Fadiga de quarentena: por que até quem defende o isolamento social decidiu sair de casa?

Marcela De Mingo
·6 minuto de leitura
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Vendo as pessoas relaxando o isolamento pelas redes sociais, as demais começam a questionar se mantém a rotina em casa, fruto de um cansaço por conta da sensação de incerteza (Foto: Getty Creative)

Já são mais de 100 dias. O que cresce no peito é uma pergunta que encontramos o tempo inteiro nas redes sociais: "será que eu sou a única pessoa que ainda tá em quarentena?". Pelo feed, você vê gente de todo tipo relaxando a própria rotina e voltando a sair de casa. Em certo momento, você mesmo pensa: "Bom, vou ali só ver a minha mãe". Dois dias depois, é uma caminhada pelo bairro. Depois, é uma visita à casa do crush, ou um treino na praça. Para os mais ousados, uma reunião de amigos em casa mesmo. Esses comportamentos representam um quadro, que podemos até chamar de clássico, de fadiga de quarentena.

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Para algumas pessoas, o isolamento social já dura quase 4 meses e, depois de seguir rigorosamente a regra de não sair de casa a não ser que seja totalmente necessário, muitos se perceberam, em português claro, sem saco de continuarem entre quatro paredes. Isso tudo tem explicação, claro.

Segundo a psiquiatra e psicanalista Maria Francisca Mauro, mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, em termos gerais a fadiga acontece quando existe um cansaço, uma sensação de esgotamento de energia. Isso gera irritação, dificuldade de concentração, humor mais para baixo e falta de perspectiva. "A mente fica como se estivesse sem saída para aquela situação", diz ela.

Esse estado pode acontecer por muitos motivos, mas, no caso do isolamento, ele têm uma causa comum. A situação de lockdown não aconteceu necessariamente por vontade própria, mas por causa de uma situação sanitária, que impôs um senso imperativo de distanciamento entre as pessoas. "Apesar de uma minoria vivenciar esse período como um 'alívio' para as demandas de uma rotina corrida, muitos se percebem 'controlados' e cerceados de sua liberdade", continua a psiquiatra.

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Por mais que muitas pessoas tenham topado manter o isolamento de forma rigorosa pelos primeiros três meses, o que se vê é essa fadiga mental, o cansaço determinado pelo prolongamento de um cenário desconfortável, em que tudo é muito incerto. Isso explica porque o entusiamo que se viu no começo do período de isolamento, um esforço coletivo para as pessoas ficarem em casa, agora praticamente sumiu. Naquela época, as pessoas acreditavam que a situação teria, de fato, um prazo determinado e uma data certa para acabar.

"Agora, acompanhando a evolução do cenário, essas pessoas que estão se esgotando emocionalmente passam a não encontrar mais subterfúgios emocionais para tolerar os acontecimentos desagradáveis e, com isso, estão vendo dificuldade em acreditar em 'coisas positivas'", diz Maria. "A fadiga surge quando esgotamos um caminho. Assim, aos que estão mais 'acuados', vai ser necessário estabelecer novas 'rotas emocionais'. A criatividade é um recurso importante para o momento."

É isso que motiva, também, justificativas das mais variadas para furar a quarentena, seja uma visita até a casa de um parente, sejam casos mais extremos, como de pessoas que têm se juntado para festas e outros encontros com aglomerações maiores.

"Cada um precisa analisar como suporta emocionalmente essa situação e como pode contribuir para que ocorra um freio de contaminação, em vez de ligar a 'indiferença total' causada pelo desconforto do esgotamento", recomenda.

Um ponto que a psiquiatra lembra é que essas escolhas de furar a quarentena precisam ser éticas e que o coletivo precisa desse compromisso individual com o isolamento "para que possamos ter empatia e não propagar irresponsabilidades". Isso significa não deixar de lado os cuidados básicos de higiene, usar máscaras, e demonstrar o cuidado consigo e com os outros ao sair. "De certa forma, isso marca uma questão moral de egoísmo. O altruísmo será fundamental", diz ela.

Como reverter ou amenizar um quadro de fadiga de quarentena?

Dá para imaginar que esse desconforto, assim como o estresse causado pelo começo da quarentena, terá efeitos a curto e longo prazo. No dia a dia, o que você pode experimentar são sensações de raiva, confusão mental, apatia, uma tendência a adiar compromissos (como entregas profissionais) e a percepção de solidão. Ou seja, a sua capacidade de sentir coisas boas durante as atividades do dia fica comprometida.

"Em longo prazo, esse desconforto emocional pode contribuir para que a pessoa não estabeleça projetos futuros ou não se empenhe para alguma conquista", diz Maria. "Também pode favorecer um adoecimento emocional, que pode evoluir para quadros de depressão, ansiedade ou mesmo pensamentos de desistência da vida – como vontade de morrer."

Sim, a situação é preocupante. Mas ela não é sem solução. Nesses momentos, a psiquiatra explica a importância de não se alienar no sofrimento, isto é, reconhecê-lo, mas não se deixar levar por ele, e buscar recursos para se proteger emocionalmente. Buscar suporte nos profissionais de saúde mental, como psiquiatras e psicólogos, por exemplo, é uma forma de cuidar para que esse quadro de fadiga mental não piore.

Mais um ponto importante é buscar equilíbrio entre o trabalho e o autocuidado, se você faz parte do contingente de profissionais que segue trabalhando em casa. Procurar colocar no seu dia atividades que você gosta, que gerem reflexões e insights sobre você mesmo e estimulem o autocuidado é essencial para tornar esse processo menos doloroso e aliviar essa sensação. Manter o contato com as pessoas de fora, como fazer ligações para familiares e amigos, é outro ponto que não pode ser deixado de lado. Essas conexões são o que nos ajudam a sair também da sensação solitária.

Segundo o psicanalista Ronaldo Coelho, buscar novas formas de se relacionar, de gerar renda e de ocupar o tempo dentro de casa é importante também para dar um sentido aos dias - isso significa que montar e manter uma rotina é ponto-chave. Além de, claro, desenvolver o discernimento sobre quando, realmente, a saída de casa é necessária e quando ela é dispensável, considerando o contexto global.

“Para as pessoas que estão em isolamento e trabalhando de casa, além de orientação para que construa marcadores de espaço e tempo, acredito que seja importante considerar quais as coisas fundamentais na vida das quais ela não pode abrir mão de jeito algum. Deste modo será possível manter o máximo de cuidado durante a pandemia sem se privar por completo do que é mais essencial", explica ele.