Um feliz 2022

Mauro Beting
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Rua Inhambu

No para-brisa da memória eu parei nessa boca de lobo vizinha dos meus avós. Foi lá numa noite de chuva de setembro de 1974 que a bola que eu acabara de ganhar de presente caiu do andar intermediário onde a gente jogava com vizinhos de prédio do meu Nonno e da Tata. Ela foi levada pela enxurrada até ali. Na época não havia essa grade. Ela não era grande e foi engolida pelo esgoto.

Deu pra ver um chute inadvertido mandar a bola pra rua, de lá pra correnteza lambendo a guia até o destino final e fatal.

Talvez seja a maior perda que tive na infância. Aquela bola novinha castigada e carregada pela chuva.

Imagine quantos nunca perderam por nunca terem ganhado?

Quantos não ganharam por não terem tido pais e nem avós?

Quantos não ganharam por não terem tido paz e nem pátria?

Quantos por não terem rua ou nada pra chamar de sua?

Quanto perdemos em 2020 como jamais havíamos perdido tanto.

Se essa é a maior perda daqueles anos incríveis, só posso agradecer por todos os meus anos. Todos juntos com quem amo.

Saudades dos que partiram levados pelas chuva. Saudades dos que lavaram e levaram minha alma até aqui.

Um feliz 2021 para quem ainda pretende dar muitos chutes e perder muitas bolas.

Para quem quer dar muitas bolas fora e dentro.

Um feliz 2021 que não seja 2020.