'Fui estuprada várias vezes e achava que a culpa era minha', diz Luisa Marilac

O clima calmo e quase tedioso do estúdio em São Paulo é transformado pelo alto astral e o jeito espalhafatoso de Luisa Marilac — que ri da vida ao mesmo tempo que revisita traumas de sua trajetória. Orgulhosa, com o livro de sua história em mãos: ‘Eu, Travesti’, obra de 194 páginas, escrita pela jornalista Nana Queiroz, vai muito além dos bons drinques que deixaram Luisa famosa na internet, em 2009.

Chegar aos 41 anos como transexual pode ser interpretado como um milagre no país onde mais se mata a população trans no mundo. Cerca de 40% dos 2.600 assassinatos de transexuais que aconteceram no planeta, nos últimos dez anos, foram no Brasil, segundo levantamento da associação europeia TransRespect A expectativa de vida de uma pessoa trans no país é de 35 anos — menos da metade da média da população geral, que é de 75 anos.

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E Luisa sabe disso já que a morte precoce era tida como um fato. A vida sexual começou aos cinco anos involuntariamente - “Foi a primeira vez que fui violentada e por uma pessoa muito próxima. Fui estuprada várias vezes e achava que a culpa era minha, que a errada era eu” —; logo depois, vieram mais episódios de violência: “Tomei sete facadas, perdi um pulmão por perfuração, fiquei dois dias em coma e com cicatrizes profundas na alma”, recorda a ativista ao citar sua chegada a São Paulo, aos 16 anos, vinda de Além Paraíba, interior de Minas Gerais,

Se somam a esses episódios, o processo caseiro feito por uma cafetina para moldar o corpo com silicone industrial, a prisão na Europa e a prostituição.

“É impossível relembrar tanta coisa sem sentir. Para escrever o livro precisei de dois psicólogos para me ajudarem. Mas agora, parece que tirei o peso de mim, lavei minha alma e me libertei", afirma ela, que comemora o fato de estar viva. “Amo a vida porque só quem chega perto da morte entende como a vida é importante e aprende a dar valor.”