Famosos lembram racismo e sonham com mudanças na sociedade

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Independentemente da classe social, uma pessoa negra tem muitas chances de sofrer com discriminação racial. A atriz e cantora Jeniffer Nascimento, 28, sabe bem como isso acontece desde quando era criança. Segundo ela, o preconceito aparece em muitos momentos, seja entrando em uma loja para comprar algo, no momento em que é barrada no aeroporto pelo do volume do cabelo ou dentro do banco.

Justamente por isso que ela entende que o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro, não deveria precisar existir, já que a conscientização sobre a negritude em um país majoritariamente preto deveria ocorrer o ano todo.

"Estamos um país onde a gente vive o racismo cotidianamente e muitas pessoas insistem em não vê-lo e em dizer que ele não existe. Por tudo isso, acaba tornando-se importante ter esse dia para que essas pessoas, que vivem nas suas bolhas, possam parar por um momento para pensar", reflete.

Na visão da artista, o Brasil tem caminhado pouco na construção de uma sociedade mais justa e menos discriminatória. "Ocupar espaços já é muito importante para abrir portas e caminhos, porém também é fundamental conquistar o lugar da escuta efetiva e ter o poder da fala, que acho que ainda falta muito."

A médica e escritora Thelma Assis, 36, é um outro exemplo de pessoa que desde muito cedo precisou se provar a todo instante. Desde o momento em que muitos não acreditavam que uma menina preta poderia entrar na faculdade e cursar medicina.

"Infelizmente, vivemos em país extremamente racista. O que mudou é que pessoas negras começaram cada vez mais a se posicionar e a usar lugar de fala para bater de frente com situações que talvez na época da minha mãe não batiam tanto", afirma.

A luta, ela diz, é longa, e a internet ajuda a globalizar essa pauta. A morte de George Floyd nos EUA, um homem negro que teve seu pescoço prensado com o joelho por um policial branco até a morte, acendeu a causa perante o mundo todo, inclusive por aqui.

Para Thelma, é importante manter essa postura. "E temos que nos incomodar com o que ocorre aqui. Precisamos ver negros ocupando lugares de destaque em todos os locais. A cada 23 minutos morre uma pessoa preta no Brasil."

O sambista e compositor Xande de Pilares, 51, já passou por vários momentos de preconceito em sua vida. Principalmente no início da adolescência, quando começou a querer trabalhar e a aprender uma profissão.

"Lembro que eu tinha acabado de concluir um curso de digitador e programador quando estava na fila de emprego no IBGE e uma mulher com uma prancheta olhou para a minha cara de cima a baixo e me dispensou", recorda.

Desde aquele dia, Xande resolveu encarar de frente o preconceito. "Eu não me curvo a ele, não cedo o meu lugar na fila para ele e eu não levanto do lugar para ele. Para fazer a diferença a gente tem que trabalhar para vencer os desafios", diz.

Assim como os demais colegas, ele conta que não tem visto muitas mudanças com relação ao racismo. "A situação ainda pode melhorar muito, mas com o povo desunido da forma que está, desanima", opina.

O também sambista Dudu Nobre, 48, vê como uma vitória a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) que definiu no final de outubro que a injúria racial é equiparada ao crime de racismo e, portanto, é imprescritível e deve ser punido a qualquer tempo, independentemente do período que se passou do episódio.

"Acho importante a celebração do Dia da Consciência Negra para que o país lembre do quanto os negros foram importantes na formação cultural e social do país. Um dos marcos que podem trazer mudança é a questão de tornar injúria racial um crime com pena equivalente ao racismo", avalia.

O ator Bruno Suzano, 29, relembra a vez em que foi confundido com um entregador de lanches por uma senhora branca. Naquele momento, resolveu bater boca com ela, que, segundo ele, não entendia aquela atitude como racista. Ele estava de bermuda e sem camisa na porta de uma hamburgueria em frente à praia, no Rio.

Mas uma coisa que o tem incomodado nos últimos tempos é que muita gente não o tem visto como um homem negro que é. "Eu não sou um preto retinto e isso é notável, pois existe o colorismo. O Brasil é um país de miscigenação e eu faço parte dessa turma, mas nem por isso eu estou isento do racismo", afirma.

"Eu penso que para ter uma melhora o povo precisa de mais informação e conhecimento de um modo geral. Se atualizar. Dançar conforme a música e sem pisar no pé de ninguém. Pois dói", emenda.

A também atriz e cantora Lucy Alves, 35, diz acreditar que, como nação, ainda temos um longo caminho a percorrer em relação ao racismo. "Sinto que as pessoas, especialmente as mais jovens, já entendem essa questão de outra forma, e acredito que seja em função desse trabalho de conscientização e inclusão", aponta.

Mas nada deverá mudar rapidamente, afinal, ela diz que são séculos de preconceito. "O importante é seguirmos na luta por uma sociedade mais inclusiva e valorizarmos toda e qualquer iniciativa que traga mais consciência", conclui.

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