Exposição em São Paulo conta a história de dom Paulo Evaristo Arns

LUCA CASTILHO E TATIANA CAVALCANTI
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 15.12.2016 - Velório de dom Paulo Evaristo Arns na Catedral da Sé em São Paulo. Exposição em São Paulo conta a história do arcebispo emérito de São Paulo. (Foto: Diego Padgurschi/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O cardeal dom Paulo Evaristo Arns (1921 - 2016) ficou conhecido por sua coragem de ir até as prisões no auge da ditadura civil-militar para ajudar a resgatar presos políticos, muitos barbaramente torturados,  na década de 1970. Também foi ele quem cedeu a Catedral da Sé para que o rabino Henry Sobel conduzisse um culto ecumênico em homenagem ao jornalista judeu Vladimir Herzog, após ele ser encontrado morto em uma cela do DOI-CODI (órgão de inteligência e repressão inaugurado pelo governo em 1964), onde havia comparecido espontaneamente para explicar sua ligação com o partido comunista. Mas o cardeal também entrou para a história do país por sua luta por justiça social, liberdade e direitos humanos.

Essas e outras histórias serão contadas na "Exposição Dom Paulo Evaristo Arns", inaugurada nesta terça-feira (3) no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na Vila Nova Cachoeirinha (zona norte da capital paulista). A entrada é gratuita e a mostra segue até 26 de abril.

A importância de Arns para o Brasil é imensa, segundo Gerson de Moraes, professor de teologia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. "Ele foi fundamental para a história do país, em especial para a redemocratização da nação, após assumir o cargo de arcebispo metropolitano de São Paulo, em 1970."

O especialista afirma que Arns se tornou referência pois pregava e realmente vivia uma vida franciscana, sempre interessado nos direitos humanos. "Seu nome ficou marcado por sua luta contra a ditadura e contra a injustiça social. Ele sempre ajudava os mais necessitados."

A exposição sobre o cardeal tem a curadoria de Evanize Sydow e Marilda Ferri, jornalistas e biógrafas do Cardeal do Povo, como Arns era carinhosamente conhecido, no livro "Dom Paulo Evaristo Arns - Um Homem Amado e Perseguido".

Concebida pensando também no público jovem, a mostra conta com elementos interativos, lúdicos e multimídia e com tecnologia sensorial. "São o ponto forte da exposição, principalmente por mostrar a trajetória de dom Paulo em uma linguagem que é muito próxima dos mais jovens", diz Marilda ao Agora.

A trajetória do cardeal é disposta em seis blocos temáticos: democracia, política, sociedade, legado intelectual, Igreja e comunicação. Haverá temas como o papel da mulher na Igreja e na sociedade. 

"Visitar dom Paulo é visitar a história, não só dele, mas de outros homens e mulheres que lutaram pela justiça, democracia e liberdade. Uma visita à história de uma figura tão emblemática é relevante, já que muitos não tiveram acesso a essa história", completa.

A imersão passa por um jogo de amarelinha com questões sobre a democracia e os direitos humanos. O regime militar é retratado na reprodução de uma cela do Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social de SP), um dos centros de tortura na capital, além de réplicas de materiais usados  nessa prática.

Nela, o público será convidado a participar da peça interativa "Memórias e Resistência", de quarta a sábado, às 14h30 e às 16h30. A obra simula a condução de presos políticos à prisão, nos anos 1960 e 1970.

No mesmo espaço, haverá uma versão gigante do livro "Brasil: Nunca Mais", além de um vale remontando à vala clandestina no cemitério de Perus (zona norte), onde foram encontradas mais de mil ossadas, muitas de desaparecidos políticos, lembrados em um painel com fotografias.

DEMOCRACIA CORINTHIANA

Além de dedicar praticamente toda a sua vida aos pobres e mais necessitados, dom Paulo também reservava um espaço especial para o Corinthians, que inclusive foi tema de um de seus livros, "Corintiano Graças a Deus!".

A ligação do cardeal coma Democracia Corinthiana é contada em um mini-campo de futebol,  em que os visitantes são convidados a formar dois times para responder a um número de perguntas e somar pontos com os acertos.

Por fim, em vídeo, os 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos são lidos por 30 pessoas de origens diferentes, entre elas refugiados, moradores de rua e artistas, como Criolo, Martinho da Vila e Paulinho da Viola.

Papel de Arns na ditadura foi essencial para o Brasil Durante a ditadura no Brasil (1964-1985), 475 pessoas morreram ou desapareceram por motivos políticos, de acordo com o livro "Direito à Memória e à Verdade - Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos". Dentre essas vítimas, algumas nunca foram localizadas. Outras foram descobertas em valas do cemitério de Perus (zona norte) graças à luta de dom Paulo Evaristo Arns e do pastor presbiteriano Jaime Wright, defensor dos direitos humanos no Brasil.

"Esse tema unia dom Paulo e Wright. O cardeal, porque denunciava as prisões políticas. O pastor, porque teve um irmão que desapareceu nas mãos dos órgãos de repressão", afirma o especialista Gerson de Moraes, do Mackenzie.

Esse movimento, liderado pela dupla, possibilitou a pessoas que tiveram entes queridos mortos ou desaparecidos no período descobrissem a verdade. "Ajudou muitas famílias a terem respostas sobre o que aconteceu nos porões da ditadura e, também, a ter acesso aos corpos, para finalmente ganharem um enterro digno", afirma Moraes. "Eles copiaram mais de mil páginas de documentos do Superior Tribunal Militar para não permitir que essa história fosse esquecida."

O especialista explica que a Igreja Católica apoiou o golpe de 1964. "Mas a Igreja foi se reposicionando quando percebeu que alguns de seus representantes eram mortos ou torturados", conta. 

 Renan William dos Santos, doutorando em sociologia pela USP (Universidade de São Paulo), lembra o caso do jornalista Vladimir Herzog. "O velório dele foi um dos atos de maior impacto na ditadura. Quando dom Paulo ofereceu a catedral da Sé para ato ecumênico, foi contatado pelo governo, que tentou dissuadi-lo dessa ideia.

Mas o cardeal bateu o pé e manteve sua decisão", explica Santos. "O clima ficou bastante tenso. A catedral foi cercada pelo Exército, que portava metralhadoras. Dom Paulo orientava as pessoas a não saírem sozinhas, só em grupo, para evitar desaparecimentos", finaliza.

O corpo de Dom Paulo Evaristo Arns, morto em 2016, aos 95 anos, está enterrado na cripta [capela subterrânea] da Catedral da Sé. O local, que fica a 7 metros abaixo do nível da praça da Sé, é aberto para visitação ao longa de toda a semana e conta com visitas guiadas.


EXPOSIÇÃO DOM PAULO EVARISTO ARNS

QUANDO Abertura nesta terça (3), às 11h. De ter. a dom., das 10h às 22h.

ONDE No Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso (av. Dep. Emílio Carlos, 3.641, V. N. Cachoeirinha, tel. (11) 3343-8999)

QUANTO Grátis. Livre. Até 26/4.