Fantasmas da colonização e da violência assombram Bienal Sesc Videobrasil

CLARA BALBI

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Flores roxas e azuis de lã salpicam o tecido cru estendido sobre a mesa. Coloridos, quase infantis, desviam a atenção de outros desenhos que saltam da toalha a um olhar atento.

Num deles, uma travesti tem os longos cabelos ruivos cortados. Outro delimita o contorno de um corpo estendido sobre uma poça de sangue. Um terceiro mostra uma figura nua sendo esfaqueada, seu pênis à mostra.

A figura, explicam os bordadeiros em volta da mesa, é a travesti Priscila, assassinada no Largo do Arouche, no centro de São Paulo, há um ano. Foi ela que a mexicana Teresa Margolles decidiu homenagear na obra que apresenta a partir desta quarta (9) na 21ª Bienal de Arte Contemporânea Sesc Videobrasil.

Em vez de usar como base para os bordados um tecido que envolveu o corpo da vítima no necrotério, sua estratégia em outras obras da mesma série, a artista banhou o pano em uma mistura de cola e água e o arrastou pelo local do crime.

Os resquícios do asfalto substituem as manchas de sangue de versões anteriores da obra.

Margolles, que também é médica legista e levou para a última Bienal de Veneza fragmentos de um muro marcado por disputas do narcotráfico no México, não é única artista obcecada pela morte nesta bienal.

O sírio Hrair Sarkissian retrata praças de execução pública em Alepo, Lataquia e Damasco. O gaúcho Tomaz Klotzel fotografa cenários de crimes relacionados à disputa de terras no Pará, exibindo-os junto a depoimentos dos familiares das vítimas e inquéritos policiais.

Questionada sobre o tom lúgubre desta edição da mostra, a fundadora do Videobrasil, Solange Farkas, responde que "a realidade está pesada".

"Essas obras não deixam de ter força de denúncia. Sobretudo no sul do mundo, onde a violência é mais presente", afirma, em referência aos países que historicamente são o foco da exposição.

Os trabalhos ocupam, pela primeira vez, o Sesc 24 de Maio. A mudança para a unidade projetada por Paulo Mendes da Rocha estava marcada desde a edição passada do evento, mas o prédio não havia sido concluído a tempo.

Os 55 artistas participantes se juntam, assim, sob o tema "Comunidades Imaginadas", título de um livro seminal do irlandês Benedict Anderson sobre nacionalismos. Farkas afirma, no entanto, que a publicação serviu de inspiração para pensar comunidades alternativas ao conceito de Estado-nação, formadas por exemplo por indígenas, negros e LGBTs.

O conceito também guiou uma chamada de projetos diferente daquela realizada em edições passadas --até o ano retrasado, ela não obedecia a um tema pré-definido.

A mudança foi uma das que impulsionaram Farkas a chamar de bienal o festival criado em 1983 e que, desde 1992, acontece de dois em dois anos.

Embora o tema seja comunidades alternativas à ideia de Estado, a reflexão sobre os traumas na formação das identidades nacionais contamina a mostra.

O americano Jim Denomie retrata o conflito entre moradores de uma reserva indígena que protestavam contra a construção de um duto de petróleo no rio Missouri em uma tela que incomodou políticos republicanos nos Estados Unidos e lembra o "Jardim das Delícias", de Hieronymus Bosch (1450-1516).

O beninês Thierry Oussou faz um paralelo entre os cemitérios de escravos na zona portuária do Rio de Janeiro, desconhecidos da maioria dos cariocas, e o incêndio do Museu Nacional em um documentário.

Famoso por uma obra em que desenterrava uma versão fake do trono do rei Béhanzin em uma escavação arqueológica --a peça original está bem guardada em um museu na França--, Oussou conta ter estranhado o pouco que se sabe sobre a história da escravidão no país.

"Os negros não estão nos monumentos, nas cédulas de dinheiro", diz. "No meu país, nossa história foi roubada, levada à força. Na América Latina, como no caso do Museu Nacional, as pessoas parecem deixar ela ir desaparecendo."

Oussou, aliás, não é o único a optar por um formato que beira o jornalístico na bienal. Vídeos realizados por coletivos indígenas e LGBTs e pelo cineasta Andrea Tonacci também registram a realidade sem apelar para vernizes estetizantes.

A realidade contamina ainda os trabalhos de No Martins e Marilá Dardot. Enquanto o primeiro mostra personagens negros e recortes de notícias de jornal com estatísticas sobre essa população acompanhados da frase "Já Basta", a segunda faz uma espécie de retrospectiva do passado nacional recente na série "Livro de Colorir".

Estão lá, escondidos sob rabiscos de lápis de cor preto, imagens da tragédia de Brumadinho, marchas em que os manifestantes pediam a volta da ditadura militar ou, de novo, o fogo que se alastra pelo Museu Nacional.

A memória, aliás, é um fantasma que ecoa nos quatro cantos da exposição.

Seja na instalação de Rosana Paulino em que uma mulher negra costura em suas roupas retratos antigos --fotografias de pessoas que poderiam ter sido seus tataravós-- ou no vídeo em que a peruana Ximena Garrido-Lecca sobrevoa o deserto dos arredores de Lima, em áreas reivindicadas pelas comunidades agrícolas locais e agora loteadas para venda, a memória parece assombrar pessoas, lugares, ideias.

Para Teresa Margolles, essas memórias de violência ("o sangue", ela diz) tendem a ser abafadas pela cultura local. Daí, explica, nasceu sua série de mortalhas bordadas, que ela achava ter finalizado até receber o convite para a bienal.

Ao reunir bordadeiros das mais diferentes origens ao redor de uma mesa por alguns dias, nesse caso um grupo de dez mulheres, transsexuais e até mesmo um homem, o resultado costuma ser um espaço de diálogo raro nos dias de hoje.

"A mesa é a sociedade", diz a artista, o cabelo dividido em duas tranças grossas. "E eu sou só um pretexto para esse encontro."

Os pessimistas de plantão, que já não veem saída para os tantos traumas que reverberam no Sesc 24 de Maio, podem pegar carona em uma das poucas obras bem-humoradas desta bienal.

No vídeo "Dirigindo até o Fim do Mundo", a australiana Erin Coates vara as estradas enquanto come linguiça e brinca com o cachorro. Através da janela, o mundo explode.