Experimentei a dieta vegana por 30 dias e pretendo adotá-la para sempre

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Eu com uma vaca com uma cartola no Gentle Barn. (Foto cortesia de Kaitlyn Reilly)
Eu com uma vaca com uma cartola no Gentle Barn. (Foto cortesia de Kaitlyn Reilly)

Eu tinha cerca de 10 anos quando disse aos meus pais que me tornaria vegetariana. Sempre adorei os animais e, quando me deparei com imagens perturbadoras de um matadouro durante uma aula de informática, concluí que não deveria mais comê-los. Meus acharam que eu não manteria essa dieta por muito tempo, afinal eu era a criança que pedia o maior prato de costelas nas churrascarias do bairro.

Mas, no fim das contas, continuo vegetariana. Vez ou outra como peixe, mas fora isso, só consumo proteínas vegetais há mais de vinte anos (não subestime as coestelinhas vegetais antes de experimentar

Era muito fácil seguir a dieta vegetariana com um ou outro peixe de vez em quando e me senti bem por muito tempo. Eu consumia muito queijo, principalmente brie, mas isso era bem menos pior que uma picanha, certo? Talvez, mas eu continuava consumindo produtos de origem animal e sabia que isso não era exatamente o ideal.

Não tive um estalo que me fez perceber de uma hora para outra que os laticínios e ovos na verdade faziam mal aos animais que eu estava tentando preservar. Ao longo dos anos, fui observando várias coisas que me fizeram reconsiderar minha dieta.

Há vários documentários, como Cowspiracy: O segredo da sustentabilidade e Que raio de saúde , que questionam o impacto da pecuária em nosso bem-estar e no meio ambiente. Esses documentários já diminuíram minha vontade de tomar um copo de leite, mas foram os relatos mais pessoais do sofrimento animal que realmente me afetaram. Visitei o The Gentle Barn, uma organização de defesa animal em Los Angeles que resgata muitos animais de fazendas leiteiras e matadouros (onde abracei várias vacas). Enquanto as pessoas criticavam o discurso que Joaquin Phoenix, ganhador do Oscar de melhor ator pelo filme Coringa, fez sobre as vacas leiteiras, eu pensei: "Que hora para falar sobre isso, mas...não é que ele tem razão?"

Afinal, ele está certo: nos Estados Unidos, as vacas leiteiras são mantidas em alojamentos minúsculos em fazendas industriais durante a maior parte da vida. Elas são inseminadas artificialmente para produzir leite e depois separadas dos bezerros, que, se forem machos, geralmente vão para o abate, que também pode ser o destino da mãe depois que a produção de leite diminuir. Embora muitas pessoas possam argumentar que nem todo o leite vem desse tipo de operação, sempre estamos tirando um leite que seria destinado ao bezerro, não importa qual seja o processo usado.

Eu me tornei vegano por 30 dias. Foi assim que aconteceu. (Foto: Getty Images)
Eu me tornei vegano por 30 dias. Foi assim que aconteceu. (Foto: Getty Images)

Assisti chorando à cena de sexagem de frangos do filme Em busca da felicidade, que mostra o que acontece com os machos no processo de cultivo de ovos (eles são mortos porque não são usados na indústria de alimentos) e Okja, um filme de Bong Joon-ho sobre a amizade entre uma garotinha e um animal fictício que é vendido para uma fazenda industrial. Depois de ver essas cenas, não conseguia mais me sentir bem comendo produtos de origem animal.

Assim como fiz quando criança, voltei a reconsiderar minha dieta, desta vez refletindo sobre a indústria de laticínios e ovos. Como deixei de comer carne há muitos anos em consideração aos animais, será que eu também poderia abrir mão dos produtos de origem animal?

Era isso que eu queria descobrir. Por isso, me comprometi a comer apenas alimentos de origem vegetal por 30 dias para ver como essa dieta realmente funciona. Até convidei meu marido, que, embora seja carnívoro, também é fã das verduras e ficou animado em me ajudar a trocar o queijo por legumes.

Como novembro é o Mês Mundial do Veganismo, tive a ideia de documentar minha jornada de 30 dias. Foi assim:

Consultei alguns profissionais para falar sobre a minha paixão por queijos

No início, substituí a carne por queijo. Durante anos, comi sanduíches de provolone e tomate no almoço, e o hábito de fazer do queijo um dos principais ingredientes das minhas refeições me acompanhou até a idade adulta. Minha dieta era pescatariana, mas meu marido comia muito mais verduras do que eu, e dizia que talvez alguns dos problemas estomacais dos quais eu vivia reclamando tinham a ver com o consumo excessivo de queijo.

No entanto, era muito difícil dizer não aos queijos. Conversei com Ashley Byrne, diretora de divulgação e comunicações da PETA, que é vegana há 25 anos, sobre o dilema do queijo. A resposta dela foi intrigante.

"As pessoas têm dificuldade de abrir mão do queijo, foi o último alimento que deixei de consumir", explicou ela. "Um dos motivos disso é porque há um ingrediente nos laticínios, e no queijo, que estimula a vontade de comer. É viciante. Basta pensar no objetivo do leite de vaca, que é fazer o bezerro crescer rápido. Ele tem uma substância química que faz com que o bezerro mame o máximo possível, e esse produto tem o mesmo efeito sobre nós".

Descobri que essa substância se chama caseína e que alguns pesquisadores até comparam seu poder viciante ao de drogas pesadas.

"Gostaria de ter essa informação quando estava tentando cortar o queijo da minha dieta. O desejo só aumentava porque eu não parava de comer", diz Byrne. "Depois de um certo tempo sem queijo, a vontade passou".

Fiquei surpresa ao descobrir que ela estava certa. Comecei a comprar outras coisas para colocar no macarrão e, depois do quinto dia, não tive mais vontade de comer queijo. Em vez de provolone e tomate, fazia sanduíches de homus e pepino ou uma sopa com croutons (muita gente não sabe, mas a maioria dos pães são veganos). Eu não sentia que estava abrindo mão do queijo, meu corpo simplesmente não sentia mais falta desse alimento.

Verduras, cereais e legumes ganharam um papel de destaque

Quando comecei o desafio de 30 dias, tive dificuldade em planejar as refeições. Li alguns blogs sobre veganismo e assisti a alguns vídeos no YouTube, e todos eles diziam a mesma coisa: em vez de pensar na dieta como uma forma de restringir determinados alimentos (que era o meu objetivo), é melhor pensar nela como um pretexto para adicionar outros. Pensando nisso, comecei a usar grão-de-bico, lentilha e feijão como base das refeições. Fiz uma sopa vegetariana encorpada com feijão branco e me apaixonei pelo ensopado de grão-de-bico condimentado da Alison Roman. Fiquei surpresa com o tempo pelo qual conseguia ficar satisfeita depois de comer proteínas de origem vegetal. Depois de cada refeição, demorava horas para voltar a sentir fome.

Meu marido também gostou de ter sobras de sopas e ensopados na geladeira. Ele costumava almoçar saladas prontas compradas no supermercado (sim, mesmo antes do desafio vegano), mas era ainda mais fácil aquecer uma tigela de sopa no micro-ondas antes de começar a próxima reunião no Zoom.

Virei fã de tofu

Tofu pode ser uma grande alternativa em sabores (Foto: Getty Creative)
Tofu pode ser uma grande alternativa em sabores (Foto: Getty Creative)

O tofu foi o alimento que meu marido mais gostou de cozinhar durante esses 30 dias. Ele adora  adicionar novos temperos aos pratos, e o tofu absorve tudo, abrindo um mundo de possibilidades de sabor. Assim, descobrimos que o tofu era ainda mais versátil do que imaginávamos, e ficamos meio obcecados por esse alimento. Compramos uma prensa para remover a água do tofu, facilitando o cozimento e melhorando a textura. Experimentamos congelar, descongelar e congelar novamente para mudar a textura. Fizemos tofu teriyaki com inspiração asiática, ao estilo marroquino, mexicano picante. O tofu pode se adequar a praticamente qualquer sabor. Até empanei o tofu com salgadinho vegano triturado. Descobri que eu poderia gostar de novos alimentos, então a experiência valeu a pena.

Fiz compras em pequenos mercados locais

Algo que facilitou muito essa experiência foi o fato de morarmos muito perto de um mercadinho vegano, chamado Besties Vegan Paradise, que por acaso tem uma placa do lado de fora que diz: "Se você precisava de um incentivo para se tornar vegano, acabou de encontrar". Para uma pessoa nova no veganismo, esse tipo de mercado é o paraíso. Não é preciso ficar lendo os rótulos porque eles já analisaram cuidadosamente cada produto. O Besties tem produtos de empresas menores, sustentáveis e veganas que não estão disponíveis em supermercados maiores. Apoiar esse tipo de comércio me faz muito bem, mesmo que a compra saia um pouco mais cara.

Me senti melhor fisicamente

O principal motivo para me tornar vegana durante um mês era avaliar se eu me sentiria melhor comendo de uma forma mais ética, de acordo com meus princípios. No entanto, acabei descobrindo que comer mais verduras e menos queijo não fazia mal ao meu corpo. Adoraria dizer que mudei completamente e acordei me sentindo alegre e pronta para uma corrida matinal depois de começar a dieta vegana. Não foi isso que aconteceu, mas com certeza observei mudanças no meu corpo. Nunca mais tive aquela sensação de peso que sentia depois de comer uma refeição com queijo. Meu estômago parou de doer depois de comer, algo que acontecia com frequência quando eu comia produtos de origem animal.

Não senti que estava perdendo nada

O que realmente me impedia de ser vegana, ou até mesmo de cortar consideravelmente o consumo de laticínios e ovos, era achar que eu poderia ficar de fora de alguns momentos sociais importantes que incluíam comida. Devido à pandemia, não viajei para a França e consegui fugir do brie, mas como seria um jantar com amigos? Sinceramente, não foi um grande problema. Quase todo lugar tem algum prato vegano. Tinha medo de sentir vontade de comer os pratos deles, mas isso só acontece quando estou com muita fome, e com qualquer prato, não importa se tem carne ou não. Embora Los Angeles tenha restaurantes veganos incríveis, como o mundialmente famoso Crossroads, não passei aperto em restaurantes comuns. Fui ao Cheesecake Factory com meu marido e amigos e, mesmo sentindo falta dos rolinhos de abacate com ovo e, obviamente, do cheesecake, meu hambúrguer vegano com batatas fritas estava uma delícia, assim como a companhia. Além disso, guacamole é vegano, então consegui matar a vontade de comer um prato com abacate.

Não, não é um ovo de verdade: é a massa carbonara do restaurante Crossroads Kitchen, baseado em plantas de Tal Ronnen, em Los Angeles. A gema é feita de tomate. Legal certo? (Foto: Crossroads)
Não, não é um ovo de verdade: é a massa carbonara do restaurante Crossroads Kitchen, baseado em plantas de Tal Ronnen, em Los Angeles. A gema é feita de tomate. Legal certo? (Foto: Crossroads)

Considerações finais

Ao fim dos 30 dias, meu marido voltou a comer carne. No entanto, ao retomar os hábitos "normais", ele disse que a experiência vegana foi um lembrete de que comer carne em todas as refeições não é uma necessidade, assim como consumir grandes quantidades de queijo. Por isso, decidimos limitar o consumo de laticínios em casa, qualquer que seja a nossa dieta, pois existem escolhas muito mais nutritivas, como verduras e cereais.

Minha conclusão foi que a dieta vegana é mais saudável, mais alinhada à minha ética e gostosa, então por que não continuar? É claro que posso cometer alguns deslizes ou decidir sair da dieta em circunstâncias especiais (não posso garantir que vou resistir a um pedaço de pizza na Itália ou a um croissant na França), mas, por enquanto, o veganismo faz sentido para mim. Sinceramente, só não sei por que não adotei essa dieta antes.

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