Faria Limers: o retrato da não inclusão paulistana

Businessmen talking in office hallway
Businessmen talking in office hallway

O assunto dessa sexta-feira (13), tem nome e sobrenome: Faria Limers. Uma matéria publicada pela revista 'Veja São Paulo’, que conta o "way of life" ('modo de vida', em tradução livre) de quem trabalha na região viralizou, virou teste do Buzzfeed e um dos assuntos mais comentados do Twitter.

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Também, pudera. Assim como o texto explica, em detalhes, a região da Avenida Faria Lima, em São Paulo, se tornou um retrato de um estilo de vida que viralizou por si só, mas também já dá os primeiros sinais de estafa: pessoas, em geral, privilegiadas, que trabalham muito mais do que a saúde aguenta, priorizam a economia do país acima de qualquer coisa e parecem ter dificuldade em considerar que existem outros que não vivem como eles.

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O dia a dia dessas pessoas, claro, não é motivo de chacota: querendo ou não, são pessoas que trabalham e pagam contas como todas as outras (tentam) fazer. Porém, é o estereótipo do "novo trabalhador", do "startupeiro" da nova geração que incomoda.

É possível dar uma cara aos 'farialimers’, como fez tão bem a capa da própria revista: homens brancos, que vestem roupas caras com ares moderninhos e o mesmo tipo de corte de cabelo - é praticamente um uniforme. Isso lembra, inclusive, uma outra capa de revista, publicada há algumas semanas, que mostra os nomes por trás dos unicórnios brasileiros - aquelas empresas com ascensão meteórica, que atingem a sonhada marca de US$ 1 bilhão em valor de mercado. Tipo físico semelhante, apenas homens, com um guarda roupa praticamente igual.

A lida é sempre com dinheiro alto, o trabalho é extenso e estressante - e muitos se gabam de comerem na frente do computador para não perder tempo -, a busca por produtividade é gigante e a inclusão… nem tanto.

A própria ‘Veja' explica, por exemplo, a questão da disparidade de gênero. Segundo um levantamento feito pela Cognatis publicado pela revista, as mulheres farialimers ganham 18% a menos do que os homens.

Nesse caso, vale, inclusive, lembrar alguns dados: segundo uma pesquisa feita pelo Ethos, menos de 5% dos cargos de alto escalão das 500 maiores empresas brasileiras é ocupada por negros - e mesmo em cargos abaixo, a representatividade não condiz com a realidade do país, em que mais de 50% da população é negra, de acordo com o IBGE.

Acima apenas de estagiários e treinees, a proporção é de 38% de negros para 65% de brancos.

O caso das mulheres, que também são mais de 50% da população brasileira, é igualmente complicada: apenas 35% dos cargos médios são ocupados por elas. Tanto para negros quanto para mulheres, quanto mais alto o cargo, menor é essa porcentagem.

Por mais que o desenvolvimento econômico não seja julgável e o Brasil esteja passando por um momento de aparente recuperação - com créditos dados ao ministro Paulo Guedes, segundo os farialimers -, é uma questão perceber que a região, comparada ao Vale do Silício, tenha um perfil que não representa a maioria do país.

Isso, claro sem contar o machismo, o racismo e os casos de assédio moral no mundo corporativo, que persistem. No último caso, em geral os processos aumentaram 30% entre 2015 e 2017, diz o Conselho Nacional de Justiça. Tudo isso cria um ambiente pouco amigável, altamente glamurizado e que, no fim das contas, parece valorizar o sofrimento em nome de faturamentos altíssimos.

Sabe-se que escritórios com áreas de lazer e relaxamento não necessariamente cumprem o seu papel - afinal, o Brasil segue como um dos primeiros no mundo em níveis de ansiedade e a depressão só cresce por aqui -, e podem ser vistos também como um incentivo para as pessoas passarem mais tempo no escritório e menos aproveitando as próprias vidas, tudo me nome de um status.

E, apesar de todo o luxo e glamour, sengue sendo o que nasceu para ser: um ambiente pouco convidativo para quem busca aproveitar a cidade - a Av, Paulista manda beijos, por sinal -, com pouca diversidade e que busca manter o status que a cidade de São Paulo sempre tentou manter, mesmo à força: de que é a mais importante e mais rica do país. O quanto isso vai durar, não sabemos, mas, até lá, vamos continuar observando à distância e curtindo os memes que surgem na internet.

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