Fama de Givaldo resume misoginia e racismo que fundaram e assolam o Brasil

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O morador de rua Givaldo Alves. Foto: Reprodução/YouTube.
O morador de rua Givaldo Alves. Foto: Reprodução/YouTube.

No começo de março, viralizou nas redes sociais um vídeo de um personal trainer flagrado espancando um homem em situação de rua no Jardim Roriz, em Planaltina (DF). Gilvaldo Alves de Souza foi vítima de tal violência após Eduardo Alves afirmar tê-lo visto transando com sua esposa.

Hoje famoso, o caso rapidamente virou febre nas redes sociais após uma entrevista de Givaldo descrevendo o ato sexual com a mulher. Enquanto o público discutia se a fala de Gilvaldo era uma objetificação da mulher ou um elogio às supostas "habilidades" dela durante o ato sexual, ficou flagrante o desrespeito da mídia e de ambos os homens envolvidos quando o assunto é a privacidade e a vida pessoal de uma mulher.

Alguém pensou na imagem da mulher?

Sem poupar detalhes, o personal trainer contou para a mídia que a esposa foi vítima de um episódio psiquiátrico, e logo o laudo mental da paciente foi divulgado em todo o Brasil sem o seu consentimento. O público logo começou a repercutir informações do laudo, que apontava transtornos psicológicos desde 2017 com dados íntimos e privados como "comportamentos inadequados, falso reconhecimento, doação de pertences e resistência em se vestir".

Quando pessoas se tornam objetos de um reality show no qual ninguém se inscreveu, quem perde é a sociedade e a humanidade, e essa falta de empatia não pode se tornar piada

Em entrevistas posteriores ao laudo, Givaldo explicou que não se arrepende de ter ficado com a mulher, mesmo após a violência que sofreu de seu marido. "Se eu pudesse não olharia para trás, para aquela voz doce e suave. Mas eu não posso me arrepender porque o prazer que ela me deu, foi o prazer que todo homem queria ter. A dor só me transporta até ela. Ela merece alguém que possa satisfazê-la sem possibilitar que ela se exponha", afirmou.

O caso escancara o desrespeito flagrante pela privacidade e direitos das mulheres, que em casos como esse têm até mesmo seus laudos médicos divulgados sem consentimento e precisam lidar com os julgamentos e a exclusão social e profissional decorrente de tal ato. Desesperada, a mulher entrou em crise e foi internada em uma instituição psiquiátrica, o que aumentou ainda mais o estigma em volta do caso. Ninguém, entretanto, discutiu os motivos pelos quais ela teria ficado "louca", especialmente diante de uma sociedade misógina que violentou seus direitos pessoais e a tratou como objeto de escárnio e entretenimento. Até pagode fizeram, como puro espetáculo da vida humana.

História da loucura

A história da repressão feminina é mais antiga que a sociedade tal qual a conhecemos, e fruto de ideias patriarcais e coloniais que consideram que a mulher é um objeto adendo ao homem sem vontade própria ou direito de existência independente. Conceitos como histeria, por exemplo, mostram como a história da sociedade ocidental é indissociável da misoginia - a palavra histeria vem do grego hystera, que significa útero.

No século 19, com o início dos estudos do que se tornaria a psiquiatria moderna, a histeria deixou de ser um termo atrelado ao feminino, e começaram os estudos sobre a questão da neurose. Isso desmistificou o termo, mas o destino das mulheres não mudou: qualquer ato considerado subversivo ou minimamente independente podia terminar em internamento compulsório, e muitas passavam a vida toda em manicômios, muitas vezes internadas pelos próprios pais ou maridos.

Na Idade Média, mulheres com conhecimento ancestral ou qualquer tipo de comportamento autônomo podiam ser denunciadas e queimadas como bruxas pela Inquisição. Só na Escócia, mais de 3.800 mulheres foram executadas por bruxaria entre os séculos 15 e 18. Em "História da Loucura", o filósofo francês Michel Foucault falou sobre os dispositivos de "normalização", que excluíam sistematicamente corpos considerados fora do padrão masculino, branco e normativo sexualmente, o que resultava no extermínio de mulheres dissidentes e pessoas fora do padrão de beleza ou de sexualidade considerada desviante.

"O dispositivo de normalização se centraria na gestão da vida individualizada e biológica, a partir da articulação entre o saber e o poder que produzem discursos que sujeitam o corpo, num processo duplo: de exclusão do diferente ao se criar a norma e depois de captura dessa anormal, num processo de inclusão, controle e degradação", explica. Esse dispositivo de dominação é visto cotidianamente em uma sociedade que massacra e exclui mulheres, minorias e pessoas LGBTQIA+. Quanto mais longe do padrão dominante, maior a possibilidade da pessoa (em geral uma mulher, especialmente as mulheres pretas e trans) ser considerada "louca" e institucionalizada como ferramenta de controle político.

Em meio ao caso de Givaldo, ninguém defendeu a mulher da exposição do marido, de um laudo divulgado abertamente por polícia e mídia e das consequências psiquiátricas do caso. Quem irá ajudá-la quando a polêmica passar? Quais empresas se preocuparão em inseri-la no mercado de trabalho, qual política pública será capaz de ampará-la? Uma vez considerada "louca", não existe caminho de volta para a mulher, vítima de dispositivos sociais muito além do controle do indivíduo.

Violência psiquiátrica

No livro "Holocausto Brasileiro", a jornalista Daniela Arbex relatou casos de atrocidades, genocídio de estado e políticas públicas de apagamento no Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais. O livro-reportagem denunciou a morte de mais de 60 mil internos, além do sofrimento dos sobreviventes e seus descendentes.

Uma das questões que chama a atenção no livro é a internação compulsória de mulheres grávidas ou apenas consideradas como "problemas" para suas famílias. Uma delas foi mandada para o Colônia, grávida de três meses, pelo patrão que a estuprou. Grande parte do quadro de pacientes do hospício era formado por trabalhadoras sexuais, alcoólatras, pessoas LGBTQIA+ e mães solteiras, o que evidencia que muitas mulheres consideradas "loucas" são na verdade vítimas de sistemas opressores contra os quais nunca tiveram chance. Nas palavras de Valeska Zanello, pós-doutora em psicologia clínica e professora adjunta do Departamento de Psicologia da UnB, "a história da psiquiatria é feita de homens falando sobre mulheres loucas".

Violência contra a mulher

No Brasil, 68% das brasileiras conhecem uma ou mais mulheres vítimas de violência doméstica ou familiar, enquanto 27% declaram já ter sofrido algum tipo de agressão por um homem. De acordo com pesquisa da Agência Senado, 18% das mulheres agredidas por homens convivem com o agressor. Para 75% das entrevistadas, o medo leva a mulher a não denunciar.

De acordo com um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, entre março de 2020 e dezembro de 2021, o Brasil registrou 2.451 feminicídios e 100.398 casos de estupro e estupro vulnerável de vítimas do gênero feminino. Em 2021, em média, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada sete horas. Foram registrados 56.098 boletins de ocorrência de estupros, o que significa que, em 2021, uma menina ou mulher foi vítima de estupro a cada 10 minutos, considerando apenas os casos que chegaram até as autoridades policiais.

Rumo ao estrelato

Enquanto discutimos o ataque contra a sanidade da mulher em questão, Givaldo, o homem em situação de rua espancado, teve um destino diferente. Depois de virar meme, ele foi apadrinhado por influenciadores, recebeu convites para ser candidato político e foi fotografado tomando sol em uma cobertura da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro.

Givaldo Alves, o
Givaldo Alves, o "mendigo pegador" (Fabricio Pioyani AgNews)

Givaldo tem conta no TikTok, mais de 500 mil seguidores e começou a receber cachê para aparecer como presença VIP em festas de famosos no Rio de Janeiro e São Paulo. Em suas redes sociais, começou a ostentar uma vida de luxo com fotos em piscinas de borda infinita, festas pela madrugada e rodadas sem fim de champanhe. A influenciadora Grazi Mourão, famosa na plataforma adulta OnlyFans, tirou fotos ao lado de Givaldo, e divulgou um vídeo no qual os dois se beijam.

A ascensão meteórica de Givaldo não é o problema em si. Não há nada de errado em aproveitar um momento de fama para sair de uma situação precária, e precisamos mudar o alvo dos questionamento: o problema não é a fama de Givaldo ou o que ele alcançou, e sim o fato de que, no meio dessa trajetória, uma mulher foi ridicularizada, massacrada pela mídia e alvo de chacota e quebra de sigilo médico. Não foi Givaldo quem divulgou seu laudo ou falou de potenciais problemas psiquiátricos, mas precisamos repensar uma sociedade que gosta de dar risada às custas do sofrimento de uma mulher. Ele expôs e continua expondo uma mulher.

Givaldo também é alvo de racismo e aporofobia

É impossível falar sobre esse caso sem citar o racismo flagrante enfrentado por Givaldo em toda a cobertura midiática. Não podemos esquecer que, mesmo agora famoso, ele foi espancado pelo personal trainer Eduardo Alves em março, além de ter sido acusado de estupro por ele mesmo após a mulher afirmar que o ato sexual foi consensual.

Se o consentimento foi dado em sã consciência é impossível afirmar, mas vale lembrar que, pela Constituição brasileira, Givaldo não pode ser acusado de estupro de forma pública de forma tão irresponsável. Homem preto, pobre e em situação de rua, é alvo fácil de ódio e linchamento em uma situação como essa, e nenhuma fama protege pessoas pretas para sempre em um dos países mais racistas e violentos do mundo como o Brasil.

O ódio contra pessoas pobres e em situação de rua também é notório no Brasil, como aponta o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Povo da Rua, de São Paulo. Responsável pelo atendimento e cuidado diária da população em situação de rua na região da Cracolândia, o religioso explica que o uso de grades, lanças e muros para impedir a aproximação e permanência de pessoas é prática comum nas principais capitais do país. “Com o aumento da miserabilidade e da pobreza na população, o número da população de rua também aumenta. E proporcionalmente aumenta a rejeição. Com isso cresce também a hostilidade, o rechaço e essa arquitetura hostil", explicou, em entrevista à Globo.

Além de pensarmos nos desdobramentos que a mulher atingida por esse caso sofreu e sofrerá por muitos anos, é necessário lembrar que Givaldo não escolheu a fama: ele foi procurado pelos veículos de mídia, que exploraram a história ao máximo, sem considerar as condições psicológicas de uma pessoa que passou anos morando na rua em situações precárias de saúde e alimentação. A sanidade de Givaldo também merece atenção, e transformar um homem preto em entretenimento é outra prática corriqueira do Brasil colonial.

Sociedade do espetáculo

O caso de Givaldo se tornou um espetáculo travestido de notícia, em um caso que reúne de forma cruel violência contra a mulher, estigmatização da saúde mental, o estereótipo do homem preto sexualizado, mulheres sendo tratadas como objetos descartáveis e a história de uma pessoa em situação de rua transformada em herói para ser descartada sem clemência em algumas (poucas) semanas.

O sofrimento de pessoas em situações vulneráveis jamais deveria ser considerado entretenimento, e explorar laudos médicos sigilosos e clichês sobre "mulheres loucas" nunca deveria ser jornalismo. Em um desdobramento assustador desse circo de horrores, Givaldo já foi flagrado em dois eventos tentando agarrar mulheres à força, em mais uma imagem que o público não deveria levar na brincadeira. Quando pessoas se tornam objetos de um reality show no qual ninguém se inscreveu, quem perde é a sociedade e a humanidade, e essa falta de empatia não pode se tornar piada.

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