De Faustão a Huck, TV teve troca-troca e 'Verdades Secretas' marcou streaming

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***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL 07.12.2019 Luciano Huck (apresentador). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)
***ARQUIVO***SAO PAULO, SP, BRASIL 07.12.2019 Luciano Huck (apresentador). (Foto: Mathilde Missioneiro/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Raras vezes a TV brasileira sofreu tantas transformações em tão pouco tempo. Não haveria vidente capaz de antecipar que Fausto Silva voltaria para a Bandeirantes depois de 32 anos dominando as tardes de domingo da Globo, ou que Marcos Mion teria seu contrato rescindido na Record, ficando disponível para suceder Luciano Huck, escalado para o espaço de Faustão.

Mais imprevisível foi a saída brusca do ex-dono do domingo do ar, fruto de desentendimento com a direção da Globo, àquela altura enciumada pelo anúncio sobre o destino de seu comunicador em outro canal. Quando tudo parecia definido, Tiago Leifert, no auge de uma bem-sucedida trajetória, avisou que também estava deixando a Globo, no seu caso, depois de 15 anos, motivando a saída de Tadeu Schmidt do Fantástico para comandar o "Big Brother Brasil".

Em oito meses, a Globo perdeu os apresentadores de seus programas de maior faturamento. Mas essa seria só a parte visível a olho nu de uma série de transformações muito mais profundas operadas dentro da maior rede de TV do país, que se viu forçada a mexer como nunca em estruturas internas para acompanhar uma concorrência que nunca se manifestou de modo tão ostensivo.

No mundo dos streamings e de fácil acesso a vídeos que nos chegam por todas as telas, a disputa pelo tempo do espectador derruba fronteiras entre TV aberta, TV paga e internet, coalhada pelas distrações trazidas pelas redes sociais.

Se o mercado movimentado por Netflix, Amazon Prime Video, HBO Max, Disney+ e afins alimentou mudanças na Globo, também empenhada em promover seu Globoplay, a indústria do audiovisual nacional só não sucumbiu graças à invasão dos gigantes do streaming.

Com a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, travada pelo atual governo, pilhas de projetos se acumularam à espera de financiamento. Dinheiro há, no entanto, mesmo porque a maioria das leis de incentivo do audiovisual é bancada pela taxa do Condecine, depositada fielmente pelas empresas de telecomunicação para fazer girar a roda do cinema e da produção independente nacional na TV.

O que não houve, pelo segundo ano consecutivo, foi disposição do governo Bolsonaro em retomar os mecanismos que vinham alimentando as realizações para todas as telas, gerando milhões ao país.

A Netflix completou dez anos de Brasil com largo interesse em agradar à torcida local. Arrefecida a pandemia, a plataforma botou de pé projetos como "Casamento às Cegas Brasil", confirmando a vocação do brasileiro por namoro na TV, e a 2ª temporada de "Sintonia", série que alcança uma periferia pouco retratada na tela da TV aberta.

Enquanto confirmava a meta de produzir novelas no Brasil, ainda que em formato mais curto, a Netflix viu o Globoplay anunciar "Verdades Secretas 2" como a primeira produção do gênero no streaming. A plataforma da Globo também engatou a oferta de dezenas de títulos clássicos, de "Roque Santeiro" a "Renascer", sem perder de vista o público saudoso do melodrama mexicano aqui apresentado no passado pelo SBT, com novelas protagonizadas pela estrela Thalia.

Disposta a enxugar ainda mais a folha de pagamentos, a Globo dispensou mais autores, roteiristas e atores, para a alegria da HBO Max, que comprou o passe de nomes como Silvio de Abreu, Camila Pitanga e Joana Jabace, todos para áreas de criação e supervisão, e Mônica Albuquerque, nova chefona de produções da plataforma que engloba HBO, TNT, Cartoon e outros canais.

O Amazon Prime Video foi além. Contratou Ingrid Guimarães e Lázaro Ramos com exclusividade de três anos sobre a imagem de ambos, feito inédito na indústria do streaming no Brasil. Os dois encontraram na nova casa a chance de produzirem projetos próprios, oportunidade que faltou na Globo.

Foi também neste ano que o Prime Video passou a entregar com mais regularidade títulos de produção nacional de fôlego, como "Dom", que logo se tornou o conteúdo brasileiro mais visto no mundo entre assinantes do serviço. Com produção da Conspiração, direção de Breno Silveira e Gabriel Leone como protagonista, o título ficcional foi um bom investimento sobre a história de Pedro Dom, moço bonito da zona sua carioca que, viciado em cocaína, se especializou em assaltar mansões de luxo no Rio de Janeiro.

O streaming mexeu ainda com a disputa de direitos esportivos na TV. O YouTube abocanhou 16 partidas do Paulistão, evento que pulará da Globo para a Record no ano que vem.

Do cardápio internacional, para além de surpresas como a sul-coreana "Round 6", da Netflix, que entrou no ranking das mais vistas da plataforma em todo o mundo e também no Brasil, tivemos uma lista de revivals pronta para afogar a plateia em nostalgias.

"And Just Like That...", um retorno de três das quarto protagonistas de "Sex and the City", na HBO, coroa este finzinho de ano com um retrato de Carrie, papel de Sarah Jessica Parker, Miranda, papel de Cynthia Nixon, e Charlotte, papel de Kristin Davis, na faixa dos 50 anos. De quem amou a quem odiou o comportamento das nova-iorquinas, há dois consensos –o espetáculo desfilado pelo figurino e direção de arte, e a falta latente que Samantha faz ao enredo. A ausência é fruto das divergências entre sua intérprete, Kim Cattrall, e Parker, uma das produtoras da série.

Da mesma HBO vem "Os Muitos Santos de Newark", um painel de Tony Soprano na juventude. O personagem é vivido por Michael Gandolfini, filho de James Gandolfini, morto de infarto, aos 51, em 2013, que foi protagonista da série de David Chase, apontada como uma das principais precursoras da era de ouro da TV americana.

Pela Disney+, veio "The Beatles: Get Back", documentário em que Peter Jackson resgata preciosos momentos inéditos vividos por Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, que se tornou um hit da plataforma no mundo todo.

Não deixa de ser sintomático que o culto à memória tenha encontrado voz tão ativa num ano de retomadas pós-pandêmicas, da produção de novelas e séries ao fortalecimento dos reality shows.

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