Euphoria: série é uma verdade que precisamos escutar

Natália Bridi
·3 minuto de leitura
'Euphoria' é abordagem sensível a temas complexos (Foto: Divulgação)
'Euphoria' é abordagem sensível a temas complexos (Foto: Divulgação)

'Euphoria, série da HBO escrita e dirigida por Sam Levinson, é um sucesso de crítica e público. Foram três Emmys em 2020 — consagrando Zendaya como a mais jovem atriz a vencer na categoria drama — e uma legião de fãs que saiu reproduzindo as maquiagens ultracoloridas. Além da qualidade e da conexão com o público, a série carrega outro elemento que a torna única: a sinceridade crua sobre drogas, sexualidade, gênero e saúde mental responde diretamente aos anseios de adolescentes e adultos (jovens e nem tão jovens assim).

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Na primeira temporada, a abordagem criativa e sem amarras lembra muito 'Trainspotting' (1996). 'Euphoria' é uma atualização sensível e inserida no contexto americano, mais brilhosa do que escatológica, mas tão dolorida quanto o filme de Danny Boyle. Os jovens estão no centro da trama, mas não são inquestionáveis. O comportamento destrutivo não é apresentado como mero ato de rebeldia. Sem saber ainda quem são, os adolescentes respondem como podem — e suas atitudes são consequências dessas respostas desesperadas.

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A postura diferente da série fica evidente nos dois episódios especiais que antecedem a segunda temporada. O primeiro, “Trouble Don't Last Always”, é centrado em Rue (Zendaya), que após uma recaída conversa com Ali (Colman Domingo), seu ponto de apoio nos Narcóticos Anônimos, em um típico diner americano na noite de Natal. “Você precisa acreditar na poesia”, afirma Ali sobre a necessidade de crer em algo que vá além da própria existência. Ele fala sobre fé e tenta se aprofundar na visão que Rue tem de si mesma. Ela o acusa de ser cafona e ele questiona: “só por que não é descolado o suficiente você aceita ser superficial?”. A postura do “dane-se” é a armadura de quem não quer encarar a própria sensibilidade. É mais fácil, continua Ali, acreditar que todo erro é definitivo.

No segundo episódio especial, “Fuck Anyone Who's Not a Sea Blob”, Jules (Hunter Schafer) começa a sessão de terapia resistindo: “não quero falar sobre isso agora”. Ao longo da conversa com a Dra. Mandy Nichols (Lauren Weedman), ela descreve seus sentimentos positivos mais verdadeiros como “bregas”. Problemas e felicidade assumem o mesmo peso enquanto ela se analisa e cobra uma versão perfeita de si mesma. Ao contrário de Rue, Jules acredita na “poesia”, mas também a usa para evitar o lado prático das suas questões. “Acho que a vida real é uma grande decepção. É mais fácil conversar com as pessoas pela internet. Você pode ser mais aberta, mais honesta e vulnerável. Alguns dos meus relacionamentos mais profundos foram com pessoas que não conheci”, explica, para logo depois entender a sua atração por uma decepção imaginária enquanto resistia ao amor real, mas falho de Rue.

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Os dois especiais são longas lições de moral, porém sem o julgamento que costuma vir com esse tipo de discurso. Na conversa com Jules, a terapeuta, apenas questiona: “Por quê?”, uma sentença que precisa acompanhar atitudes e decisões para que se saia do piloto automático. No episódio de Rue, Sam Levinson escreve nos diálogos entre a adolescente e Ali as verdades que ele mesmo enfrentou ao lidar com seu vício em drogas: o desencanto ao entregar seu destino para as drogas e a descoberta de que acreditar na possibilidade de mudança é a única saída para encontrar algum tipo de poesia na vida: “como você quer ser lembrado?”

Em uma “realidade virtual” que prioriza conflitos a conversas, em que muito se grita e pouco se escuta (ou só se escuta o que se quer), 'Euphoria' acaba fazendo o papel de adulto responsável. Nas entrelinhas, pede por relações menos cínicas, preocupadas com o próprio bem-estar, mas cientes de que cada atitude individual tem um efeito coletivo. É uma série que sabe como dizer a verdade, tenha você 16 ou bem mais de 30 anos.

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