"Eu amo minha mãe lésbica": discursos de luta marcam a maior Parada LGBTQ+ do mundo

Foto: Getty Images
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Por Felipe Abílio (goabilio)

Pelo menos quatro milhões de pessoas lotaram as ruas de Manhattan (NY - EUA) com as cores do arco-íris para comemorar os 50 anos de Stonewall Inn, na maior Parada LGBTQ+ do mundo, a ‘World Pride, que aconteceu no último domingo (30). Por volta do meio dia, os arredores da 5 Avenida já concentravam boa parte das pessoas esperadas para curtir a festa. Com a chegada do verão no hemisfério norte na última semana, o público apostou em looks coloridos e ousados para a festa.

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Unidos para celebrar os 50 anos do movimento que marcou o início das lutas pelo direito LGBTQ+ — influenciando ainda as marchas que conhecemos hoje e que acontecem no mundo todo —, a voz política ressoava alto entre os sons dos mais de 160 carros alegóricos que passaram pelo bar Stonewall, no Village, terminando no badalado bairro de Chelsea.

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A porto-riquenha Irmã Labiosa caprichou nas botas de pelúcia com cores da bandeira do arco-íris e na maquiagem. Mas a camiseta escolhida foi o toque especial para deixar claro o que tinha ido fazer nas comemorações. Com a frase “eu amo minha mãe lésbica”, ela marchou orgulhosa ao lado da mãe, que também se chama Irmã Labiosa.

Foto: Felipe Abílio
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“É muito importante estar aqui nesse dia lindo, sou muito orgulhosa de estar ao lado da minha mãe, apoiando-a nessa comemoração incrível que são os 50 anos de Stonewall. Não tem nada mais importante que família e eu estou aqui 100% por ela.”

A colombiana Juanita Mejia e a argentina Antonella Bernardez, que moram nos Estados Unidos, foram juntas celebrar as conquistas da comunidade, e lembraram os casos de violência que ainda acontecem em seus países de origem.

“Foi por causa dessa luta que podemos ser quem somos hoje. Nós somos da América Latina e nossos países não são tão abertos como aqui. Na Colômbia, de onde eu vim, muitas pessoas são mortas todos os anos por crimes contra a comunidade LGBTQ+ e não podem marchar dessa forma. Estar hoje aqui significa muito para nós”, disse Juanita.

Foto: Felipe Abílio
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Usando como capa a bandeira em tons de azul, rosa e branco, as cores que representam o movimento trans, Mitchel Lee disse estar emocionado por participar de um momento histórico. “Essa emoção é por poder ser quem eu sou todos os dias da minha vida”, disse, um pouco tímido.

Foto: Felipe Abílio
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A animação do público dava um tom mais colorido no discurso de igualdade que o evento levou por mais de oito horas. Comitivas como um grupo de ativistas LGBTQ+ do Irã, onde é crime ser homossexual, e um grupo de policiais de Toronto, no Canadá, desfilaram orgulhosos com suas bandeiras. Já passavam das 20 horas quando os primeiros carros seguiram para a dispersão no Chelsea, deixando para trás uma multidão orgulhosa e feliz pelo dia de comemoração.

Para finalizar a noite em grande estilo, um palco gigante foi montado em frente a famosa escadaria vermelha da Times Square para a cerimônia de encerramento do evento. A ex-spice girl Melanie C foi a responsável por agitar a plateia até as 22h, quando a World Pride NYC encerrou as comemorações do domingo. Os mais festeiros tentaram adiar o fim da festa e lotaram as baladas do bairro LGBTQ+ Hell`s Kitchen, onde as filas para entrar chegaram a dobrar a esquina.

A Rebelião

Foto: Felipe Abílio
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Em 1967, ser LGBTQ+ era considerado crime nos Estados Unidos, e mafiosos italianos ainda comandavam o comércio ilegal de bebidas em Nova York. Naquele ano, um deles, conhecido como Fat Tonny, resolveu transformar um antigo restaurante do Greenwich Village em um bar frequentado por gays, lésbicas e travestis. Era o Stonewall Inn, um lugar que vendia bebidas adulteradas, mas, ao mesmo tempo, era a casa de muitas pessoas marginalizadas na época.

“Quando as pessoas entravam no Stonewall, elas podiam andar de mãos dadas, se beijar e, o mais importante, dava para dançar”, disse o frequentador Mark Segal, em uma reportagem do The New York Times.

A máfia não era o foco das autoridades, mas, sim, o público que frequentava o ambiente: os LGBTQs. Uma lei da época definia que se uma pessoa fosse pega usando roupas de um gênero diferente ao seu, ela seria presa na hora. Três peças “adequadas ao seu gênero” era o mínimo aceito pelos policiais — e meias não contavam. Para poder correr melhor da polícia, muitas drag queens deixaram até de usar salto alto.

Mesmo recebendo propina, eram frequentes as batidas policiais no bar. No dia 28 de junho de 1969, no entanto, a noite terminaria diferente. Cansados das investidas, os frequentadores do lugar resolveram se rebelar contra a violência. “A dor, a raiva, a frustração, a humilhação, a constante insistência, a constante agitação que causaram em nossas vidas: era a hora de se livrar daquilo", afirmou ao The New York Times o frequentador Martin Boyce. "Não precisava machucar um policial, não precisava machucar ninguém, só precisava gritar.”

No mesmo dia do ano seguinte, dez mil pessoas se reuniram para comemorar um ano da revolta, dando início às paradas LGBTQs que acontecem hoje em vários lugares do mundo.

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Na sexta-feira (28), dia que marcou exatamente os 50 anos do início da revolta, um grande palco foi montado no fim da Christopher Street, onde o Stonewall está localizado, e recebeu nomes de peso para a comunidade como Donatella Versace, Alicia Keys e Lady Gaga. A cantora de “Born This Way”, surgiu usando um look todo colorido e fez um discurso inflamado a favor dos direitos dos LGBTQ+.

“Pensei muito no que falar para vocês hoje, qual seria a minha intenção, como iria inspirar vocês, como poderia mostrar meu amor por vocês e depois de muito pensar, cheguei nisso. Estou muito emotiva hoje, essa comunidade continua lutando em uma guerra pela aceitação, contra a intolerância com muita bravura. Vocês são a definição de coragem. Me sinto muito honrada e privilegiada de ter sido pedida para estar aqui. Sinto isso porque hoje é o dia de celebrar cada um de vocês do jeito que são”, disse ela.