'Eu era 100% Bolsonaro, depois do vídeo sou 500%': a reação de grupos bolsonaristas no WhatsApp à reunião ministerial

Juliana Gragnani - @julianagragnani - Da BBC News Brasil em Londres
Presidente formou rede de apoio no WhatsApp durante campanha presidencial; agora, restam usuários mais radicalizados apoiando o presidente no aplicativo de mensagens

Enquanto parte população brasileira ficou estarrecida ao ver a postura do presidente Jair Bolsonaro em uma reunião ministerial realizada há um mês, apoiadores mais radicais e da base mais fiel ao presidente celebravam em grupos de WhatsApp as frases ditas por ele no encontro com os ministros.

Nos dias seguintes à divulgação do vídeo da reunião, bolsonaristas produziram montagens e memes exaltando o presidente, com mensagens como: "Eu era 100% Bolsonaro, mas depois do vídeo dessa reunião, sou 500% Bolsonaro" e "Bolsonaro não foi eleito por se comportar como um lorde, ele foi eleito para meter o pé na porta mesmo e acabar com essa bagunça".

O presidente formou uma rede de apoio no WhatsApp durante campanha presidencial e, agora, restam usuários mais radicalizados apoiando o presidente nos grupos do aplicativo de mensagens (leia mais abaixo).

O vídeo da reunião entre presidente e ministros foi divulgado na sexta-feira (22/05), por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Celso de Mello. O material faz parte do inquérito aberto pelo procurador-geral da República, Augusto Aras, para investigar se Bolsonaro cometeu crime quando decidiu trocar o comando da Polícia Federal, dois dias depois da reunião.

Em quase duas horas de encontro, Bolsonaro xingou governadores, usou termos chulos e falou em armar a população com objetivos políticos, entre outras declarações de cunho autoritário. No meio político, adversários de Bolsonaro classificaram o vídeo como "absurdo" (palavra do senador Randolfe Rodrigues, da Rede) e disseram que houve "descaso pela democracia" (definição do governador de São Paulo, João Doria, do PSDB), entre outros.

'Muito orgulho'

A BBC News Brasil consultou três pesquisadores que monitoram grupos no WhatsApp para checar a reação dos apoiadores de Bolsonaro na rede.

Foram ouvidos representantes do Monitor do WhatsApp, do Departamento de Ciência da computação da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), que acompanha 643 grupos políticos com 31.808 usuários, do CoLAB, grupo de pesquisa da Universidade Federal Fluminense (UFF), que monitora 160 grupos bolsonaristas com cerca de 13 mil usuários, e um pesquisador brasileiro na Universidade da Virgínia, nos EUA, que acompanha por conta própria 75 grupos ligados a Bolsonaro.

Foi preponderante o discurso de apoio às falas de Bolsonaro na reunião, avalia Fabrício Benevenuto, professor de Ciência da Computação da UFMG que coordena o projeto de monitoramento dos grupos no WhatsApp. "Houve memes relacionados ao armamento da população, vídeos com deboche e mensagens de muito orgulho", observa.

Gravação de encontro revelou ao país uma reunião dentro do Palácio do Planalto repleto de ataques a outras autoridades, termos chulos e declarações de cunho autoritário

Para Viktor Chagas, professor da UFF e pesquisador associado do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em democracia digital que acompanha os grupos bolsonaristas, "houve uma reação efusiva".

"Usuários compartilharam conteúdos que exaltavam a fala de Bolsonaro na reunião, inclusive trechos do pronunciamento. Compartilharam imagens de apoio, muitas reproduções de imagens de tuítes de deputados conservadores que apoiam Bolsonaro e vídeos em primeira pessoa, daquele estilo bem peculiar bolsonarista, de sujeito revoltado", diz ele.

Segundo ele, considerando uma amostra de 40 grupos, o fluxo de mensagens aumentou "drasticamente" a partir da liberação do vídeo - da média de seis mensagens por hora para 22 por hora.

David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos, e pesquisador de antropologia da tecnologia que acompanha por conta própria 75 grupos bolsonaristas, diz ter visto após a divulgação dos vídeos diversas montagens colocando Bolsonaro como aquele que preza pela voz do povo, "usando a retórica que ele usou na reunião".

Para ele, no entanto, a celebração veio "mais como disfarce de alívio". "As pessoas ali estavam apreensivas sobre o que sairia desse vídeo. Bolsonaro não saiu maior depois do vídeo, as pessoas só se aliviaram", diz ele, e essa base radical não cresceu nem diminuiu.

Montagens e celebração

A BBC News Brasil analisou as imagens, vídeos, textos e áudios mais compartilhados nos grupos políticos de WhatsApp acompanhados pelo projeto da UFMG.

O programa desenvolvido para as eleições de 2018 disponibiliza para jornalistas e pesquisadores um ranking dos conteúdos mais compartilhados diariamente.

Os 643 grupos públicos monitorados por Benevenuto e sua equipe foram encontrados por meio de uma busca automática na internet por links de grupos de WhatsApp que continham palavras-chave relacionadas a política - e que hoje são em sua maioria pró-governo, diferente do que foi durante a campanha presidencial, quando havia maior diversidade.

Na sexta-feira, uma das imagens mais compartilhadas (em 26 grupos, com nomes como "Bolsonaro 2022", "Exército do Mito", "Nordeste com Bolsonaro") foi uma foto de fogos de artifício em Sidney e a frase: "Celso de Mello já elegeu Bolsonaro 2022 na Austrália".

Naquele dia, a imagem mais compartilhada foi de uma nota divulgada horas antes pelo general Augusto Heleno, dizendo que uma possível apreensão do celular de Bolsonaro "poderá ter consequências imprevisíveis para a estabilidade nacional". Foi compartilhada por 63 usuários em 50 grupos.

A primeira imagem do ranking de sábado é outra em tom de ameaça, de militares sentados em uma mesa, acima do texto: "STF, o celular do presidente está aqui. Venham buscar". A imagem foi compartilhada em ao menos 12 grupos por 17 usuários.

Outra imagem semelhante compartilhada nos grupos é do próprio Bolsonaro segurando seu celular e com uma arma guardada nas calças. "Pode vir buscar o celular, tá ok?", diz um texto colado por cima. Foi a segunda foto mais compartilhada de sexta (22).

O pedido de apreensão do celular do presidente foi feito por dois partidos da oposição ao STF e repassado para avaliação à Procuradoria-Geral da República (PGR).

A segunda foto mais compartilhada no sábado foi uma montagem com o número "2022" grande, Bolsonaro no meio, a bandeira do Brasil, um leão atrás, e a frase: "Eu quero que o povo se arme porque é a garantia que não vai ter um filho da p... impondo uma ditadura aqui. Povo armado jamais será escravizado!". Foi uma das falas de Bolsonaro na reunião - que nesta montagem aparece celebrada, não criticada.

Seguem outra imagens que celebram Bolsonaro e o que ele disse na reunião: em uma, ele aparece apontando uma arma. Abaixo da imagem, outra de suas falas: "É escancarar a questão do armamento aqui! Eu quero todo mundo armado. Povo armado jamais será escravizado!"

Em outra, a palavra "orgulho" e uma bandeira do Brasil estampam uma imagem de Bolsonaro caminhando.

Os bolsonaristas também defenderam os palavrões ditos por Bolsonaro na reunião. Uma montagem coloca pessoas nuas em uma instalação artística - ataque antigo, utilizado na época da campanha presidencial - e, acima, a mensagem: "E a esquerda está horrorizada com os palavrões…". O mesmo recado é dado em outro meme: "O presidente disse palavrão… os funk que tu ouve diz o quê?"

O vídeo que mais circulou nos grupos monitorados pela UFMG no sábado foi um de 13 segundos com um trecho de um comentário de um apresentador do programa gaúcho e com pautas de direita Atualidades Pampa. Gustavo Victorino diz, rindo: "PT, PSDB, PCdoB e PSOL entram com recurso no TSE para proibir e retirar de circulação o vídeo da reunião ministerial, alegando que é mera propaganda política".

A informação é falsa. Não se sabe se Victorino estava fazendo uma piada e o vídeo foi tirado de contexto ou se ele estava transmitindo uma informação incorreta. No WhatsApp, esse vídeo foi compartilhado em 13 grupos por 15 usuários, segundo o monitor da UFMG.

Weintraub e os 'vagabundos'

O segundo vídeo mais compartilhado sobrepõe Bolsonaro reclamando de pessoas sendo detidas por desrespeitarem o isolamento social a imagens de mulheres sendo algemadas.

E o trecho do vídeo em que a ministra Damares Alves diz que era preciso prender prefeitos e governadores, que estarreceu muitos brasileiros, foi compartilhado em 11 grupos, sem montagens ou interferências.

Por fim, a estética "fashwave", da alt-right americana, foi usada em um meme com o ministro da Educação, Abraham Weintraub. "Eu por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando pelo STF!", destaca o meme, acima de uma imagem estilizada de Weintraub com filtros coloridos.

Chagas destacou os 10 primeiros links compartilhados em uma amostra de 40 grupos que ele acompanha - e viu que a maioria era do YouTube. O vídeo mais compartilhado nos grupos que acompanha foi um de Olavo de Carvalho, de um minuto de duração. Em seguida, um vídeo com campanha para financiar manifestantes que iriam a Brasília demonstrar apoio ao presidente.

Mais radicais

O WhatsApp foi uma das redes mais importantes de Bolsonaro durante a campanha presidencial. Na época, diversas informações falsas circularam na rede. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 2018, durante a campanha, empresas compraram pacotes de disparos em massa de mensagens contra o PT no WhatsApp. Bolsonaro negou a prática.

Desde a campanha, os grupos bolsonaristas no WhatsApp diminuíram de tamanho e, as trocas de mensagens, de intensidade. Com a saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça e Segurança Pública, os grupos perderam usuários mais ligados ao ex-juiz federal e à Lava Jato e se radicalizaram, segundo análise de Nemer e Chagas.

Na época da saída de Moro, Chagas observou que houve um incremento de 15,6% no êxodo de usuários dos grupos bolsonaristas (a média semanal normal é de 166 usuários abandonando os grupos, considerando uma amostra de 40 acompanhados por Chagas). "Os grupos se tornaram mais coesos, mais homogêneos, e provavelmente mais radicais", escreveu ele, na época.

E também houve "a criação de uma outra rede espontânea em defesa do Moro", diz ele, "com uma série de grupos que foram abertos para acolher usuários que saíram da rede bolsonarista".

Com a liberação do vídeo, observa ele, não houve maior diminuição dos grupos que já haviam diminuído com a saída do Moro. "Me parece, em princípio, que quem já tinha que sair, já saiu. O joio já foi separado do trigo."

Os usuários da rede não representam necessariamente o perfil de todos os eleitores de Bolsonaro. Tampouco é possível saber quantos grupos há no WhatsApp, e se os monitorados por pesquisadores são representativos do total. Mas Chagas explica que a composição diversificada nos grupos que monitora lhe garante certo grau de representatividade.

Em sua base de 160 grupos, há diferentes matizes do espectro conservador, como grupos militaristas, conservadores religiosos, anticomunistas e grupos monarquistas, diz.

Por adicionar automaticamente grupos relacionados a política, os acompanhados pelo monitor de Benevenuto também são diversos.

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