Exposições tentam ir além de apresentações de PowerPoint com obras feitas para a tela

CAROLINA MORAES
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Neste último ano de pandemia, museus e galerias fecharam, o público não pôde visitar exposições por longos períodos de tempo, e o que restou foi uma tela de computador para apresentar mostras —o que nem sempre resultou numa experiência muito agradável. O suspiro de uma reabertura no fim do ano passado foi breve, e, mesmo que se preparem para uma segunda reabertura ainda tímida, os espaços culturais tiveram de se adaptar ao cenário de isolamento social. Mostras com reproduções das obras, acompanhadas de texto como numa apresentação de PowerPoint, e visitas a exposições em 360 graus se tornaram, assim, comuns —mesmo que áridas para muitos. Enquanto os primeiros lembram catálogos de exposição, os segundos usam plataformas que, parecidas com o Google Street View, podem tornar ver uma obra particularmente difícil por causa do vaivém involuntário de posições da tela. ​ Houve, no entanto, uma série de iniciativas de plataformas e obras pensadas diretamente para o ambiente virtual que tiraram a poeira dos sites institucionais, com propostas de trabalhos que até saltavam na tela do espectador involuntariamente durante o dia. "Algumas exposições conseguiram lidar com esse ambiente, mas, via de regra, elas já são de instituições ou de grupos que vinham há anos experimentando a internet para outras funções que não só as de comunicação e serviço. O padrão geral dos viewing rooms é de um blog de conteúdo mais sofisticado", diz a artista Giselle Beiguelman. Nessa "era jurássica dos bytes", também falta, claro, a própria experiência com o espaço de uma exposição —situação incontornável até para os projetos virtuais mais inusitados. "Não há nenhum imprevisto, a não ser o técnico. Você nunca vai encontrar alguém, ninguém vai atrapalhar, nenhuma criança vai gritar", lembra Beiguelman. Ela defende que houve um aumento exponencial de trabalhos adequados para os computadores. Um deles é o "Real-Time Constraints", uma extensão do navegador que, a cada uma hora, invadia as telas do público, num recurso que só a internet é capaz de explorar. Beiguelman também foi uma das artistas que apresentou obras virtuais, como "Nhonhô", um vídeo com Ilê Sartuzi sobre um casarão em Higienópolis que esteve na programação do Videobrasil online. "Acho que ainda estamos numa espécie de território de testes em que algumas coisas funcionam mais ou menos. As propostas mais interessantes que tenho acompanhado tratam o online como um espaço em si, procuram entender o que só dá para fazer dessa maneira, e não somente encaram a internet como uma ferramenta de divulgação de experiências concebidas para o espaço físico", afirma Fernanda Brenner, diretora do espaço de arte Pivô. É o caso de uma plataforma da própria instituição, o Pivô Satélite, programa online criado durante a pandemia. As exposições trabalharam com jogos digitais, vídeos interativos, animações e performances remotas. "O ritmo da programação replica o do espaço físico, no sentido que temos uma mostra individual por mês e pensamos programação pública ao redor do conteúdo proposto por cada artista. Mas todo esse conteúdo fica no arquivo do programa e pode ser acessado a qualquer momento", conta Brenner. A curadora ressalta que o encontro presencial com a obra é insubstituível —principalmente para mídias como pintura, escultura ou performances. "É impossível deixar de pensar que há uma perda. Estamos falando de uma experiência sensorial que implica você sair de seu ambiente, de sua casa, se deslocar, entrar numa outra condição", avalia Marcos Moraes, coordenador dos cursos de artes visuais da Fundação Armando Álvares Penteado, a Faap. "A exposição é algo muito mais complexo que só a relação da imagem em si. Se fosse uma simples sequência de imagens na parede, seria quase como fazer um catálogo. Não é isso. Pensa-se na iluminação, no pé direito", exemplifica. O setor, como quase todos ligados a atividades culturais, sofreu severamente durante esse ano de pandemia. Uma pesquisa de 2020 mostrou que as vendas das galerias que comercializam obras de arte moderna e contemporânea, por exemplo, diminuíram 36% em 2020 em relação ao mesmo período do ano anterior. O Brasil, inclusive, foi o país mais afetado no quesito demissões, com uma média de cortes de oito empregados em galerias maiores durante a pandemia. Mas esse estado de crise que obrigou as instituições a migrarem para o universo online também pode indicar uma mudança permanente para as artes visuais —não à toa, avalia Giselle Beiguelman, os NFTs explodiram durante a quarentena. "Se isso amadurecer, no sentido de conseguir ir além de comercializar JPEG, é possível que a gente tenha uma linguagem sem volta, que a gente não fique com a ideia de que só o teletrabalho vai continuar, mas também essa experimentação de novas linguagens das artes do corpo, de novos formatos de uma arte da pós-internet", afirma. A artista lembra, no entanto, que não foram só as telas de computador que apresentaram projetos artísticos a um público confinado. "Uma coisa que é a marca de uma linguagem dessa pandemia e que tem muito a ver com o contexto brasileiro e que se consolidou agora é o videomapping e as projeções urbanas", diz ela, como foi o caso de projeções feitas nos prédios próximos ao Minhocão, em São Paulo. Em tempos de Covid, as janelas funcionam como um dispositivo de intervenção na cidade e, por que não, de ver arte. * CONHEÇA PROJETOS DE EXPOSIÇÕES E OBRAS VIRTUAIS Pivô Satélite pivo.org.br/satelite/ Projeto do Pivô, o programa é totalmente online e criado durante a pandemia. O espaço convidou três curadores, que trabalharam projetos individuais de quatro artistas de diferentes regiões do Brasil que ocuparam o espaço durante um mês com vídeos interativos, animações e performances Real-Time Constraints arebyte.com/real-time-constraints A exposição só pode ser vista ao instalar uma extensão do Chrome. Pelo navegador, obras saltavam na tela do público a cada hora Homeostasis Lab homeostasislab.org A plataforma dedicada a arte virtual foi criada há oito anos pelos curadores Julia Borges Araña e Guilherme Brandão, mas estreia nesta semana o projeto "Novo Tempo", em que nove curadores brasileiros são convidados a criar mostras para esse ambiente digital Elizabeth Peyton petitcrieu.com A artista Elizabeth Peyton usa, nesse projeto, o ambiente digital para criar uma espécie de colagem em que é possível explorar os detalhes de suas obras