Famosos levantam bandeira da vacina enquanto governo ainda patina em campanha

WALTER PORTO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sob uma máscara estampada, o cantor Lulu Santos levanta a manga da camiseta e, ao receber a agulha no braço, improvisa. "Resistirá/ E toda raça então enaltecerá/ Nosso pessoal do SUS." A breve performance, corruptela do sucesso "A Cura" completada com um coraçãozinho com as mãos, foi vista por mais de 596 mil pessoas na página do astro no Instagram. Em sua conta no Twitter, a cena foi compartilhada mais de 5.000 vezes. Essa audiência toda não foi só por causa da simpática palhinha em homenagem aos profissionais da saúde —aquele era o momento em que o cantor de 67 anos recebia sua primeira dose da vacina contra Covid-19. Curtir e compartilhar a cena, então, ganha todo um outro significado. Até político. O cantor afirma que dividiu o momento com o público tendo clareza "de que aquilo teria uma repercussão e que claramente indica uma posição a favor da ciência, dos fatos e indiretamente contrária a qualquer tipo de negacionismo". Os tempos tornaram natural que se fale de vacina também nesse tom reativo. O assunto foi atirado ao centro da polarização política desde que o presidente Jair Bolsonaro afirmou que não se imunizaria e não compraria "a vacina chinesa de João Doria". Só depois de vários meses o governo passou a defender com alguma ênfase a vacinação —e desde então ela caminha, com passos de formiga e sem vontade. Mas o que artistas têm a ver com isso? "Nessa situação em que existe tanta politização da vacina e tantas dúvidas, o envolvimento das celebridades não é apenas algo bom, mas algo imprescindível para uma boa campanha", afirma Denise Garrett, vice-presidente do Sabin Vaccine Institute, nos Estados Unidos. Isso porque já há fartas pesquisas acadêmicas, segundo ela, que comprovam que o envolvimento de artistas famosos em campanhas de vacinação é "altamente efetivo em termos de comportamento social". Uma história é bem conhecida. Em 1956, nos Estados Unidos, a taxa de imunização de adolescentes contra a poliomielite era de meros 0,8%. A vacina para a doença ainda era muito recente, e as infecções entre crianças galopavam. Até que um Elvis Presley no auge da fama foi a um popular programa de televisão e tomou ao vivo uma injeção no braço. Segundo a revista Scientific American, a vacinação de jovens subiu a um patamar de 80% seis meses depois do episódio. Mais de 60 anos depois, a mediação da TV se tornou dispensável na relação entre fãs e ídolos. Veja as redes sociais de Paulinho da Viola, que, fiéis ao estilo do compositor, são das mais sossegadas. Sua página do Instagram teve cinco atualizações neste ano --duas delas, fotos do cantor de 78 anos tomando a Coronavac dentro do carro. "Houve um caso de uma pessoa que escreveu que me seguia, mas que a partir daquele momento não ia fazer mais isso. Quer dizer, uma pessoa negacionista", lamenta o músico por telefone. "Em contrapartida, muito mais gente concordou. Acharam da maior importância que eu tivesse me vacinado." "Esse caráter político infelizmente tem prevalecido", continua, calmo. "Não deveria ser assim, porque isso é uma pandemia. Quem é que pode querer essa quantidade de mortes, de hospitais sem oxigênio, quem pode ficar indiferente a isso? Não existe." Antes de o repórter terminar de perguntar se ele acha que personalidades públicas têm responsabilidade em ampliar o apelo da vacina, ouve uma resposta firme. "Acho, acho sim." Só a mera postagem de uma foto do momento da imunização, diz Garrett, do Sabin Vaccine Institute, já tem um efeito positivo no esforço de aumentar a aderência da vacina —segundo o último Datafolha, 84% dos brasileiros afirmam ter, hoje, intenção de se imunizar. "Essas iniciativas individuais são muito bem-vindas, e quanto mais, melhor, mas o ideal seria uma campanha coordenada pelo Programa Nacional de Imunização", afirma. Um programa funcional buscaria um engajamento organizado de artistas, até elaborando e distribuindo a eles falas escritas por técnicos. Mas, segundo ela, desde o começo do governo Bolsonaro a verba para esse tipo de campanha foi cortada. Parece um investimento supérfluo, mas não é. "As pessoas olham para celebridades como algo inspirador, um modelo. Existe ali uma relação de confiança", argumenta a epidemiologista. O sambista Martinho da Vila tem outro jeito de ver a coisa. "Nossa vida é sempre revirada", diz, dando risada. "É importante divulgar a vacina porque ainda há muita gente que é resistente. Temos até altos dirigentes que ainda não tomaram e precisam ser influenciados." Mas, mesmo entre celebridades que não mostram intenção nenhuma de fazer oposição ao presidente, a vacina contra Covid anda popular —os apresentadores Ratinho e Silvio Santos, por exemplo, tiveram o registro de suas doses divulgado por aí. O que tem havido de mais coordenado no esforço de reunir famosos é a campanha "Vacina Sim", independente do poder público e tocada por um consórcio de oito veículos de imprensa — entre eles, o jornal Folha de S.Paulo. Em 29 de março, um bloco de cinco minutos do programa Mais Você, principal matutino de outra integrante do consórcio, a TV Globo, estampou a chamada "chegou a vez da Ana Maria". A apresentadora detalhou no programa o seu momento de imunização, mostrou um Tony Ramos emocionado com sua primeira dose e fez uma defesa ardorosa pró-vacina e antiaglomeração. "Sou extremamente cuidadosa e cautelosa com as ações que eu abraço", afirma Ana Maria Braga, por email. "Uso minha imagem pública em prol de causas que me tocam e que sejam importantes para incentivar, esclarecer e orientar a população. Vacina sim. Vacinas disponíveis já." Esse finalzinho remete a um conselho importante da cientista Denise Garrett para famosos que queiram divulgar a palavra da vacina sem cometer deslizes que podem desinformar —fique num terreno seguro. "Eu tomei a vacina", "a vacina é eficaz", "é segura". Ou, como resume Paulinho da Viola, de olho no único jeito que temos de encerrar essa nossa pausa de mil compassos. "É muito importante conclamar as pessoas, se vacinem. Se isso permanecer assim, como vai ficar a economia?", pergunta. "E a cultura?"