Falta de diversidade regional no Salão dos Artistas Sem Galeria gera onda de críticas

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O Salão dos Artistas Sem Galeria, criado para divulgar o trabalho de quem não têm representação comercial, também foi chamado de "Salão Sem Diálogo" em sua 13ª edição.

Isso porque críticas ao evento foram feitas nas redes sociais nesta semana após a divulgação do resultado dos artistas selecionados para as exposições no ano que vem -dos dez, oito são do Rio de Janeiro ou de São Paulo, e os outros dois são da região Sul do país.

Os posicionamentos contrários à falta de diversidade regional da seleção foram respondidos duramente na página do Instagram do Mapa das Artes, que organiza o evento -comentários dos usuários críticos à lista de convocados foram chamados de ridículos, por exemplo.

Um internauta chegou a questionar se o Mapa das Artes "não tinha vergonha na cara" pela lista pouco diversa de artistas. A conta da instituição respondeu a ele: "Nós não! Mas vc deveria ter!". A página também bloqueou algumas contas.

Celso Fioravante, responsável pelo evento e pelo perfil no Instagram, veio a público se desculpar pelas mensagens. "Errei o tom, fui realmente grosseiro, e não percebi a amplitude que isso poderia gerar", diz ele a este jornal.

"A discussão que abrimos é sobre uma questão estrutural muito maior, que não deve ser ignorada e deve ser protagonizada pelos próprios artistas", diz a artista visual Flávia Ventura, que fez uma das publicações críticas à seleção do evento que mais circulou nos últimos dias.

"Todos ficamos assustados com a postura da administração da página", afirma ela. Primeiro, diz a artista, por se tratar de um portal influente no meio artístico. Segundo, porque os artistas que se inscrevem pagam uma taxa, no valor de R$ 150.

Sendo assim, ela defende que as regiões que bancam o evento com a taxa deveriam estar contempladas na seleção -e ela também considera que falta transparência por parte do Mapa das Artes com estes valores.

Fioravante diz que o modelo de sustentar o evento com as inscrições surgiu porque ele não queria um financiamento público. "Pensei que o salão deveria funcionar como uma cooperativa, onde todos se inscrevem, dez são selecionados e, portanto, todos viabilizam o salão para esses dez artistas."

Ele também afirma que nunca questionaria a decisão do júri, formado por quatro curadores, que mudam todo ano. Nesta edição, André Niemeyer, Julie Dumont, Paulo Gallina e Washington Neves compuseram o comitê.

"Continuo defendendo a seleção, acho que a decisão deles é soberana. Eles se pautaram em critérios técnicos e de qualidade das obras, nunca me contraporia a essa seleção", diz Fioravante. "Mas toda essa polêmica acende uma luz para que a questão regional seja revista e reavaliada em outras edições."

Os trabalhos serão expostos entre janeiro e fevereiro de 2022 na Lona Galeria e na Zipper, ambas em São Paulo.

"A escolha dos artistas é democrática, porque são quatro pessoas de diferentes universos que têm a liberdade de escolher quem eles quiserem", afirma Lucas Cimino, sócio da Zipper. Cimino não concorda com como os comentários foram respondidos na página do Instagram, mas defende que o time de curadores foi bem selecionado.

"Existe um ponto, a crítica [da falta de diversidade] faz sentido. Mas, ao mesmo tempo, o que é julgado num salão é o trabalho."

Higo Joseph, sócio da Lona, também reforça que não concorda com a forma como os comentários foram respondidos e acredita que, "em pleno 2021, quem faz a seleção de salões e afins deveria estar atento a essa questão" de diversidade. A concentração de artistas do Sul e do Sudeste, ainda segundo ele, não é o melhor caminho "quando se pensa no contexto atual das artes".

Ele também afirma que a galeria planeja um edital de exposição de artistas fora do eixo Rio-São Paulo, evento que já estava na programação de 2022 antes mesmo da onda de críticas ao Salão dos Artistas Sem Galeria.

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