Experimentei práticas BDSM em um bar e levei até chicotadas

Palco tem peças para tortura, como a Cruz de Santo André, um grande "X" na parede para prender submissos; na parede à direita da foto, quadro com instrumentos de BDSM (Foto: Ana Di Castro/Divulgação)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

Eu sou um baunilha. Ou era. Baunilha, explico, é a pessoa que não é adepta das práticas BDSM, sigla para bondage, disciplina, dominação, submissão, sadismo e masoquismo.

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A experiência que resolvi provar para escrever este texto era, além de observar o que acontece em uma casa de fetiche, testar a dor como forma de prazer. Comecei escolhendo o lugar, o Dominatrix Augusta, bar no bairro Consolação, região central de São Paulo.

Próxima etapa: imaginei que deveria usar uma roupa que não denunciasse que eu era um estranho na casa. Não tenho nada fetichista no armário. Vesti, então, calça preta, camisa preta de linho, abotoada até o colarinho, que eu fechei com um broche extravagante dourado e preto: uma abelha em cada ponta da gola, ligadas por duas correntes finas. Coloquei todos os anéis que tinha na caixinha (cinco) e calcei um coturno cor de vinho. 

Primeira surpresa da noite: a maior parte dos homens estava de jeans, camiseta e tênis -- e eu, não. As mulheres, porém, vestiam roupas de vinil, couro ou corseletes de renda -- a maioria, mas não todas. E, normalmente, estavam de sandálias altíssimas, que exibiam unhas bem feitas e pés nitidamente macios.

"Sou escrava. A mulher tem o direito de decidir o que quer fazer com seu corpo", diz Vivi Escarlate, anfitriã do bar Dominatrix (Foto: Andy Wolf/Divulgação)

Um dos visuais mais ousados era o da Vivi Escarlate, a simpática anfitriã do Dominatrix. Usando um corpete de couro vazado com botões de metal e uma coleira, ela, de cara, perguntou se era minha primeira vez no bar -- e se ofereceu para me apresentar tudo. Sem dizer que sou jornalista, aceitei.

Circulamos pelo andar de baixo do imóvel de 200 metros quadrados e dois andares, com capacidade para 150 pessoas. O térreo é forrado por mesas e cadeiras próximas às paredes, com espaço para trânsito no centro. Ao fundo, fica o bar e a cozinha -- de onde saem bolinhos de carne em forma de ração, servidos em comedouro de aço inox para os submissos. "Quer conhecer a masmorra?", Vivi me perguntou. "Claro que sim", respondi. E subimos. 

Na parede de frente para a escadaria, um quadro reúne instrumentos de BDSM. Há chicotes (floggers) de diferentes materiais: o de nylon é macio e serve, principalmente, para carícias. O mais arrepiante tem cabos de aço formando seis círculos, envolvidos por um plástico rígido. "Esse é pesado", explica Vivi.

Ela também me mostrou um gancho de metal, como um anzol com uma bola do tamanho de uma noz em uma das extremidades, para ser introduzido no ânus. Na outra ponta, há um anel, usado para passar uma corda e puxar, de diferentes formas, o submisso que está com a ferramenta introduzida no reto. "A sensação é a de que estão te rasgando, mas não rasga", garante Vivi.

Não cogitei checar a informação. Ela me mostrou, também, um capuz de couro, com pequenos furos para boca, olhos e nariz, e um grampo para espremer mamilos (parece uma pequena ratoeira de ferro). "Esse dói. Não gosto", diz Vivi, cerrando os dentes e colocando as palmas sobre os seios.

À esquerda, o cavalete para prender submissos; à direita, a cadeira de tortura (Foto: Ana Di Castro/Divulgação)

No fundo do espaço, há um palco com mobiliário para cenas sadomasoquistas. Lá, além de apresentações de pessoas convidadas pela casa, os frequentadores podem praticar BDSM e se exibir para o público do bar. São três peças: uma cadeira de tortura, onde o submisso é preso pela cabeça e pelos braços; a cruz de Santo André, que é um grande X preso à parede com argolas para imobilizar pessoas, e um cavalete, onde o praticante se debruça para ser torturado, de nádegas para cima e com mãos e tornozelos algemados. 

Acomodei-me em um pufe bem diante do palco e me apresentei como jornalista para Vivi, mas pedi segredo. Quis saber se ela é submissa ou dominadora. "Sou escrava", respondeu. Perguntei, então, se esse nome a incomodava. Ela disse, firme e sem titubear: não. "Muita gente acha que, por ser negra, eu não poderia gostar. Sou feminista. A mulher tem o direito de decidir o que quer fazer com seu corpo. Já tive um dono loiro de olhos azuis. As pessoas ficavam chocadas, mas BDSM é para os bem-resolvidos", conta. Vivi é interrompida por um cliente que quer saber qual dos dois banheiros é o masculino. "Aqui não tem isso", responde. Ela me pede licença e vai atender os frequentadores que estão chegando. Enquanto se afasta, me fala: "Fique à vontade. Pode fazer tudo, menos sexo."

Empréstimo de submissos

Núbia Del Fuego faz performance burlesca no Dominatrix, bar de BDSM na região central de São Paulo (Foto: Ana Di Castro/Divulgação)

Uma mulher sobe ao palco, de vestido de couro preto e chicote na mão. Ela traz, na coleira, um homem de jockstrap (cueca que tampa o genital, mas expõe o bumbum) e harness (um colete com argolas de metal, como um arreio). Junto com eles, que têm pouco mais de 30 anos, está um homem de meia idade -- também de "flogger" em punho. O primeiro é preso à cruz de Santo André e começa a tortura. Ambos batem nas nádegas do homem, se revezando, e cada vez mais forte. A cena durou bastante. Quando ele começou a ficar muito vermelho, cerca de 30 minutos depois, me senti um pouco aflito. Enquanto virei o rosto para pedir uma água para o garçom, o chicote do dominador que estava no palco voou e acertou minha nuca. "Acidentes de trabalho", disse ele, apertando meu ombro, como quem pede desculpas. A tortura continua.

Levantei-me e fui circular. Conheci Anna Steel e o homem que ela apresenta como seu dono, Lord Steel. Ela trabalha em uma pequena bancada de vidro na masmorra vendendo produtos fetichistas. Lord é o artesão dos artigos de BDSM. Ele faz tudo em sua própria oficina e vende no bar ou pela internet. Anna, além de ajudá-lo nas vendas, é sua submissa e parceira, por isso adota o "sobrenome" do dominador. Ela me explica que o rapaz que está apanhando no palco é marido da que está batendo. "Eles são um casal. Alguns donos emprestam seus submissos. Faz parte do jogo, por isso esse outro cara está lá com eles." Isso não significa que os homens sejam bissexuais. As práticas de BDSM não estão, necessariamente, ligadas a sexo. O BDSM independe de atração sexual, segundo Fernanda Benine, uma das sócias do Dominatrix.

Eu, ex-baunilha

Núbia Del Fuego pinga parafina de vela na língua em performance em casa de fetiche (Foto: Andy Wolf/Divulgação)

Anna me pergunta se eu sou dominador ou submisso. Respondo que não sei. "Você é baunilha? Vamos mudar isso hoje". Ela me apresenta os mais variados instrumentos. Há máscaras, cintos de castidade, coleiras, chicotes de muitos materiais. É por estes últimos que ela começa a tirar minha "baunilhice". Anna me bate na palma da mão com cinco tipos de chicotes diferentes. O primeiro deles, segundo ela, é só "para esquentar". Ele é formado por varetas de bambu. Combinamos que, se estivesse doendo demais, eu pediria para parar. Ela bate algumas vezes e vai aumentando a intensidade até que eu desista. 

O de bambu deveria ser o mais suave, segundo Anna. Para mim, foi bem dolorido. Arde muito. "A diferença é que cada um proporciona um tipo de dor diferente." Verdade. Depois das varetas, ela me bate com os chicotes de tiras de camurça, o de tiras de couro, o de tiras de couro trançadas e, o pior deles, um rígido de couro, como uma grande uma régua, forrado de pele de boi. "Esse está macio. Foi amaciado na minha bunda", diz Anna, dobrando a ponta do instrumento.

Com a mão direita bem ardida e vermelha, peço para testar algo diferente. Ela sugere as velas. "Tem que tomar cuidado com as comuns, que podem causar queimaduras feias na pele". As que Anna e o parceiro vendem são mais suaves. E, não à toa, têm cheiro de baunilha. Quanto mais de longe ela pinga, menos quente a gota de cera cai na pele. Anna derramou a parafina nos meus braços. Não chega a queimar. É bastante quente, mas gostoso. Ela aproxima o fogo da minha pele -- e me deixa um pouco assustado -- e a temperatura dos pingos aumenta. Peço para fazer em alguém.

Um homem, que também estava pela primeira vez no bar, estende um dos braços, meio receoso. Derramei a cera nele, de diferentes distâncias. No início, ele deu uns pulinhos, mas logo percebeu que não era dolorido como parece. Eu achei divertido, mas não excitante -- nem queimar nem ser queimado.

Uma jovem de vinte e poucos anos se aproximou, pois queria provar também. Eu e Anna pingamos a cera nos braços dela, que usava uma venda. "A sensação é mais intensa quando você não sabe o que o outro está fazendo com você", diz Anna. A menina também dá seus saltos, com sorriso no rosto, enquanto derramamos cera nela. Anna pega um abridor de cartas, que parece um punhal, sem corte. É com ele que ela tira a cera fria grudada na pele da menina, que muda a expressão, e fica realmente com medo de ser cortada, a princípio. Mas Anna entrega o truque, para poder me explicar: "É legal quando a pessoa não sabe que o instrumento não corta, ainda mais que ela está vendada."

Pés venerados, amarrações e chibatadas

Ninguém se mostrou interessado em venerar meus pés -- e eu não me senti à vontade para pedir que ninguém os chupasse. Eu até queria uma massagem, pois meus dedos estavam amarfanhados dentro das botas. Um trio de garotas dividia um sofá pequeno na masmorra enquanto três homens, deitados no chão de barriga para cima, se espremiam para beijar e esfregar no rosto os pés delas. Elas checavam as redes sociais enquanto recebiam o mimo. Vez ou outra, faziam uma foto dos submissos. Ao mesmo tempo, no palco, rola uma apresentação de shibari (técnica de amarração). Um homem amarrava duas mulheres, deitadas no tablado, com braços atados para trás e unidas pelas pernas. Também não me animei -- ser imobilizado é muito aflitivo, para mim. 

A noite já estava acabando e achei que minha experiência estava baunilha demais. Resolvi pedir a Anna, então, que me batesse nas costas, de chicote de couro. "Acho que dói mais do que na bunda", alertou ela. Era a ideia. Combinamos que eu diria "vermelho", se não aguentasse mais -- "Essa palavra de segurança é a mais comum. 'Amarelo' quer dizer que você está no seu limite, que a pessoa pode manter o nível a brincadeira. Se falar 'vermelho', para tudo".

Trato feito, ela me coloca com as mãos na parede e começa a rodar o chicote, batendo no centro das minhas costas. Dói, mas eu não reclamo. Minha visão periférica me mostra que algumas pessoas pararam para observar. Depois de uma meia dúzia de chicotadas, Anna eleva a intensidade e me chibata outra meia dúzia de vezes. E depois aumenta novamente. E mais uma vez. E continua. Minha pele já estava queimando quando ela me bateu ainda mais forte. Dessa vez, uma só -- e bem dada. Nem lembrei da palavra de segurança. Só me afastei da parede e disse: "chega", meio sem graça.

Confiança, técnica e, principalmente, consentimento

Anna tem prazer em estar vulnerável e em sentir dor, mas explica que não é de qualquer jeito. "Não é que eu dou uma topada em uma quina e gozo. Tem todo o jogo de dominação. E você precisa confiar muito no seu dono. Não se pratica BDSM com qualquer um. A pessoa precisa saber o que está fazendo, para não te machucar seriamente." Lord Steel  me explica: "Eu cuido dela. Ela é meu brinquedo, não posso estragar. Você pode bater na bunda à vontade, mas jamais nas juntas. Nas costas, na região dos rins, tem que ter cuidado. Nos ombros também pode usar mais força, mas tem ficar atento para o chicote não pegar no rosto, por exemplo."

Eles sugerem que eu prove ser dominador, para saber se me identifico. "Tem que ir experimentando as coisas, aos poucos, descobrir o que você curte", diz Lord. Não tinha como, ali, eu conhecer alguém que se dispusesse a ser dominado por um amador, além de umas gotinhas de cera de vela -- nem eu queria correr o risco de machucar alguém. Agradeci a todos e prometi que voltaria. A noite foi divertida.

Os frequentadores podem apenas tomar um drink, ouvir música e bater papo -- se der sorte, assistir a um show burlesco, como eu assisti. Para provar uma bebida ou a "ração", certamente, voltarei. Para todo o resto, ainda estou pensando.