Falta de pagamentos e ambiente hostil: os bastidores do UcconX

Logo oficial do UcconX, a Universal Creators Conference Experience, festival de cultura pop. (Foto: Divulgação)
Logo oficial do UcconX, a Universal Creators Conference Experience, festival de cultura pop. (Foto: Divulgação)

O primeiro dia da Universal Creators Conference Experience, festival de cultura pop conhecido como UcconX, entrou entre os assuntos mais comentados nas redes sociais nesta quarta-feira (27) e não foi pelo sucesso da edição, que aconteceu Pavilhão do Anhembi, em São Paulo, e vai até domingo (31). O evento, que prometia trazer grandes astros do entretenimento, estava vazio, com poucos expositores e com o nome envolvido em denúncias de falta de pagamento, ambiente de trabalho hostil e até supostos casos de agressão contra funcionários.

O evento se apresentou como um grande festival voltado para os fãs de games, filmes, séries e animes. Atraiu parte do público ao anunciar que Millie Bobby Brown e Dacre Montgomery ( ambos de “Stranger Things”), George Takei (“Jornada nas Estrelas”), Ian Somerhalder (“The Vampire Diaries”) e Rupert Grint (franquia “Harry Potter”) viriam ao Brasil. Mas nos bastidores, a coisa era bem diferente.

Uma ex-funcionária que trabalhou em todo o processo de criação do evento e que prefere não se identificar por questões de segurança, relata sua experiência. “O ambiente do trabalho era muito hostil”, disse em entrevista ao Yahoo.

“Muita gritaria, muitas brigas, principalmente entre os sócios. [...] Tinha falas e comportamentos com todos os tipos de preconceito que você pode imaginar. Era realmente muito difícil trabalhar lá nesse sentido”. A ex-funcionária conta que até boatos envolvendo agressão contra membros da equipe cercavam a empresa.

"A agressão é mencionada novamente por uma segunda fonte em entrevista ao Yahoo, que não quer ser identificada, que ouviu os rumores sobre o caso enquanto também trabalhava na UcconX. "[Quando começou a dar errado, começou uma pressão grande. Ai começaram a acontecer episódios de gritos no corredor, estresses, brigas e coisas do gênero", informou. Um dos diretores também teria feito comentários inadequados sobre a roupa de uma das funcionárias, que foram testemunhados por esse integrante da equipe.

A empresa também teria construído um histórico de falta de pagamentos. Inicialmente dispensaram toda a equipe por uma reunião presencial no auge da pandemia em 2020 e não quitaram o último mês de serviço. Quando a fonte voltou a trabalhar no local, poucos tempo depois, passou seis meses sem receber o salário.

“Algumas agências de comunicação que prestavam o serviço, levavam a identidade visual, o conceito, o planejamento de mídia não eram aprovadas e não eram pagas. Isso aconteceu com pelo menos quatro agências. Eles iam pegando um pouquinho de cada material construído pela agência. Já era um plano não pagar as agências e construir esse plano em cima dos trabalhos”, contou a fonte.

O mesmo procedimento era aplicado para trazer os artistas internacionais para o evento. Toda a negociação era feita por uma consultora sob a segurança de que “dinheiro não era problema”, mas ao chegar a data de pagá-los, o comportamento seria de “começar a levantar dúvidas” sobre a relevância dos artistas para a cultura geek. Entre os talentos sondados para vir ao Brasil na UcconX, estariam dois astros da Marvel: Chris Hemsworth e Chris Evans, que interpretam, respectivamente, Thor e Capitão América na franquia dos “Vingadores”.

No entanto, a questão financeira não foi o fator principal para sua saída definitiva da empresa. Durante o período de eleições para a Prefeitura de São Paulo, em 2020, a fonte relata que “foi uma semana que ouvi coisas horríveis dentro do escritório, de todos os tipos de preconceito”. Os comentários envolviam falas transfóbicas e contra pessoas negras e gays: “O limite foi ouvir todas aquelas coisas faladas escancaradamente. É totalmente contra os meus valores”. Era o desejo de um dos diretores que o evento “não fosse associado a esse tipo de coisa".

Com medo de sofrer ataques contra sua integridade, a fonte conta que optou por não denunciar a empresa. “Não acionei judicialmente porque eu já tive experiência de colegas que acionaram judicialmente e que sofreram represália e que não tiveram nenhum retorno”, explicou.

Mesmo que tenha sido um sonho trabalhar em um evento de grande porte voltado para a cultura pop, a entrevistada conta que está aliada por não ter seu nome associado ao UcconX. “É um alívio ver que isso, junto com outras pessoas, gerou uma comoção de pessoas também terem coragem de falar a respeito e de alertar o público. Não só para esse evento como para vários outros e instituições que aproveitam do público de uma forma super desonesta”, concluiu.

O Yahoo procurou a organização do evento, mas não obteve retorno até a publicação deste texto. O portal Meio & Mensagem conseguiu contato com Leo De Biase, sócio da BBL, produtor e organizador do UcconX. Ao veículo, ele justificou que as acusações de falta de pagamento se referem a antiga organizadora do evento.

“As reclamações são referentes ao período de 2021, que antecede a aquisição do UcconX pela atual organizadora. A BBL se solidariza e lamenta essa situação”, pontuou. Além disso, ele afirmou que a estrutura está completamente montada e minimizou o espaço vazio, com pouco público, no primeiro dia.

Resposta

A organização do evento respondeu o Yahoo na manhã desta quinta-feira (28). Em nota, eles disseram:

"Quanto às alegações de falta de pagamento de ex-colaboradores, a organização do Ucconx 2022 esclarece que a BBL, empresa one-stop-shop que opera desde 2018 no mercado de games e esports, adquiriu a propriedade intelectual da UcconX (Universal Creators Conference Experience) e seus contratos relevantes com o Anhembi e não tem nenhuma relação com a antiga proprietária do evento. As reclamações são referentes ao período que antecede a aquisição desses ativos pela BBL, que se solidariza a lamenta essa situação."

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