Eunice Arruda tem sua arqueologia poética desvendada em livro

BRUNO MOLINERO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em um tempo em que ainda era saudável sair à rua e considerado sinal de afeto encontrar outras pessoas, a poeta Eunice Arruda costumava passear pelo bairro da Vila Madalena, em São Paulo, com o filho André. Nesse caminho, sempre que via um clipe perdido pelo chão, ela se abaixava, guardava a pecinha de metal e levava o objeto para casa.

Era nesse trajeto também que encontrava amigos, conhecidos do bairro, colegas do filho e outros escritores -caso do vizinho Marcelino Freire, por exemplo. "Ela sempre teve contato com gerações mais novas", diz André, também poeta e compositor, que adotou o nome artístico de arrudA. "Mas não sei para o que ela usava aqueles clipes."

De certa forma, Eunice escrevia como se passeasse. Só que, em vez de guardar pequenos materiais de escritório, os versos da autora recolhem lembranças, passados, angústias, pessoas. Tudo à mostra agora no livro "Visível ao Destino", antologia com quase 700 páginas que reúne a poesia completa da autora, morta em 2017, aos 77 anos.

Organizada cronologicamente, na sequência em que seus livros foram publicados e com 34 poemas inéditos, a obra serve como guia pelos passeios literários da escritora. O início é com "É Tempo de Noite", de 1960, lançado quando Eunice tinha 21 anos e estreava com versos densos --muitas vezes até angustiantes se lidos no isolamento provocado pelo novo coronavírus.

Caso do poema "Síncope": "Olha/ volta/ Um instante/ só/ Um pouco/ só/ Olha/ e/ responda/ se/ alguma/ vez/ já/ te/ sentiste/ Também/ tão/ só".

O percurso percorrido pela antologia, que vai de "É Tempo de Noite" a "Tempo Comum", livro de 2015 e último lançado pela autora em vida, mostra que a obra de Eunice é mais larga do que os versos curtos e os haicais pelos quais ficou conhecida. "Ela também foi suavizando o tom ao longo das décadas", avalia arrudA, que fez a organização do volume. "Continuou dizendo o que precisava ser dito, mas de outra forma."

E, escavando aqui e ali, o leitor vai descobrindo coisas garimpadas por Eunice ao longo da vida e guardadas em seus poemas. Como as bonecas que tinha quando ainda era menina e vivia na cidade mineira de Santa Rita do Passa Quatro, mas que precisou enterrar no quintal de casa -elas ressurgem nos versos de "Boneca de Pano". Ou Mario Mattoso, que titula um dos poemas e foi a primeira pessoa a publicar os versos da escritora no jornal.

Ou ainda um dos personagens mais interessantes: Dom, um misterioso monge do Mosteiro São Bento para quem a poeta costumava levar seus livros e que inspira um dos textos inéditos da antologia. "A gente já tinha digitalizado todo o trabalho dela, e eu sabia mais ou menos o que estava pronto ou não", diz arrudA. "Deixei na gaveta algumas coisas que sei que ela não gostaria de ver publicadas."

Essa certeza vem de um trabalho conjunto desenvolvido entre mãe e filho desde a infância. "Ela me mostrava os poemas desde que eu tinha 13 anos, perguntava se essa palavra pertencia a este ou àquele verso", relembra.

Processo parecido ao que faziam nos passeios pela Vila Madalena, quando decidiam se iam por essa ou aquela rua -vias que hoje estão mais vazias, sem famílias que caminham, sem anônimos que perdem clipes pelas calçadas, em uma paralisia que ressignifica o poema "Na Rua": "todo /dia /quase /morro".

VISÍVEL AO DESTINO - OBRA COMPLETA E INÉDITOS

Preço R$ 80 (684 págs.)

Autor Eunice Arruda

Editora Patuá

Organização arrudA