Ex-boia fria estreia como musa no Carnaval de São Paulo: “Plantava para comer”

Por Felipe Abílio (go_abilio

Se há cinco anos alguém falasse para Michele Neres que ela seria musa no carnaval de São Paulo em 2020, provavelmente ela daria risada. Ex-boia fria, a estudante se prepara para seu primeiro desfile defendendo a bandeira da Colorado do Brás no dia 22 de fevereiro no Anhembi. Empolgada, ela relembrou em entrevista ao Yahoo o início da carreira de modelo.

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Ex-boia fria estreia na avenida. Foto: Iwi Onodera/ Yahoo!
Ex-boia fria estreia na avenida. Foto: Iwi Onodera/ Yahoo!

“Tudo começou depois que ganhei o concurso Musa do Brasil Revelação em 2018. No ano passado, o pessoal da Colorado entrou em contato comigo, fizeram a proposta e fiquei apaixonada logo de cara. Nunca tinha participado de algo parecido, é surreal, só quem está lá dentro pode falar a energia que sente”, disse ansiosa. 

Aos 25, Michele vive em uma casa confortável em Foz do Iguaçu e planeja começar faculdade de medicina no ano que vem, mas isso pouco lembra a vida simples que viveu em toda a sua adolescência em uma casinha na área rural de Pacajá, no Pará. Ela morava em uma casinha de pau a pique, cozinhava em fogão a lenha e não tinha acesso nem a luz elétrica.

Ex-boia fria estreia na avenida. Foto: Iwi Onodera/ Yahoo!

“Se chovia não tinha como sair e nem voltar porque não tem infraestrutura de nada, é como se vivesse na época dos índios. Plantava para comer, lava a roupa no rio. Nasci na cidade, mas minha mãe tinha um terreno na região, decidiram se aventurar e me levaram para roça. Então imagina, pegar uma criança que estava acostumada com a vida na cidade, com energia elétrica e levar ela para o interior. Foi triste, mas sobrevivi”, relembra.

Uma das questões que causavam mais angústia na vida simples que Michele vivia era a falta de luz elétrica. Ela conta que passou anos sentindo falta de coisas pequenas como um copo de água fresco.

“Sentia falta de beber água gelada, um pão quente, açúcar, quando acabava o açúcar a gente tinha que fabricar pela cana ou não tinha. Plantava abacaxi, feijão, arroz, milho, mandioca, fazia tudo. Comia muita carne de caça também. Tudo de caça que você imagina eu já comi. Eu era boia fria mesmo, mas foi uma fase da minha vida que acho que precisei passar para ter os pés no chão hoje.”

Morando na cidade grande há cinco anos, desde que se mudou para Goiânia para cursar fisioterapia, Michele lembra que a adaptação reversa também foi intensa. Ela demorou algumas semanas para se acostumar com coisas simples da modernidade. 

“Não conseguia dormir na cama, era acostumada só a dormir em rede, me sentia mal dormindo na cama, era muito diferente no início. A comida também foi um problema, na roça é tudo mais natural, quando chega na cidade e vai comer um gasto food faz mal porque tem muita gordura, muito açúcar.”

Ex-boia fria estreia na avenida. Foto: Iwi Onodera/ Yahoo!

A modelo parou a faculdade de fisioterapia porque almeja um sonho maior, ela quer se formar em medicina. “Devo começar medicina no começo do ano que vem. Quero me formar e trabalhar na Amazônia, levar mais qualidade de vida e saúde para as pessoas ribeirinhas que não tem acesso a isso.”

Na passarela

Ansiosa para viver sua primeira experiência na avenida, Michele tem encarado horas de aula de samba e preparação para fazer bonito na avenida. 

“Meu grande sonho é me tornar madrinha de bateria. Esse é o meu primeiro ano e estou aprendendo a sambar. Claro, acho que o brasileiro já nasce com samba no pé, esse ritmo, mas o tempo livre que tenho estou me dedicando, faço aula, assisto YouTube.”

Ex-boia fria estreia na avenida. Foto: Iwi Onodera/ Yahoo!

Para representar bem a Colorado do Brás, a modelo também tem caprichado na dieta e nos exercícios físicos já que deve surgir quase como veio ao mundo no desfile.

“Minha fantasia cabe numa caixinha de joias, é só um tapa sexo. Em cima venho com pintura corporal, se chover vou pagar peitinho. Minha família fica meio assustada às vezes, mas entendem e me apoiam. Minha mãe tem até Instagram para me ver, não entende nada, mas me acompanha em tudo.”

E ela também está esperta com a rivalidade que rola entra as musas nas agremiações. Tanto é que ela fez questão de mandar um recado para quem não gostar da presença dela este ano. “Não estou acostumada com as tretas, fico bem esperta porque as meninas são cobras, essa é a palavra. Não tenho medo de falar porque é a realidade. Não cheguem muito perto porque estou de olho meninas”, pontuou.

Agradecimentos

Figurino: Kell Mendes

Locação: Parque Villa Lobos e Horta Comunitária Corujas

Fotos: Iwi Onodera