Aluna escreve artigo dizendo que meninos brancos não deveriam ter permissão para falar

Vida e Estilo International
Um artigo publicado no jornal de uma faculdade intitulado “Should White Boys Still Be Allowed to Talk?” (“Meninos Brancos Ainda Devem ter Permissão para Falar?”, em tradução livre) causou polêmica nos Estados Unidos. (Foto: Dickinson College via Facebook)
Um artigo publicado no jornal de uma faculdade intitulado “Should White Boys Still Be Allowed to Talk?” (“Meninos Brancos Ainda Devem ter Permissão para Falar?”, em tradução livre) causou polêmica nos Estados Unidos. (Foto: Dickinson College via Facebook)

Por Elise Solé

A estudante universitária que foi considerada racista ao perguntar se “Meninos brancos ainda devem ter permissão para falar?” em um artigo de opinião publicado no jornal da sua faculdade quer esclarecer o ocorrido, e disse ao Yahoo Lifestyle que “não odeia pessoas brancas”.

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Leda Fisher, aluna do quarto ano da Dickinson College em Carlisle, Pensilvânia, publicou o artigo na quinta-feira passada no Dickinsonian, jornal gerenciado pelo alunos, criticando estudantes brancos do sexo masculino por ocuparem espaço em áreas desassistidas, apenas para validar opiniões de mentes estreitas.

“Quando você faz uma pergunta em uma palestra, secretamente está apenas emitindo a sua opinião com a frase ‘Você concorda?’ Se sim, seu nome é algo como Jake, ou Chad, ou Alex, e você aprendeu que a sua voz é a mais importante de qualquer ambiente,” escreveu Leda em seu artigo. “Em algum ponto da sua jornada acadêmica, você decidiu que a sua busca por validação intelectual era mais importante do que a troca de informações. Agora, como você espera aprender alguma coisa?”

“A sociedade norte-americana diz aos homens, e especialmente aos homens brancos, que suas opiniões têm mérito e que suas vozes são valiosas, mas depois de quatro anos ouvindo meninos brancos na faculdade, não estou convencida disso,” escreveu ela. “Durante meu tempo em Dickinson, ouvi centenas de meninos brancos falarem. É algo incessante. Das aulas e palestras às notícias e à política, há uma fila interminável de meninos brancos esperando para compartilhar suas opiniões sobre o feminismo nos Estados Unidos, se a população LGBTQ+ finalmente tem direitos suficientes, os méritos do capitalismo, etc. A lista dos assuntos que os meninos brancos acreditam ser qualificados para falar é infinita. Algo que pouquíssimos deles parecem entender é que suas opiniões (mal informadas e acríticas) não constituem a verdade. Aliás, a maior parte das suas opiniões não é nem original. Meninos brancos perpetuam a narrativa de ideologias dominantes e fingem que suas palavras são inovadoras, mas no fundo são o mesmo lixo enfiado em nossas goelas por instituições americanas desde o nosso nascimento”.

Leda diz que fica irritada, sentada na sala de aula ouvindo “um menino branco explicando a sua opinião sobre a experiência dos negros na era de Barack Obama. Oi Brian, eu sou, na verdade, uma mulher negra aqui, bem viva, com um cérebro. Em que mundo o seu entendimento da minha própria vida pode ter mais peso do que o meu?”

Ela alega que pessoas marginalizadas servem apenas para entreter homens brancos, que “falam com o peso de todos os outros homens brancos que falaram no lugar de uma mulher, apagaram as contribuições de pessoas homossexuais da história, e classificaram o ‘broken English’ como pouco inteligente”.

Respondendo à pergunta principal que intitulou o artigo, Leda respondeu: “Em homenagem ao Mês da História Negra, vou responder que não, de jeito nenhum. Encontrem alguém cuja perspectiva tenha sido enterrada ou ignorada e ouça o que esta pessoa tem a dizer, dê visibilidade à sua voz. Para todos os Chrises, Ryans, Olivers, e Seans, eu quero incentivá-los a analisar criticamente de onde vêm os seus pontos de vista, a ler um texto que os desafie, sem buscar razões para descartá-lo, e talvez tentar ouvir melhor de agora em diante”.

O artigo de Leda, que foi publicado online, recebeu mais de 350 comentários com críticas. “O artigo é mal planejado, cheio de suposições tratadas como fatos (claramente a autora não teve aulas de lógica), e baseado em estereótipos,” comentou uma pessoa. “Você diz que a maioria das opiniões dos meninos brancos não é original. As suas também não. Pessoas ignorantes sempre as compartilharam”. Uma pessoa chamada Ginger Jacoby lançou um abaixo-assinado chamado “Expulsar Leda Fisher da Dickinson College,” que já conta com mais de 500 assinaturas.

Leda disse ao Yahoo Lifestyle que seu artigo levantou questões que afetam estudantes negros. “Quanto ao ódio que foi enviado na minha direção, ele não é nada, perto do apoio que recebi,” disse ela. Sobre as alegações de que ela é racista, Leda disse: “Eu vou compartilhar a definição amplamente aceita usada em departamentos acadêmicos e espaços de ativismo. O racismo é composto por preconceito racial interpessoal e viés institucional contra minorias raciais. Eu não odeio pessoas brancas, e nenhuma instituição construiu um sistema voltado para reprimir ou marginalizar os homens brancos, então eu não sou racista”.

O Yahoo Lifestyle não conseguiu falar com a equipe editorial do Dickinsonian. As coeditoras Rachael Franchini e Jules Struck disseram ao site de notícias conservadoras e políticas Western Journal: “A página editorial é um lugar para que os estudantes expressem suas visões pessoais sobre questões que os afetam. A nossa política editorial é garantir que os artigos não sejam baseados em informações factualmente incorretas, não incentivem a violência, e sejam relevantes para a comunidade da Dickinson. Este artigo reflete a experiência pessoal da autora. O Dickinsonian não discorda nem concorda com ela, ou com qualquer outro dos nossos colunistas editoriais”.

A presidente da faculdade, Margee M. Ensign, não respondeu à solicitação do Yahoo Lifestyle para comentar o caso. Pelo que soubemos, ela escreveu um e-mail para os alunos, publicado pelo site de notícias conservadoras Daily Wire que dizia: “Muitos de você comentaram comigo sobre um artigo de opinião publicado no The Dickinsonian. Primeiramente, gostaria de lembrar que o The Dickinsonian é um jornal gerenciado pelos alunos, que têm o controle editorial sobre o seu conteúdo. Ele expressa a opinião de seus redatores, e não reflete a opinião da faculdade”.

“Serei clara,” escreveu Margee no e-mail. “A Dickinson acredita na liberdade de expressão. Nós também condenamos os estereótipos e o preconceito. A Dickinson valoriza a inclusão. Esperamos que os membros da nossa comunidade promovam diálogos conscientes e acreditamos que nenhum grupo ou indivíduo deve ser silenciado. Uma política fundamental da faculdade é respeitar o pluralismo e promover a civilidade e o entendimento mútuo”.