"Eu me senti um fracasso": mulher que perdeu seis bebês agora ajuda outras pessoas a superar traumas

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Claudia Matthews (foto) e o marido Benjamin tem dois filhos, mas perderam outros seis durante a gravidez. Claudia trabalha para aumentar a conscientização sobre a perda de bebês e apoiar outras famílias que já passaram por isso. (Reprodução)
Claudia Matthews (foto) e o marido Benjamin tem dois filhos, mas perderam outros seis durante a gravidez. Claudia trabalha para aumentar a conscientização sobre a perda de bebês e apoiar outras famílias que já passaram por isso. (Reprodução)

Em 2013, alguns meses depois de casar, Claudia Matthews e o marido Benjamin ficaram surpresos ao descobrir que estavam esperando gêmeos.

"Ficamos com medo porque aconteceu muito rápido, mas foi um presente incrível", disse a mulher de 43 anos, de Solihull. "Sempre brinquei com o Benjamin que teríamos gêmeos, pois tenho histórico na família e achava que poderia acontecer comigo também".

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"Lembro da expressão de pânico no rosto dele quando fizemos o ultrassom e a enfermeira me perguntou se tínhamos gêmeos na família, porque ela estava escutando dois batimentos cardíacos!"

"Depois que caiu a ficha, ficamos muito felizes e empolgados e, após várias ultrassonografias, decidimos contar para todo mundo quando completei 12 semanas de gestação. Era um sonho que tinha se tornado realidade".

Mas no Natal daquele ano, com 22 semanas e quatro dias de gravidez, Claudia começou a sentir cólicas fortes com frequência. Ela e Benjamin foram ao hospital local, onde ela foi examinada. Felizmente, os dois batimentos cardíacos continuavam lá, e Claudia foi medicada para aliviar a dor e ficou em observação.

"Em nenhum momento me disseram que eu estava em trabalho de parto prematuro, inclusive disseram para o Benjamin ir para casa", conta Claudia. "Só percebi que algo estava errado quando fui ao banheiro de madrugada e senti que meus bebês estavam a caminho".

Claudia Matthews (foto) e o marido Benjamin têm dois filhos, mas perderam outros seis durante a gravidez. Claudia trabalha para aumentar a conscientização sobre a perda de bebês e apoiar outras famílias que já passaram por isso. (Reprodução)
Claudia Matthews (foto) e o marido Benjamin têm dois filhos, mas perderam outros seis durante a gravidez. Claudia trabalha para aumentar a conscientização sobre a perda de bebês e apoiar outras famílias que já passaram por isso. (Reprodução)

"Fui levada às pressas para uma sala, estava completamente apavorada, sem acreditar no que estava acontecendo, apenas desejando que meus bebês ficassem por mais tempo no meu ventre. Até que Benjamin chegou, e juntos recebemos a notícia de que nossos filhos viriam ao mundo com uma chance muito pequena de sobreviver. Fiquei paralisada, como se estivesse observando a vida de outra pessoa, não a minha.

"Meus meninos lindos e perfeitos, Archie e Hugo, nasceram vivos e, por uma fração de segundo, pensei que eles sobreviveriam, pois aparentemente não havia nada de errado, eles só eram muito pequenos e frágeis. Tivemos alguns momentos muito especiais, pude beijá-los e acariciá-los, e ambos seguraram meus dedos. Sou grata por esses momentos, mas a dor que senti foi indescritível. Como eu tinha perdido meus filhos gêmeos? Fiquei sentindo que era minha culpa, que tinha sido por algo que fiz, que não tinha sido uma boa mãe".

Claudia e Benjamin puderam levar os bebês para casa e foram direto para uma agência funerária, onde mais tarde fizeram uma cerimônia de despedida. Foi um período extremamente traumático. Claudia teve que fazer uma segunda remoção da placenta sob anestesia, pois desenvolveu uma infecção. As cicatrizes emocionais eram profundas. Ela não conseguia dormir, tinha acessos histéricos e não conseguia processar o que havia acontecido.

"Onde quer que eu fosse, via bebês em todos os lugares", diz ela. "Uma vez, cheguei a correr para fora do supermercado porque fiquei cara a cara com uma mãe com gêmeos no carrinho".

"Minha vida nunca mais seria a mesma, eu nunca mais seria a mesma, mas lutei e não desanimei. Jurei continuar em memória de Archie e Hugo e de suas vidinhas curtas".

Claudia não está sozinha. A Baby Loss Awareness Week (Semana de Conscientização sobre a Perda de Bebês, em tradução livre), que começa no sábado dia 9 de outubro, ajuda a conscientizar sobre a tristeza causada por abortos espontâneos, mortes neonatais e natimortos. A estimativa é de haja um aborto espontâneo (perda de um bebê antes de 24 semanas) em cada oito gestações. Além disso, cerca de oito bebês nascem mortos por dia no Reino Unido.

É uma semana importante para mães como Claudia, que sentem a dor de perder seus filhos todos os dias. "Quando comecei a falar sobre a minha jornada, algumas pessoas não concordaram com o que eu estava fazendo, mas acho que é muito importante compartilhar histórias como a minha para que outras mães e pais se sintam menos sozinhos. É uma sensação tão grande de fracasso e culpa que qualquer coisa que eu possa fazer para amenizar esse sentimento em outras pessoas será útil".

Os dois filhos de Claudia e Benjamin - Marnie (à esquerda) e Maddox (à direita). (Reprodução)
Os dois filhos de Claudia e Benjamin - Marnie (à esquerda) e Maddox (à direita). (Reprodução)

Um ano após a perda dos filhos, Claudia engravidou novamente, mas, compreensivelmente, ficou assustada e ansiosa. Ela tentou o hipnoparto, método que envolve técnicas de auto-hipnose e relaxamento. "Esse processo me ajudou muito a controlar a ansiedade e a pensar de forma positiva", comenta ela. "Nosso garotinho Maddox chegou três semanas antes do previsto, um pacotinho perfeito cheio de amor. E já sabíamos que queríamos aumentar a família com um irmão ou uma irmã para Maddox".

Claudia engravidou novamente, mas infelizmente abortou no Dia das Mães de 2017. Pouco tempo depois, o casal descobriu que estava esperando outro bebê, mas os exames revelaram um risco aumentado de doenças genéticas e outros problemas de saúde.

"Dissemos adeus ao nosso bebê Albie com 16 semanas", conta ela. "Fui para casa e segurei Maddox, meu bebê arco-íris, com muita força. Ele merecia um irmão ou uma irmã, eu não podia desistir".

Um teste de gravidez positivo veio pouco antes do Natal, e as esperanças de Claudia e Benjamin se renovaram. Mas em 23 de dezembro ela abortou. Foi nesse momento que os dois decidiram desistir. A situação ficou ainda pior no verão de 2018, quando uma gravidez surpresa terminou em aborto espontâneo.

"Dessa vez me senti diferente, quase paralisada. Perdi seis bebês e estava completamente perdida, questionando por que isso aconteceu comigo", afirma Claudia.

Nesse momento, Claudia leu um livro chamado "Saying Goodbye", de Zoe Clark Coates, que ajudou essa mãe em luto a sentir pela primeira vez que não estava sozinha. Ela passou a se dedicar à arrecadação de fundos para instituições beneficentes que lidam com a perda de bebês, além de se especializar em hipnoparto e recuperação de traumas de parto, que descreve como sua "paixão absoluta". Para saber mais sobre o tema, acesse o site dela.

Em 2019, para completar sua felicidade, Claudia deu as boas-vindas a mais um bebê, a pequena Marnie.

"Temos muita sorte, e as crianças nos trazem muita alegria", ela diz. "Mas quero que as pessoas saibam que não estão sozinhas. Instituições beneficentes como a Twins Trust e seu Grupo de Apoio ao Luto estão disponíveis para todos, e existem pessoas como eu, que realmente entendem essa situação. Um dia, espero ser voluntária para ajudar pessoas com problemas de saúde mental".

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