'Família Soprano' marcou as séries de TV com anti-herói inovador

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O lançamento quase simultâneo, nos primeiros meses de 1999, da série "Família Soprano" e do filme "Máfia no Divã" causou alguma confusão. Houve quem entendesse que se tratava de uma nova onda de Hollywood -comédias protagonizadas por chefões mafiosos inseguros, com crise de ansiedade, buscando conforto no consultório do terapeuta.

Eram produtos muito diferentes, mas pouca gente entendeu imediatamente que aquela série sobre uma "famiglia" mafiosa de Nova Jersey, criada por David Chase e lançada na HBO, um canal "premium" (cobrava um adicional ao assinante), iria mudar a história da televisão.

O quinto episódio, "College", é considerado histórico porque ali a revolução mostrou as suas armas. Tony Soprano, papel de James Gandolfini, pai amoroso, leva a filha Meadow, vivida por Jamie-Lynn Sigler, para um tour por três faculdades no estado do Maine que ela está considerando estudar. Durante o passeio, ele vê um ex-mafioso, que se tornou informante do FBI, arma uma tocaia e o estrangula.

Em condições normais, o chefão daria a missão aos capangas. Mas ele estava ali sozinho e não quis perder a oportunidade. Para além do choque com a situação e a violência da cena, tudo indica que se trata da primeira vez que o protagonista de uma série comete um crime com as próprias mãos.

Muitas outras novidades iriam acontecer ao longo dos 86 episódios, exibidos em seis temporadas até 2007. À medida que as sessões de psicanálise avançam, e a relação com a doutora Melfi, papel de Lorraine Bracco, se intensifica, Tony vai se tornando uma figura complexa e indecifrável. E a terapeuta se torna uma das personagens mais fascinantes da história.

Tony está no comando da gangue desde a morte do pai, Johnny 'Boy' Soprano (que não conhecemos; o filme está aí para isso). Ele tem total ascendência sobre os soldados, quase todos mais velhos do que ele, mas é manipulado pela mãe, a bruxa Livia, vivida por Nancy Marchand, e pelo ambicioso tio Júnior, papel de Dominic Chianese, que tenta agradar.

A relação com a mãe, claro, vai parar no divã e gera momentos impagáveis na série. Livia está no centro das duas primeiras temporadas (a atriz morreu em 2000). Conspirando contra o filho, é uma vilã como poucas vezes se viu na televisão.

Outra personagem que foge ao lugar-comum das histórias de máfia é Carmela, papel de Edie Falco, a mulher do chefão. É um tipo complexo, contraditório, possivelmente incômodo às plateias de hoje. Católica praticante, mãe protetora, oscila entre culpas e pecados provocados pela vida do marido criminoso. Às vezes silencia diante das traições dele, em outros momentos explode.

Ainda que seja uma série pesada, "Família Soprano" nunca deixa de rir dos seus personagens principais. Chris Moltisanti, papel de Michael Imperioli, sobrinho de Tony, tratado como filho pelo mafioso, encarna como poucos esse esforço. Totalmente inadaptado ao serviço, sonha em trabalhar em Hollywood, mas não tem como escapar ao destino que a "famiglia" reservou para ele.

Chris e Paulie, papel de Tony Sirico, protagonizam "Pine Barrens", um outro episódio fora do comum. Escrito por Terence Winter, de "Boardwalk Empire", e dirigido pelo ator Steve Buscemi, mostra a dupla caçando um criminoso russo numa floresta, em meio à neve. Tudo dá errado ("dois idiotas perdidos na floresta", diz Cris), e o episódio termina sem deixar claro se eles cumpriram ou não a missão.

Nem todas as situações precisam de conclusão ou de explicação, ensina a série. E a cena final do último episódio é mais uma que reforça esta lição. Até hoje, quase 15 anos depois, os fãs discutem o que aconteceu com Tony.

Outra característica ousada é a falta de compromisso com "ganchos". Muitos episódios não se conectam, e várias tramas seguem caminhos totalmente heterodoxos. Num episódio genial, Tony sofre uma intoxicação alimentar e, à noite, delira na cama que está conversando com um peixe. E o peixe conta para ele que um dos seus asseclas tinha virado traidor, o que se confirma em seguida.

"The Many Saints of Newark", o filme, certamente vai atrair novos espectadores para a série. Receio que surjam muitos "bad fans" (fãs ruins, maus fãs), como caracterizou a crítica Emilly Nussbaum, na revista The New Yorker. São os espectadores que enxergam anti-heróis, como Tony Soprano (ou Walter White), como se fossem heróis.

Esse fenômeno foi identificado originalmente pelo autor Saul Austerlitz ao escrever sobre a repercussão de "All in the Family", ou tudo em família, uma sitcom que fez sucesso na década de 1970. Muitos fãs, notou ele, gostavam do protagonista, o conservador Archie Bunker, papel de Carroll O'Connor, não de forma irônica, mas por o considerar um igual, com seus preconceitos e fragilidades.

Nussbaum trouxe a análise para a chamada "era de ouro" da TV, que tem "Família Soprano" como marco e cuja característica maior talvez seja justamente o impacto causado por personagens complexos. A série merece todo o respeito e admiração pelas inovações e ousadias que promoveu, mas Tony não é modelo para ninguém.

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