Libido caiu? Falta de desejo sexual pode ser depressão

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A fata de libido surge por muitos motivos, um deles sendo a depressão (Foto: Getty Creative)

A relação de Fredo* com o namorado já dura 4 anos. Foi meteórica, sabe: com menos de um ano de relação os dois se mudaram juntos para outro país por conta de uma oportunidade de trabalho que ele recebeu. A mudança brusca de lugar e de cultura não foi um problema para os dois. Pelo contrário, se mostrou uma verdadeira época de descobertas, a respeito da própria relação, da convivência entre eles, da vivência em um novo país e, claro, da química na cama também.

Até aí, a questão da libido e do desejo sexual nunca foi um problema para o casal. Mas, como todo mundo sabe (ou deveria saber), tivemos uma pandemia no meio do caminho - já são 14 meses. O casal voltou ao Brasil no final de 2019 e, poucos meses depois, entrou em isolamento social como boa parte da população brasileira. E, de novo, isso não foi um problema para duas pessoas que já estavam firmes em um relacionamento. "No começo, nós estávamos encarando essa etapa de isolamento da pandemia como uma oportunidade para testarmos coisas: acessórios, novos hábitos que excitavam ambos... tudo que era possível de ser testado no âmbito sexual para uma relação", conta ele.

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Mas o avanço da pandemia de coronavírus por aqui - já são mais de 400 mil mortos -, a tensão política e o agravamento da economia, no entanto, começou a mostrar sinais de alerta: "Tudo acabou sendo afetado num efeito cascata: cansaço mental, estresse, medo, ansiedade, insônia, aumento do consumo de drogas (álcool) e consequentemente, falta de libido", explica.

Fredo tem uma relação muito franca com o parceiro, e mesmo essas dificuldades viraram assunto de conversa entre os dois, que, aliás, não são monogâmicos, mas não estão em uma relação aberta no momento. O que tem gerado ainda mais confusão é que, para ele, a vivência dessa falta de libido tem sido experienciada de uma forma bastante inusitada: "Algo que eu também tenho experimentado com frequência é uma 'onda' de sonhos eróticos com outras pessoas", conta ele. "O que eu tenho sentido é que o fato de estarmos isolados, convivendo todos os dias juntos, sobrevivendo a essa onda de desgraças... Faz inevitavelmente a libido diminuir."

Nem mesmo os sonhos são o suficiente para despertar o desejo sexual de fato em Fredo, que diz não ter vontade nem mesmo de se masturbar, ainda que o seu inconsciente tenha explorado muito a eroticidade dos sonhos. "Não acredito que eu seja o único passando por isso. Acredito que situações de estresse e incerteza como as que estamos vivendo impactam diretamente no 'brilho e no romantismo' de qualquer relação", reflete.

Qual a relação entre a pandemia e a libido?

Falar de libido pode parecer um pouco fora de tom no momento em que vivemos, mas tenha certeza, ela é importantíssima quando se analisa a saúde mental de uma população. Não à toa, uma pergunta comum em consultórios terapêuticos e psiquiátricos é como anda a libido do paciente, já que a falta de desejo sexual é um dos sintomas de depressão.

Segundo Andreia Fiamoncini, psicóloga e terapeuta sexual do Sexo Sem Dúvida, a libido é uma energia que pode ser direcionada em vários contextos, além do sexo. Pode parecer estranho, mas você faz uso da libido nas suas atividades cotidianas, no seu trabalho, na relação com a sua família e até com a sua casa - é claro, sem o viés sexual, mas em termos de energia vital.

"A libido tem um fator de ativação hormonal, como testosterona nos homens e estrogênio na mulher, mas esse não é o único e nem o determinante", explica a profissional. "Além do aspecto hormonal, tem relação também com a saúde física de modo geral e os aspectos emocionais e comportamentais. Para que a libido esteja ativa é necessário que todos esses aspectos estejam saudáveis e estáveis e, quando direcionada para o sexo, também é necessário um investimento para se usufruir dela." Em outras palavras, para manter o desejo sexual ativo é preciso ativá-lo: lembrar que o sexo existe, fantasiar, assistir filmes eróticos… enfim, se manter em contato com a sexualidade de alguma maneira.

Love is in the air. Couple dancing at home.
Manter o diálogo aberto e buscar formas de sair da rotina são dicas úteis para contornar a falta de libido (Foto: Getty Creative)

E, realmente, Fredo não está sozinho: de acordo com a médica é muito comum duas pessoas estarem em uma relação e a libido desaparecer, em dado momento. Os motivos para isso são vários, desde questões físicas, como alterações hormonais ou efeitos colaterais de medicamentos, até questões emocionais, que passam por depressão, estresse e experiências sexuais ruins.

O momento do mundo também não ajuda. De acordo com um estudo feito com mais de 10 mil pessoas pelas empresas Wonderboom, Huma e Maré no ano passado, 5 em cada 10 pessoas relataram dificuldade em manter relações sexuais - e, sim, quem passou os períodos de isolamento social na companhia de apenas um parceiro relatou uma perda ainda maior de libido.

Sonhos eróticos com outras pessoas… pode?

A boa notícia para Fredo e tantos outros é que ter sonhos eróticos com outras pessoas que não o seu parceiro não é um sinal de que algo está errado. Pelo contrário, é um indício de que a libido, o desejo sexual, está preservando ou querendo se manifestar. "A fantasia, que inclui sonhos eróticos faz parte da sexualidade, é natural e normal. Agora, não ter libido com o parceiro requer uma avaliação para ver o que está acontecendo. Pode ser que o relacionamento não esteja bom, que haja conflitos, como é o nível de intimidade, o quanto o casal está investindo nesse relacionamento, como é a relação sexual, qual o nível de prazer nesse sexo, entre outros", explica Andreia Fiamoncini, psicóloga e terapeuta sexual do Sexo Sem Dúvida.

Sendo não monogâmico, Fredo entende que é normal o seu desejo de transar cair quando ele está apenas com uma pessoa, e ele compreende também que as questões emocionais relacionadas à pandemia tem o seu efeito na vida sexual do casal. Por isso, para ele, essa queda é uma combinação da monogamia com o isolamento.

Qualquer que seja o motivo - e se ele é claro ou não -, é importante entender que é possível reverter um quadro de falta de libido. Monitorar o seu próprio desejo sexual é uma forma de compreender a saúde do corpo, da mente e do seu relacionamento. "É buscar perceber como está a saúde de modo geral, o grau de investimento e de prioridade que está sendo dado à sexualidade e à relação conjugal", explica Andreia.

Para reverter a falta de desejo que persiste, no entanto, é preciso uma investigação um pouco minuciosa. Se as causas forem físicas, um médico fará as intervenções necessárias. Se for emocional, é o caso de um psicólogo ou especialista em sexualidade conduzir o tratamento adequado. "De modo geral, é necessário repensar o que aprendeu sobre sexo, reestruturar crenças, pensamentos e emoções que podem estar interferindo no comportamento sexual, rever a importância que se tem dado para o sexo, buscar melhorar a comunicação entre o casal, aumentar os estímulos excitatórios, conhecer melhor o corpo, desenvolver a fantasia, comportamentos e atitudes para que se proporcione possibilidades e oportunidades para que o desejo apareça", continua a psicóloga.

Se a questão for a rotina do casal, que parece estagnada, principalmente por conta do isolamento, é interessante se colocar, primeiro, aberto a mudanças. "Buscar separar um tempo e um espaço para si, sem deixar o sexo para a última coisa do dia, buscar descobrir novos estímulos, namorar mais, tirar o foco da penetração, usar outros cômodos da casa ou até outros lugares para transar, conversar mais sobre sexo, ver filmes eróticos para estimular a fantasia e mudar o clima… Enfim, sexo e desejo são atitudes e requerem investimento constante", explica.

*Nome fictício, usado a pedidos do entrevistado

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