'Eu só queria ganhar um abraço', pede idoso isolado por conta do coronavírus no dia do seu aniversário

Everton Menezes/Yahoo Notícias

Por Everton Menezes

Era para ser um dia de festa, mas o seu Marcio Espinosa sabia que este aniversário seria diferente dos outros. Sem bolo, refrigerante e amigos em volta. Foi um dia como outro qualquer. “Não recebi abraços nem um aperto de mão. Foi tudo à distância”, disse o comerciante, que celebrou, sozinho, os 73 anos de vida. A quarta-feira (25) passou despercebida. No lugar dos convidados, os clientes que ele conquistou, há mais de 50 anos, com a loja de chaves, instalada na rua Lopes de Oliveira, na Barra Funda, zona oeste de São Paulo. “Esse lugar é o meu maior presente. Daqui eu tiro o meu sustento e faço novos amigos”, contou. Ao longo do dia, atendeu poucos clientes e recebeu algumas felicitações, mas não ouviu o ‘Parabéns pra você’.  

Em tempos do novo coronavírus no Brasil, seu Espinosa sabe que corre os riscos de ser contaminado pelo Covid-19. Faz parte do grupo mais vulnerável. Não bastasse ser idoso, sofre com problemas cardíacos – e ainda tem que conviver com um marcapasso. Desde que foi submetido à cirurgia, adquiriu uma tosse crônica, que o deixou mais exposto a outras doenças. Mas nada disso impediu esse paulista, nascido na zona rural de Chavantes, interior de São Paulo, de ficar em casa. “Eu não tenho medo de pegar isso não. Já passei por muita coisa nessa vida. Eu sei que não é a minha hora. Eu sou duro na queda”, afirmou ele contrariando todos os pedidos das autoridades sanitárias. Tento dar um puxão de orelha: “o senhor é teimoso! Vá para a casa ficar com a família, com os filhos e netos. Vá celebrar seu aniversário”, insisto.

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É numa kitnet de 25 metros quadrados, no bairro de Santa Cecília, que o chaveiro mora.  A região é famosa pelo agito social. Tem bares, botecos e restaurantes. A maioria estava fechada por causa da quarentena imposta pelo Governo de São Paulo para conter o avanço do novo coronavírus. Poucas pessoas circulavam pelas ruas. Mas seu Espinoza seguiu a rotina. Acordou, tomou um banho e foi trabalhar. Chegou à loja, pontualmente, às 7h. Preparou o café e ficou atrás do balcão à espera da clientela que, segundo ele, diminuiu 90 por cento nesses dias iniciais da pandemia no Brasil. “Eu vivo da minha aposentadoria, que não é muita coisa. E, por isso, preciso trabalhar. Sempre vai aparecer alguém que vai precisar de um chaveiro. Eu tenho que estar aqui. Faça chuva ou faça sol. Se eu ficar em casa, adoeço. Eu não aguento”, disse Espinoza, que foi casado apenas uma única vez e está viúvo há 46 anos.  

A entrevista é interrompida. Ele bebe água para aliviar a tosse e higieniza as mãos, com álcool em gel. Toma todos os cuidados necessários nesse período. Aliás, é ele quem cuida de tudo. Limpa as chaves, as ferramentas e o balcão – espaço preferido para uma boa conversa com os clientes. Uma conversa que pode durar horas só com histórias da vida deste ariano, filho de pai espanhol e mãe portuguesa. 

As lembranças da infância não são as melhores. O pai era alcoólatra e a mãe submissa ao machismo da época. Aos 14 anos, Marcio foi abandonado. Até hoje, ele não sabe como e o por quê. É como se esse período tivesse sido arrancado da sua cabeça. Não lembra de nada. Uma época difícil para um menino, que começou a morar nas ruas de São Paulo. Pediu esmola, passou frio e fome. Tempos que seu Espinosa prefere apagar da memória. Certa vez, numa das caminhadas pela cidade, o garoto se deparou com um comerciante, que lhe estendeu a mão. Deu comida, afeto e trabalho. Armando Rampinelli era chaveiro na praça Marechal Deodoro, na região central da capital paulista, e ensinou todas as técnicas ao novo funcionário. “Eu aprendi rápido. Ele foi muito bom pra mim. Consegui emprego, ganhei meu primeiro salário e pude pagar um quarto numa pensão no bairro”, lembra Espinosa.  O garoto cresceu e teve que lidar com as obrigações da vida adulta. Já era um chaveiro profissional. Abriu o primeiro negócio, conquistou clientes e ganhou dinheiro com a venda de chaves. 

Anos depois, Espinosa reencontrou o único irmão. Descobriu que os pais haviam falecido. Não teve a oportunidade de se despedir nem, ao menos, descobrir o motivo de ter sido abandonado. Uma pergunta que ficará sem respostas. “Não sinto mágoa deles. Eu sou um homem de coração bom. Acredito em Deus e sei que nada é por acaso”, disse com uma voz mais suave. Para quem teve de conviver com a solidão desde cedo, Espinosa parece tirar de letra as dificuldades de quem vive sozinho. “Não tenho medo da solidão. Eu cuido de mim mesmo. E sou feliz desse jeito. Quando quero sair, pego minha vara e vou pescar com alguns amigos. Simples assim”, conta ele sem drama. Ultimamente, seu único dilema é com a balança. Com cerca de 110 quilos, Espinosa tenta emagrecer a todo custo. Faz uma dieta por conta própria e caminha pelas ruas do bairro – mais uma vez, indo na contramão das orientações de combate ao coronavírus. 

O expediente na loja já está quase a terminar quando um motoboy se aproxima à procura de Marcio Espinosa para entregar uma encomenda. O olhar é de espanto. O aniversariante, então, recebe uma caixa e abre curioso o presente: um jarro de flores e uma carta. Pergunto de quem era? Sorridente, ele responde: “uma longa história. A menina Bianca é como se fosse a minha filha. Temos um carinho muito grande um pelo outro. Que lindo presente”, diz emocionado. 

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O encontro de Bianca com Espinosa ocorreu há 25 anos, quando a menina ainda era bebê. O comerciante estava no balcão quando uma cliente apareceu com duas crianças de colo. A mulher queria fazer uma cópia de uma chave, mas a conversa foi tão boa que saiu de lá amiga do proprietário. “Era como se fôssemos da mesma família. Elas cuidavam de mim e eu cuidava delas. As meninas eram como filhas, em especial, a Bianca que se apegou a mim. Às vezes, até me chamava de pai”, relembra. Com o passar dos anos, a mãe das crianças decidiu voltar para Araci, no interior da Bahia, e nunca mais voltou. O contato passou a ser por telefone ou por cartas. Essa última, lhe trouxe uma boa notícia. 

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Seu Espinosa vai ser avô. Um presente que ele jamais imaginaria receber a esta altura da vida. Ele fecha a loja, volta para a kitnet, a 100 metros do estabelecimento, e liga a TV. Estar sozinho em casa já não importava mais. Era como se todos estivessem ali, ao seu lado, comemorando o grande dia. “Eu só queria ganhar um abraço, mas acho que vai ficar para depois, quando toda essa loucura do coronavírus passar”, deseja ele.