades são pensadas e interagem com este mecanismo de controle, que é o ‘eu, homem branco europeu’, questionado pela escritora, filósofa e feminista Simone de Beauvoir.

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“Dentro de empresas nas quais já trabalhei, houve situações em que eu e mulheres brancas no mesmo nível de carreira nos ajudamos por sermos marginalizadas especificamente por sermos mulheres. Mas, em momentos de desenvolver uma de nós para ocupar determinado posto, estas mesmas mulheres brancas me deram as costas. Aí elas se esqueceram da sororidade com a mulher negra que estava ali porque foi dez vezes melhor em performance e resultado do que qualquer outra pessoa branca”, relembra a executiva Nina Silva.

Jaqueline Conceição da Silva – Reprodução/Instagram

Sobre tentar mobilizar mulheres brancas para a luta do Feminismo Negro, Jaqueline acredita ser uma perda de tempo e defende que o ativismo deve dialogar principalmente com as mulheres negras não acadêmicas, sobretudo com aquelas que estão nos espaços periféricos. “Não se trata de mobilizar as brancas, mas sim de conseguir discutir com as mulheres e com os homens negros como a gente pode pensar, elaborar e efetivar categorias de enfrentamento contra opressão, violência, miséria e exclusão à qual a população negra é colocada em conjunto”, afirma a professora.

Em “O Segundo Sexo”, Beauvoir afirma: “Se a ‘questão feminina’ é tão absurda é porque a arrogância masculina fez dela uma ‘querela’ (queixa), e quando as pessoas querelam não raciocinam bem”. Em “Quem tem medo do Feminismo Negro”, Djamila cita esta frase para, em seguida, ‘atualizá-la’ e cobrar que feministas brancas reconheçam seus privilégios:

Se a questão das mulheres negras é tão absurda é porque a arrogância do feminismo branco fez dela uma querela, e quando pessoas querelam não raciocinam bem, diz Djamila.

“O racismo, a homofobia ou a transfobia são práticas culturais muito mais ligadas a uma reprodução de valores que mantém o status quo do que a uma construção teórica nos dias de hoje. Essas práticas se perpetuam porque são reproduzidas sem serem refletidas. E uma pessoa que tem acesso à informação, como uma mulher branca acadêmica, tem a obrigação, por conta própria, de se rever sem que eu, enquanto mulher negra, tenha que falar pra ela isso. É o mínimo”, afirma Jaqueline.

Primeira mulher transexual negra no governo

Reprodução/Instagram

Para a deputada estadual Erica Malunguinho (PSOL) – primeira mulher transexual a ocupar uma cadeira na Assembleia Legislativa de São Paulo – sentar-se ao lado de quem sempre a invisibilizou como mulher trans negra é um compromisso assumido com quem a elegeu em 2018.

“Lamento ver que nós tenhamos governantes nas esferas estadual e nacional que não estão comprometidos com a desconstrução das desigualdades e das violências estruturais que impactam no feminicídio, no genocídio do povo preto e da transfobia”, afirma Erica.

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“A minha eleição, como a de outras mulheres trans em outros estados, é um sintoma de que há horizontes além da barbárie que se legitimou no último processo eleitoral; de que há uma oposição propositiva que pode colocar no centro das discussões temas ainda tão caros às populações oprimidas”, afirma Erica, que visa honrar a morte, há um ano, da vereadora Marielle Franco (PSOL).

Acho extremamente racista quando pessoas brancas trazem a memória de Marielle e eliminam desta memória o que foi elemento do enfrentamento político dela: o grito de luta pela periferia e pela população negra, diz a deputada.

O que é o mulherismo africana?

Foto: Foto: Leandro Cunha/Divulgação)

Nina Silva, que, antes de ser nomeada pela Forbes uma mulher brasileira poderosa, já havia sido eleita uma das 100 pessoas afrodescendentes mais influentes do mundo pela MIPAD (Most Influential People of African Descent), se considera aliada do Feminismo, mas é o Mulherismo Africana, teoria matriarcal e afrocentrada nascida na década de 80, nos Estados Unidos, que guia sua luta como mulher negra.

“Atuo em cima de raça, e não de gênero em primeira instância. Porque, o dia em que o racismo acabar, aí vou verificar outras singularidades que possam haver entre as pessoas”, explica a executiva.

Aza Njeri, doutora em Literaturas Africanas, professora da UGB/NI, poeta e crítica teatral, também é mulherista africana e explica que não há antagonismo com o feminismo, mas que, mesmo algumas pautas sendo as mesmas, há diferença nos eixos civilizatórios. Isso é, o feminismo é uma teoria eurocentrada, com origem em paradigmas de mulheres europeias brancas; enquanto o mulherismo é um movimento afrocentrado criado por mulheres negras que tem como modelo uma sociedade matriarcal.

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A deputada Erica Malunguinho diz estar atribuída das pautas do feminismo, mas também enxerga no Mulherismo Africana “outros debates importantes que também fazem parte da luta da mulher no seu processo de empoderamento e de participação na sociedade”.

Aza acredita que apenas pensamentos que têm origem na África e na afrodiáspora podem dar conta de maneira estrutural dos problemas do povo negro. “Todas as demais movimentações que não partam do seio da comunidade ou intelectualidade negra (a partir de sua experiência, vivência e sensibilidade) agem como paliativas à nossa situação”, diz a pós-doutoranda em Filosofia Africana no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.

Resistência ao silenciamento é ancestral

“A nossa fala estilhaça a máscara de silêncio”. A frase de Conceição Evaristo, escritora mineira, vencedora do Jabuti em 2004 com o livro “Olhos d’água”, faz alusão à mordaça utilizada pela escrava Anastácia (imagem abaixo). Ela simboliza a tentativa da sociedade de silenciar mulheres pretas ainda nos dias de hoje.

Divulgação

Carolina Rocha, escritora, historiadora e educadora encontrou na escrita uma forma de estilhaçar a máscara. Desde a infância até a adolescência, escrever foi uma ferramenta de autoconhecimento. Mas, de acordo com ela, ao ingressar na universidade, viu seus textos se tornarem técnicos e engessados pelas normas acadêmicas. No início do doutorado, deprimida com o racismo e outras formas de opressões sofridas na universidade, procurou oficinas de escrita criativa para reencontrar o que lhe dava sustento emocional.

Carolina percebeu que muitas dessas oficinas eram extremamente elitistas e caras e, em sua maioria, organizadas por homens brancos. “Isso me deu um grande susto e uma imensa vontade de construir algo a partir da minha perspectiva e voltado para mulheres negras”, diz a escritora que, desde 2015, ministra uma oficina itinerante de escrita que, com preços populares, já ocupou desde escolas e museus a espaços socioeducativos e culturais do Rio de Janeiro, como a “Casa das Pretas”, na Lapa.

Representatividade importa!

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Uma pesquisa do Grupo de Estudos em Literatura Contemporânea da UnB – divulgada em 2017, e que analisou livros nacionais lançados entre 1965 e 2014 – mostrou que, no espaço literário brasileiro, a hegemonia é (e sempre foi) do homem branco. Mulheres e homens negros ocupam apenas 2% da posição de autores e 6% do número de personagens de um total de 692 romances escritos por 383 pessoas. Mulheres brancas aparecem como protagonistas 136 vezes e como narradoras em 44 publicações. Enquanto que mulheres negras protagonizam apenas seis romances e narram a história em apenas dois deles.

Na Oficina de Escrita para Mulheres, Carolina também provoca uma reflexão sobre a imagem de Anastácia: “Ao mesmo tempo em que a boca dela está silenciada com grilhões, olha como a imagem dela fala, olha a expressão do rosto e do olhar. É isso. Nós nunca estivemos passivos, silenciosos e quietinhos. Nós estamos falando. E a escrita é mais uma forma de fala que é nossa também”, explica a escritora às participantes.

“Existe uma falácia da sociedade branca eurocêntrica de que as comunidades africanas são apenas orais. Isso não é verdade. A oralidade é muito importante pra gente sim, mas nós temos escrita, nós temos IFA (oráculo africano), nós temos uma escrita africana, bibliotecas africanas riquíssimas, mas nós não acessamos. A gente tem que se apropriar da escrita como algo nosso sim”, diz Carolina que também incentiva as mulheres a publicarem seus textos.

É sempre bom pensar que, por trás do medo e da vergonha, tem uma missão político-social que é muito grande, afirma a escritora.