'Eu encorajo as pessoas a roubar meus filmes', diz James Benning no Brasil

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - James​ Benning é um explorador curioso. Pela primeira vez no Brasil, um dos cineastas fundamentais do cinema experimental americano recusa os rótulos, mas não nega o interesse por tentar investigar, especialmente o coração dos Estados Unidos.

"É quase impossível definir o que são os Estados Unidos. Porque, dependendo da localização, do que se interessam e do que gostam, é tudo muito diferente", diz o diretor a este repórter. "Eu acho que nos meus filmes não existe nada de dogmático. Prefiro fazer as perguntas difíceis e deixar para o espectador responder."

Benning veio ao Rio de Janeiro para a exibição, no festival Ecrã, de seu mais novo longa, "Os Estados Unidos da América", uma espécie de reedição de outra produção dele, um curta de 1975 de mesmo nome. No primeiro, ele fez uma viagem de uma costa à outra de seu país, de Nova York a Los Angeles. Na produção deste ano, a ideia é parecida, partindo do estado de Alabama até Wyoming. Ele foi exibido no Festival de Berlim no início deste ano.

A relação entre os dois filmes é bem maior do que os nomes. "Fiquei surpreso de ver como o público ficou entusiasmado tanto tempo depois. Isso me inspirou a fazer outro filme", conta o cineasta. "E fiquei até bem surpreso de como se tornou popular. Isso se refletiu em como foi divertido não só assistir, mas também fazer."

Além disso, o momento em que ambos foram feitos também influenciou muito a forma como cada um deles foi exibido. O primeiro, envolto em meio à Guerra do Vietnã. O segundo, logo após a presidência de Donald Trump.

"Nós não tínhamos ideia de como isso acontecia. Foi um registro histórico de um tempo que influenciou muito o que os Estados Unidos se tornaram desde então", diz. "O maior problema hoje é que os brancos pobres conseguem ser manipulados muito facilmente. Trump aparece e consegue fazer o que quiser com eles", continua.

James Benning gosta de retratar seu país natal sob intensa investigação. Em "Landscape Suicide", de 1986, um de seus trabalhos mais famosos, ele examina os Estados Unidos num documentário comparando dois casos de assassinato, um cometido durante a década de 1950, outro em 1984. Em "Deseret", de 1995, ele traz a história do estado de Utah a partir de textos do jornal The New York Times.

Mais recentemente, o artista tem buscado filmagens mais individuais. Em "Readers", de 2017, por exemplo, ele grava só pessoas lendo em silêncio. Em "Telemundo", de 2019, grava a si mesmo junto à atriz espanhola Sofia Brito assistindo a programação de uma TV do país europeu.

"Acho que todas as discussões e pensamentos nos meus filmes sempre estiveram na minha cabeça, mas demorei a entender o que era filmar", ele fala. "Lentamente, fui começando a pôr para fora quem eu era e como fazer tudo melhor."

Apesar de estar sempre integrado aos assuntos do presente, Benning se vê como alguém do passado. O diretor diz que assiste a poucos filmes atualmente e que não vê uma produção de Hollywood há cerca de 40 anos, porque "querem fazer dinheiro com o prazer das explosões", define. O diretor não tem celular e é crítico a novas formas de ver filmes, como em smartphones, não numa tela de cinema.

Mesmo assim, ele se vê realizado com a proliferação de seus longas e curtas digitalmente —independentemente se de forma legal ou não.

"Eu encorajo as pessoas a roubar meus filmes. Penso que fiz para as pessoas verem", comenta, entre risadas. "Para algo que eu fiz ser considerado um sucesso, ele estará em dez ou 20 festivais pelo mundo. Mas, se estão na internet, o público vai ser muito maior. Eu vim para o Rio de Janeiro porque as pessoas conheceram meus filmes pela internet."

"Os Estados Unidos da América", de fato, não aparece no circuito tradicional de cinemas brasileiros nem nos catálogos das principais plataformas de streaming disponíveis no país.

Completando 80 anos em 2022 e com mais de quatro décadas de carreira, James Benning não pensa em parar. Aliás, cada vez está mais interessado na forma como os filmes são feitos. "Minha vida se tornou meu trabalho. Não falo isso num sentido ruim, mas feliz, por ser extremamente agradável fazer isso. Ainda tenho várias ideias."

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