Expulsão de Phellipe de 'A Fazenda' bate de frente com a cultura assediadora

Phellipe foi expulso de A Fazenda após beijar Hariany contra a sua vontade (Foto: Reprodução / Record)

No reality show A Fazenda da Record, o participante Phellipe Haagensen foi expulso por assediar a colega de confinamento Hariany Almeida. A notícia, claro, foi bem recebida, já que os telespectadores fizeram bom uso das redes sociais para cobrar um posicionamento da emissora sobre o caso.

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Durante uma discussão - o que é comum em realities como esse -, Phellipe deu um selinho em Hariany, que claramente não estava interessada nesse tipo de interação naquele momento. "Você beijou a minha boca sem a minha permissão. Se eu quiser te denunciar, eu te denuncio, seu otário", disse ela, na ocasião.

Fato é que no último domingo (30), o apresentador Marcos Mion anunciou a expulsão do participante, que desde então disse em entrevista à própria emissora que "se precipitou" e que "estava carente", por isso beijou Hariany no calor da discussão.

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Qualquer que seja a sua motivação, porém, a atitude de Phellipe consiste em assédio, quando existe qualquer ação de caráter sexual sem o consentimento do outro. No Brasil, segundo pesquisa do Instituto Galvão, o número de mulheres que já sofreram com isso é espantoso - quase 97% das menores de 18 anos dizem já terem sido vítimas em algum momento, e isso só nos transportes públicos.

Por isso, um caso de abuso receber uma reprimenda pública é tão importante, já que bate de frente com a cultura assediadora, tão comum no país, e tira da frente a ideia de que a impunidade é regra nesses casos. "A punição ao abusador o ensina a assumir a responsabilidade pela forma como agiu e provoca na sociedade questionamento e reflexão", explica Déborah de Mari, fundadora do Força Meninas e pesquisadora nas áreas de Gênero, Liderança, Habilidades do Século 21.

Segundo ela, ações como essa deixam claro limites e reforçam os códigos sociais de ética e respeito. Aliás, Déborah explica que muitas vezes as pessoas têm dificuldade em reconhecer que estão sendo abusadas - por mais estranho que isso possa parecer -, mas é aí que a punição pública entra como um serviço a favor da conscientização. "A punição pública de um abusador auxilia as pessoas a reconhecerem o que é abuso e como pode se defender. Infelizmente, muitas vítimas ainda pensam que é assim que as coisas são e que não há nada que possa ser feito", diz.

Mais comum ainda são as vítimas desses abusos acreditaram que são culpadas pelo o que aconteceu com elas, e por isso o índice de mulheres que nunca denunciou as violências que sofreu são tão altos, passando os 50%. É uma ideia errônea de que elas mesmas cometeram algum tipo de erro e mereceram o que lhes aconteceu por ter quebrado as regras sociais ou de expectativas alheias.

Déborah também explica que vivemos hoje um momento muito importante. Entre o conservadorismo extremo e a liberdade de expressão, mulheres que sofreram abusos ou violências no passado estão tomando coragem de falar abertamente sobre as suas histórias, na melhor definição de "uma puxa a outra", criando uma corrente na luta pelo fim do abuso físico, moral e sexual. "O ponto positivo é que muito do que relatávamos como piada em um passado recente, hoje é visto como inaceitável. Acredito que esta transformação que vivemos leva as pessoas e empresas à obrigação de posicionarem-se de forma mais autêntica e propositiva", explica.

Abuso sexual na TV aberta

O caso de 'A Fazenda', claro, não é o primeiro. O 'Big Brother', da Globo, também já passou por situações semelhantes, em que um dos participantes foi expulso sob acusação de estupro na edição 12 do programa. Alguns anos depois, no BBB17, outro participante foi expulso dar demonstrações claras de um relacionamento abusivo e até violento.

O segundo caso, aliás, é curioso porque o participante Marcos Harter não só continuou a sua vida como se nada tivesse acontecido, como também foi chamado para participar do próprio 'A Fazenda', em que chegou à final com Flávia Viana, ganhadora da edição. Em 2009, o vencedor de A Fazenda' foi o ator e cantor Dado Dolabella, condenado por agredir a atriz Luana Piovani, sua namorada na época.

Para Déborah, programas desse tipo não têm uma pauta machista - isto é, não nascem baseados em ideias de diminuir ou humilhar mulheres -, mas trabalham com um recorte da sociedade que, em si própria, é machista. "A escolha de perfis específicos alinhada a convivência prolongada provoca nos participantes a necessidade de relevar faces e temáticas que no dia a dia ficariam ocultas. Sendo assim, o machismo tão mencionado no programas nada mais é do que um retrato de nossa realidade", diz.

Até por conta disso é tão difícil o público identificar e assumir um abusador como tal. "Infelizmente nossa sociedade ainda normaliza e romantiza o abuso e o abusador. Por isso, muitas vezes as vítimas silenciam-se. Precisamos educar desde cedo meninas e meninos sobre a importância do respeito mútuo e quais comportamento não são mais aceitáveis", explica Débora.