Ex-presidente do Inep critica Bolsonaro e diz: 'Se tivessem bom senso, iriam eliminar primeiro dia e adiariam o Enem'

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Fabiano Rocha / Agência O Globo
Fabiano Rocha / Agência O Globo

A educadora Maria Inês Fini, ex-presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e uma das idealizadoras do Enem, avalia que a abstenção de mais de metade dos candidatos no primeiro dia do Enem 2020 mostra que a data escolhida para a aplicação da prova foi equivocada.

Na visão de Fini, a primeira prova realizada no último domingo (17) deveria ser cancelada e reaplicada num momento sanitário mais adequado, tendo em vista que o Brasil vive um significativo aumento de casos e mortes em decorrência da pandemia do novo coronavírus.

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“As consequências de um novo adiamento do Enem são menores do que ter um exame com apenas metade dos alunos inscritos. O problema é se comportar como se a prova nesse momento, com essa abstenção, fosse normal e pudesse continuar assim", afirma a ex-presidente do Inep ao “O Globo".

Para ela, um novo adiamento seria menos nocivo do que ter um Enem com apenas metade dos alunos participantes.

"Se tivessem um pouco de bom senso, iriam eliminar esse primeiro dia. Mas precisa de uma articulação nacional. Não do Inep, mas através do Ministério da Educação com as universidades e as escolas de ensino médio. Foi um ano difícil para todos os estudantes, faltou escolaridade para todo mundo, mas principalmente para os mais vulneráveis Mesmo com todos os riscos e custos, eu adiaria o exame. O que estamos vendo é uma situação de muita injustiça. Adiaria logo, nem aplicaria no próximo domingo para não queimar mais questões", analisa a ex-presidente do Inep.

Ela diz temer pelo futuro do Enem ao ver “todo um ambiente de insegurança” rodeando o exame. A abstenção recorde no exame gerou também desperdício de R$ 332,5 milhões aos cofres públicos.

"[Abstenção] mostra que os alunos ficaram com medo e também há um desânimo daqueles que não puderam estudar para o Enem. O que vimos foi um desperdício de dinheiro absurdo. As declarações do presidente (de que a prova tem questões “ridículas”) é que são ridículas. Como se eles não pudessem em dois anos fazer um banco de itens. Por que não fizeram?", questiona Fini ao rebater falas recentes do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Para ela, é preciso que uma autoridade da área da educação aparece para defender o exame de eventos críticas do presidente, até para garantir o futuro do exame.

“Temo muito pelo que pode acontecer. O Bolsonaro, mais uma vez, assoprado pelo Olavo de Carvalho e pelos filhos, se atreve a meter o pau numa questão que não tem nada a ver com a interpretação que ele deu. Cadê o presidente do Enem para explicar? Quando ele brigou que eu queria ensinar sexualidade aos jovens (em 2018, Bolsonaro, já presidente eleito, criticou uma questão do Enem daquele ano), fui dar entrevista para defender o exame. Quem vai defender o Enem agora? Ficam nessa história de que o presidente do Inep (Alexandre Lopes) é um bom gestor, mas não entende nada”, lamentou a educadora ao “O Globo".