‘Eu não posso parar de viver’, afirma jovem cega por bala de borracha da PM

Por Paulo Eduardo Dias e Pedro Ribeiro Nogueira

“Eu queria ser policial quando crescer. Não quero ser nunca mais. A viatura machucou o olho da minha irmã. Agora quero ser veterinária”. A fala é de Alice, uma menina de seis anos, que ainda não sabe pronunciar a palavra “policial” corretamente, mas já tem em sua memória uma violência provocada pela Polícia Militar que atingiu sua família. Alice é irmã de Gabriella Talhaferro, 16 anos, que perdeu a visão do olho esquerdo, após ser atingida por um tiro de bala de borracha durante a dispersão a um baile funk na madrugada de 10 de novembro, em Guaianases, extremo leste de São Paulo.

O tiro de bala de borracha disparado à queima roupa pelo cabo Jefferson Silva de Rossi, que foi reconhecido pela jovem como o autor do disparo, segundo apuração da Ponte, além de deixar uma sequela para o resto da vida da adolescente de cabelos negros e lisos, também alterou a rotina psicológica de toda a família.

No vídeo produzido pela Ponte, Gabriella narra toda a história do dia do fato, aborda seu início de depressão, que a fez abandonar por um tempo o espelho, além dos dias seguintes, como o reconhecimento dos PMs na Corregedoria, local que, através de fotos, também reconheceu o tenente Evandro Reche Nogueira, como o policial que a negou socorro e ainda debochou de sua situação enquanto sangrava.

“Eu não posso parar de viver. Não interessa onde eu estava, isso não pode acontecer. O problema não é o funk é o lugar. Eu já fui a lugares fechados com funk e a polícia nunca invadiu lá”, disse Gabriella.

Com o passar da depressão a adolescente conta que quer estudar, trabalhar e viajar. “No começo, eu disse que não iria [a um novo baile funk], mas eu iria sim. O que aconteceu comigo não foi dentro de um baile funk”, declarou.

“Hoje em dia quando estão fardados eles acham que são reis, impunes diante da Justiça. Se as pessoas que foram escolhidas para nos liderar apoiam o que eles estão fazendo, como eles vão parar. Para mim, sair da cama todos dias têm sido uma luta”, completou a mãe da jovem, a manicure Kelly Talhaferro, 33.

“A minha luta hoje é por justiça. A gente está numa sociedade doente, onde as pessoas colocam a vítima como culpado. O único responsável e culpado pelo que aconteceu com minha filha foram os policiais”, disse Kelly.

Passados mais de um mês do caso, as investigações seguem no 44º DP (Guaianases), na esfera da Polícia Civil, que pode resultar numa condenação, e pela Corregedoria da Polícia Militar, que tem poder para possível demissão ou expulsão. Em nota, a SSP também informou que “os dados [da investigação] seguem o sigilo imposto pelo artigo 16 do Código de Processo Penal Militar”.

A reportagem da Ponte pediu entrevistas com os dois agentes via assessoria de imprensa da SSP (Secretaria da Segurança Pública) e da Polícia Militar, no entanto, não obteve respostas. O tenente Reche também foi procurado por suas redes sociais, mas não se pronunciou.

Sobre o reconhecimento dos PMs ter sido realizado através de fotos e não pessoalmente como determina o CPP (Código de Processo Penal), o advogado criminalista e mestre em Direito Penal pela PUC-SP André Lozano Andrade afirmou não ver desrespeito à norma. “O ideal é reconhecimento pessoal. Mas é possível o reconhecimento fotográfico. O que se faz, em geral, é o reconhecimento fotográfico e posteriormente o pessoal”.

Quem também possui entendimento semelhante ao de Lozano Andrade é o ouvidor das polícias de São Paulo, Benedito Mariano. “Se a foto do PM é recente vale como prova. Para ser presencial é importante que a vítima esteja em outra sala para não ter contato com os policiais”. Mariano ainda crê que o reconhecimento presencial será feito posteriormente.

“O correto seria a PM ter apresentado apenas fotos dos PMs que participaram da operação. Não tem explicação apresentar fotos de pessoas aleatórias”, critica.