Fala de Luís Nassif em filme é cortada após pressão de prefeito bolsonarista

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O depoimento do jornalista Luís Nassif em um documentário sobre Poços de Caldas (MG) foi cortado na sessão de estreia, realizada no domingo (6) na cidade.

Nassif e o produtor do filme, Bruno Benetti, acusam o prefeito, Sérgio Azevedo (PSDB), de ter feito pressão pela censura do trecho.

Jornalista com posições assumidamente de esquerda, Nassif é nascido na cidade e foi um dos entrevistados para o curta "Para Sempre Poços", produzido para celebrar o aniversário de 150 anos da cidade.

Já o prefeito apoiou o presidente Jair Bolsonaro (PL) na campanha. O caso foi revelado pelo colunista local Rodrigo Costa.

"Esse documentário está sendo feito há um ano e meio. É um filme apartidário, e algumas figuras importantes da cidade foram entrevistadas sobre a cidade, entre elas o Luís Nassif. Não são falas políticas", afirma o produtor.

Ele relata que na última quinta-feira (3) foi chamado para uma reunião pelo secretário de Governo da cidade, Paulo Ney, que lhe disse que o trecho com Nassif precisava ser cortado.

"Ele me disse que era ordem do prefeito, e que se isso não fosse feito, não seria possível exibir o filme no domingo, data do aniversário da cidade", afirmou Benetti. O documentário é parcialmente financiado por um edital do Departamento Municipal de Eletricidade, ligado à prefeitura.

"Fiquei muito chateado com isso. Pensei sobretudo na cidade e na minha equipe, e achei que seria um desrespeito com eles não exibir", declarou o produtor. Ele disse que suprimiu cerca de 2 minutos da participação de Nassif, um corte considerável num documentário de 25 minutos.

A exibição então ocorreu normalmente, num espaço de eventos da cidade no domingo (6), com a presença do prefeito. Benetti diz que o corte ocorreu apenas para essa ocasião, e que futuras exibições terão a parte com Nassif reinserida.

O jornalista disse à reportagem que se sente censurado. "Tenho dois livros publicados sobre a história de Poços. Quando a cidade fez 100 anos, eu me inscrevi num concurso para a escolha do hino da ocasião, e fiquei em segundo lugar. Agora, 50 anos depois, sou censurado por um prefeito bolsonarista, que nem daqui é", afirmou, em referência ao fato de Azevedo ser nascido em Volta Redonda (RJ).

O jornalista denunciou o caso nesta segunda (7) ao Ministério Público Estadual. Há alguns meses, Nassif acusou o prefeito de ter pago participantes de uma motociata em defesa da reeleição de Bolsonaro (PL). Ele avalia que esse histórico de embates pode ter contribuído para a pressão sobre o filme.

A assessoria da prefeitura afirmou ao Painel que o depoimento não foi retirado do filme, "até porque o filme não é da prefeitura".

"Ele foi retirado da apresentação durante a cerimônia de condecoração pelos 150 anos cidade, por ser de entendimento da administração que não merecia este destaque", diz em nota.