Eu tinha muito orgulho da polícia, diz mulher negra que teve pescoço pisado por PM

Alma Preta
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Nove meses depois da agressão, vítima ainda precisa de sessões de fisioterapia e atendimento psicológico para superar os danos à saúde física e mental, além de enfrentar dificuldades financeiras por ter sido obrigada a fechar o bar (Foto: Reprodução)
Nove meses depois da agressão, vítima ainda precisa de sessões de fisioterapia e atendimento psicológico para superar os danos à saúde física e mental, além de enfrentar dificuldades financeiras por ter sido obrigada a fechar o bar (Foto: Reprodução)

Texto: Juca Guimarães Edição: Nataly Simões

Márcia (nome fictício), de 52 anos, tem muita cisma da Polícia Militar do Estado de São Paulo e não consegue viver normalmente como outras pessoas. No fim de maio de 2020, a trabalhadora desmaiou após ser arrastada e ter o pescoço pisado por um PM em frente ao bar do qual era proprietária em Parelheiros, periferia da Zona Sul da capital.

“O Estado não me ajudou em nada quando fui montar o meu negócio, não me apoiou. Eu me estabilizei sozinha”, lembra a comerciante em entrevista exclusiva para a Alma Preta nove meses depois das agressões. Ela teve que fechar o bar, pois não conseguiu mais pagar o aluguel do imóvel.

Segunda a vítima, a vida dela mudou radicalmente após o ocorrido. “Não consigo fazer mais nada. A minha vida nunca mais será normal. O psicológico fica abalado. As pessoas me apontam como a mulher que a polícia agrediu. Eu não consigo arrumar emprego porque as pessoas ficam com medo de represálias”, conta.

Márcia começou a trabalhar muito cedo, ainda durante o período dos estudos. Ela foi gerente de boutique, costureira, cuidadora de idosos, atendente em Casa do Norte, vendedora, doméstica e também entregou panfletos na rua. Durante nove anos foi dona de um bar no bairro onde mora há 26 anos, em uma casa simples com o filho mais velho e a nora.

Danos à saúde física e mental

Nove meses após a agressão do PM, a trabalhadora aguarda surgir uma vaga para continuar as sessões de fisioterapia pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Ela já fez dez sessões e conta que precisa de pelo menos mais outras dez. Márcia também busca atendimento psicológico, mas ainda não encontrou vaga.

“Eu tinha muito orgulho da polícia, gostava de vê-los trabalhando de uniforme na rua. Hoje eu fico cismada. Tem diferença entre o modo como os policiais ruins tratam os negros. Eles acham que os negros são bandidos e vagabundos. Esses PMs já saem de casa com o espírito da maldade”, descreve.

A comerciante foi agredida e teve a perna fraturada pelo PM com um chute. Ela conta que foi pega pelo cabelo, jogada na frente do carro e apanhou. “Quanto mais eu me debatia, mais eu apanhava”, recorda.

Segundo Márcia, não houve motivo nenhum para as agressões. “Era uma hora da tarde, no sábado, o som nem estava tão alto e o carro estava na rua. O bar estava fechado porque a gente só funcionava à noite. Os policiais chegaram e começaram a bater em um rapaz e no meu afilhado. Eles batiam tanto que eu pensei que iam matar eles na porrada. Eu e o meu cachorro saímos do bar para tentar ajudar”, relata.

"Jamais iria machucar eles. Eu peguei o rodo, bati três vezes com a parte da borracha no ombro dele, mas para tentar separar. O meu afilhado já estava com a boca toda cheia de sangue. Corri para dentro do bar, larguei o rodo, voltei para a rua e ele largou o meu amigo e veio na minha direção para me agredir. A vizinhança viu e fez as gravações”, afirma.

Márcia ficou presa e não acompanhou a elaboração do Boletim de Ocorrência feito pela delegada Izabela Pereira Bahia, no 101º DP, no Jardim das Imbuias, com base no depoimento apenas dos policiais. “Depois do hospital, eu fui para a delegacia, mas não ouviram”, lembra.

De acordo com a delegada, os dois homens agredidos e a comerciante foram acusados de lesão corporal por agressão aos PMs, resistência e desobediência à ordem legal e desacato, pois também xingaram os policiais.

"Tive medo de morrer"

“Ele quase me matou. Se não fosse a população gritando, ele tinha me matado. O fato dele ter pisado no meu pescoço depois me arrastar para a outra calçada e pisar de novo nas minhas costelas é porque a intenção dele era me matar mesmo. Tive medo de morrer, mas não tive chance de pedir para ele parar porque não estava consciente mais”, desabafa a comerciante.

A mãe de Márcia morreu quando ela tinha cinco anos. A menina foi criada pela madrasta junto com o irmão. Sempre teve que batalhar muito para conseguir qualquer progresso na vida. No celular dela, a frase em destaque junto com o nome é “Lute e nunca desista”.

“Essa frase significa muito para mim. A pessoa quando luta pode andar de cabeça erguida, sabendo que tudo o que tem é graças ao seu esforço”, compartilha.

Atualmente, a renda da família da ex-proprietária do bar está bastante comprometida, pois é composta apenas pelo salário do filho. Márcia recebe ajuda de vizinhos e amigos para se manter enquanto aguarda por Justiça. O caso está em tramitação na Justiça e há também um inquérito militar que investiga a conduta dos PMs. Nenhum dos dois processos têm previsão de conclusão.